Entre o Querer e o Fazer Uma travessia da vontade humana sob o silêncio do Eterno Por Hiran de Melo Há uma sutileza escondida nas palavras que usamos para prometer a nós mesmos o que ainda não somos. Dizemos: “farei, se Deus quiser”, como quem deposita no céu a responsabilidade pelo próprio passo. E, no entanto, o céu — em sua vastidão silenciosa — não se move para impedir nem para compelir. Ele apenas sustenta. Há, nessa expressão tão comum, um deslocamento quase imperceptível: o homem retira de si o centro da decisão e o projeta para o alto, como se a realização dependesse de uma autorização que nunca foi negada. Mas o Pai, em sua sabedoria insondável, não governa o homem pela imposição — governa pela liberdade. E nisso reside tanto o dom quanto o peso da existência. Não é que Deus não queira. É que Ele já quis — e continua querendo — na própria possibilidade que nos foi dada de escolher. Cada desejo sincero de construção, cada impulso de realização, já carrega em si um...
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A Vontade que Responde ao Silêncio Entre a intenção e o ato, o homem se revela Por Hiran de Melo Há um instante delicado em que o homem se encontra diante de si mesmo — não diante do mundo, nem diante de Deus, mas diante daquilo que, em silêncio, sabe que deve ser feito. Nesse instante, nenhuma palavra é neutra. Tudo o que se diz, revela. Dizer “farei, se Deus quiser” parece, à primeira vista, um gesto de humildade. Mas, por vezes, é apenas uma forma sutil de adiar o encontro com a própria responsabilidade. Porque o Eterno, em sua sabedoria, não habita o campo das indecisões humanas. Ele não oscila, não hesita, não posterga. Ele é. E, ao criar o homem, não o fez dependente de permissões contínuas, mas portador de uma centelha capaz de escolher, decidir e agir. Há, portanto, uma confiança silenciosa depositada em cada ser: a de que ele pode responder à vida com inteireza. O Pai não precisa querer novamente aquilo que já concedeu como possibilidade. A liberdade não é um e...
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O discípulo perfeito segundo Jesus Por Hiran de Melo O discípulo perfeito não é o impecável, mas o que, ao tropeçar, reencontra o caminho e se ergue com o olhar voltado para o sentido profundo da vida. Ele não se mede pela ausência de falhas, mas pela coragem de recomeçar, pela fidelidade em buscar o que é justo e autêntico. Na Galileia do século I, entre pescadores, camponeses e escribas, Jesus surge como reformador do judaísmo, chamando à essência da Lei: não o peso das regras, mas o coração ardente de amor a Deus e ao próximo. O discípulo perfeito é aquele que escuta esse chamado e o traduz em vida, que não se contenta com a letra morta, mas busca o espírito que dá vida. Ser discípulo perfeito é viver como quem descobre que o Reino está próximo, não em palácios ou templos, mas no gesto simples de partilhar o pão, no perdão que liberta, na justiça que restaura. É carregar o fardo da existência não como condenação, mas como possibilidade de sentido. O discípulo perfeit...
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A Páscoa no Contexto Maçônico Por Hiran de Melo Sob a abóbada estrelada da Loja, onde cada símbolo nos convida à reflexão, a Páscoa surge como um marco de espiritualidade universal e de renovação interior. Embora não faça parte dos rituais oficiais da Ordem, sua essência dialoga profundamente com os princípios maçônicos, oferecendo ao iniciado uma oportunidade de meditar sobre a vida, a morte e a transcendência. A Páscoa como Passagem A etimologia da palavra — Pessach, “passagem” — nos recorda que a existência é uma contínua travessia. O maçom, ao longo de sua jornada iniciática, experimenta múltiplas passagens: da ignorância ao conhecimento, da pedra bruta à polida, da inércia à ação construtiva. A Páscoa, nesse sentido, é um convite a reconhecer que cada etapa vencida é um renascimento espiritual. Ressurreição e Iniciação O simbolismo da ressurreição, tão presente na tradição cristã, encontra paralelo nos ritos maçônicos. Assim como Cristo vence a morte e renasce em...
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Do Nada, o Espelho Por Hiran de Melo Ela caminha entre sombras e claridades. Há nela um ponto de silêncio — um rasgo antigo — onde a palavra não alcança, onde o corpo ainda guarda o susto do mundo. Ela tenta nomear o que não se diz: chama, acusa, redefine, como quem costura o vazio com fios de lembrança. Mas cada nome é um nó, e cada nó, um espelho partido. O pai, com sua voz de pedra, deixou marcas que se tornaram fronteiras. Entre o amor e o medo, Ela aprendeu a sobreviver, a depender e a rejeitar, a desejar e a negar. Há nela uma oscilação — um pêndulo entre o toque e o abismo. Ama o que teme, teme o que deseja. E quando sonha transformar o outro, é apenas tentativa de criar um refúgio, um lugar onde o amor não doa, onde o gozo não ameace. O trauma é um ponto de furo, um buraco no tecido da linguagem. Por isso retorna — em aversões, em fantasias, em repetições. Ela gira em torno desse vazio, tentando preenchê-lo com palavras, mas o vazio é t...
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Obra singular Por Hiran de Melo Cada um de nós é uma obra em processo, nunca acabada, sempre atravessada por tensões que não são falhas, mas marcas da condição humana. Somos feitos de ambivalências: o desejo que aproxima e o medo que afasta, o acolhimento que abre e a recusa que protege. Não há plenitude, há sempre uma falta que nos move, um vazio que nos convoca a criar. Os que nos cuidaram deixaram em nós inscrições, projetos que pareciam caricaturas, mas que eram o melhor que podiam oferecer. O melhor deles era também o seu limite, e esse limite se tornou parte de nós. Não se trata de aceitar essas marcas como destino, mas de reconhecê-las como traços que nos estruturam. Só assim podemos deslocá-las, transformá-las, abrir espaço para que o desejo se reinscreva em novas formas. A vida é como a carona diante do abismo: aceitar pode facilitar a travessia, mas também aprisionar; recusar pode proteger, mas também impedir o movimento. Não há garantias, apenas o risco que aco...
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Quem tem livre-arbítrio? Por Hiran de Melo O tema do livre-arbítrio, quando atravessado pela lente da psicanálise e pela crítica cultural, revela-se menos como uma questão de escolha absoluta e mais como um jogo de condicionamentos. O título do artigo nos provoca a pensar: até que ponto nossas decisões são realmente nossas? Determinismo cultural e social Nascer na Paraiba, na Palestina ou no Tibete não é apenas uma questão geográfica; é um destino simbólico. Cada cultura nos oferece uma moldura invisível: crenças, valores, hábitos, até mesmo o modo como entendemos o que é “verdade”. O que chamamos de livre-arbítrio, muitas vezes, é apenas a liberdade de escolher dentro de um cardápio já pré-definido pela sociedade. A psicanálise nos lembra que o sujeito é atravessado por discursos que o antecedem — somos falados antes de falar. Limitação da percepção A liberdade, nesse sentido, não é infinita. Ela se restringe ao que conseguimos perceber. Escolhemos dentro do limite d...