Obra singular Por Hiran de Melo Cada um de nós é uma obra em processo, nunca acabada, sempre atravessada por tensões que não são falhas, mas marcas da condição humana. Somos feitos de ambivalências: o desejo que aproxima e o medo que afasta, o acolhimento que abre e a recusa que protege. Não há plenitude, há sempre uma falta que nos move, um vazio que nos convoca a criar. Os que nos cuidaram deixaram em nós inscrições, projetos que pareciam caricaturas, mas que eram o melhor que podiam oferecer. O melhor deles era também o seu limite, e esse limite se tornou parte de nós. Não se trata de aceitar essas marcas como destino, mas de reconhecê-las como traços que nos estruturam. Só assim podemos deslocá-las, transformá-las, abrir espaço para que o desejo se reinscreva em novas formas. A vida é como a carona diante do abismo: aceitar pode facilitar a travessia, mas também aprisionar; recusar pode proteger, mas também impedir o movimento. Não há garantias, apenas o risco que aco...
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Quem tem livre-arbítrio? Por Hiran de Melo O tema do livre-arbítrio, quando atravessado pela lente da psicanálise e pela crítica cultural, revela-se menos como uma questão de escolha absoluta e mais como um jogo de condicionamentos. O título do artigo nos provoca a pensar: até que ponto nossas decisões são realmente nossas? Determinismo cultural e social Nascer na Paraiba, na Palestina ou no Tibete não é apenas uma questão geográfica; é um destino simbólico. Cada cultura nos oferece uma moldura invisível: crenças, valores, hábitos, até mesmo o modo como entendemos o que é “verdade”. O que chamamos de livre-arbítrio, muitas vezes, é apenas a liberdade de escolher dentro de um cardápio já pré-definido pela sociedade. A psicanálise nos lembra que o sujeito é atravessado por discursos que o antecedem — somos falados antes de falar. Limitação da percepção A liberdade, nesse sentido, não é infinita. Ela se restringe ao que conseguimos perceber. Escolhemos dentro do limite d...
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O SEU OLHAR Por Hiran de Melo “Tenho contemplado, ao longo desses dias, o seu olhar. O olhar que pulsa nos olhos vivos e o olhar que repousa em tela. Em cada tela, você escolhe um deles, um dos olhos, e o oferece como espelho. São muitas telas, muitas versões. A mesma imagem, mas semblantes distintos. É o olhar que tudo vê, que tudo contempla, que tudo enxerga. Perto ou longe, distante ou íntimo. Ontem, porém, você me mostrou uma tela que não apenas impacta, mas desarma. Uma tela que não apenas instiga, mas suspende. Uma tela que não apenas transcende, mas se enraíza no mais humano. Lá estava um olho só, como sempre, mas desta vez o globo ocular estava fora. Fora do olho, fora do lugar. Era o olho esperando o globo ocular, e o globo ocular fora, exposto, separado, mas ainda retratado. Havia um vazio guardando sua forma, como se fosse um encaixe perfeito, pronto para recebê-lo de volta. Esse vazio não era ausência, mas promessa. Era espaço de leitura infinita, espaço de in...
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Não sou o coletivo, estou no coletivo — e só isso Por Hiran de Melo “Não receba o que vou lhe dizer como apelação. Receba apenas como aquilo que é: uma confidência serena, quase um sussurro. Toda vez — e é toda vez mesmo — que peço algo e esse algo me é protelado, sinto um pequeno adeus. Não um adeus dramático, mas um adeus miúdo, desses que acontecem por dentro. Sinto como se um fio delicado entre nós se afrouxasse; como se uma parte de mim, silenciosamente, se afastasse. Esse adeus não é exatamente um ‘até logo’. É, antes, uma diminuição da presença. Parte de mim ainda pode permanecer ao seu lado, conversar, sorrir, continuar. Mas outra parte — mais sensível, mais vulnerável — recolhe-se. Vai para um canto onde aprende, outra vez, a não esperar demais.” Eu não sou o coletivo. Estou no coletivo — e só isso. Essa frase, tão simples, guarda uma ternura difícil de explicar. Porque estar no coletivo não é o mesmo que ser abraçado por ele. Às vezes estamos cercados de vozes, de rostos, de...
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O Cinzel e a Rosa A Iniciação Feminina como Imperativo do Século XXI Por Hiran de Melo A história das civilizações, por séculos, foi escrita sob o signo do silenciamento. Grandes mentes científicas, líderes comunitárias e artífices da alma humana viram suas contribuições serem relegadas aos bastidores, enquanto o protagonismo era reservado exclusivamente ao universo masculino. No entanto, ao observarmos o panorama contemporâneo, percebemos que o "segredo da vida" e a construção da sociedade não possuem gênero. Se a ciência, a política e a economia já se renderam à evidência do talento feminino, cabe às instituições iniciáticas — guardiãs da evolução moral — questionarem seus próprios umbrais. A Maçonaria, definida como uma escola de virtudes e um caminho para o aperfeiçoamento da "pedra bruta", fundamenta-se no mérito e na retidão de caráter. Diante disso, emerge uma provocação necessária: se o compromisso com o bem coletivo e a busca pela Verdade são os r...
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Ainda Buscando o Sentido da Vida Por Hiran de Melo Tenho 73 anos já vividos. Talvez ainda tenha muito mais para viver. Carrego nas costas uma vida inteira de histórias, encontros e desencontros, momentos em que servi ao outro com dedicação e amor, mas também instantes em que me esqueci de mim. Hoje, ao olhar para trás, percebo que compreendo melhor o caminho que percorri; mas ao olhar para frente, sinto que ainda há muito a viver — e, sobretudo, muito a me encontrar. O Peso da Experiência A idade me ensinou que o tempo não é apenas um acúmulo de dias, mas uma lapidação da alma. Cada dor, cada angústia, cada escolha errada ou acertada deixou marcas que me moldaram. E, mesmo com toda essa bagagem, percebo que o sentido da vida não se esgota naquilo que já vivi. Ele continua a se renovar, como se a existência fosse um livro que ainda não terminou de ser escrito. O Desejo de Autenticidade Passei décadas acreditando que servir ao outro era suficiente para dar sentido à min...
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Poder, Corpo e Verdade no Drama Messiânico Judaico Por Hiran de Melo Introdução Em dois momentos separados por mais de um milênio, o judaísmo viu emergir figuras que condensaram expectativas coletivas, reorganizaram discursos religiosos e mobilizaram corpos em escala massiva: Simon bar Kokhba, no século II, e Sabbatai Zevi, no século XVII. Ambos surgem não apenas como indivíduos carismáticos, mas como efeitos de uma rede de forças: ruínas políticas, humilhações imperiais, perseguições, epidemias, exílio e ansiedade escatológica. O Messias, nesses contextos, não é apenas uma esperança teológica — é uma tecnologia de reorganização do poder e da verdade. Ele redefine o que é lealdade, o que é traição, o que é pureza e o que é pecado. Ele reordena o tempo. O Corpo como Campo de Prova No caso de Bar Kokhba, o messianismo assumiu forma militar. O corpo tornou-se instrumento e prova. Exigia-se disciplina extrema; a fidelidade era testada por gestos físicos radicais. A sobera...