SOMBRAS E MEDOS COM ESSAS COISAS NÃO SE BRINCA Entre o medo que inventamos e aquele que nos transforma Por Hiran de Melo Há brincadeiras que terminam quando cessam as risadas. Outras continuam vivendo dentro de nós, muito depois de o tempo apagar os detalhes do acontecimento. Não porque tenhamos compreendido o que aconteceu, mas porque alguma coisa, naquele instante, rompeu a fronteira entre aquilo em que acreditávamos e aquilo que julgávamos impossível. Na casa de Dona Arida, aprendi que o medo também se alimenta da imaginação. As tardes de sábado tinham um ritual próprio: bolachas, margarina, café bem doce e histórias de assombração. Dona Arida sabia conduzir os ouvintes pelos caminhos da inquietação. Sua voz desenhava sombras, suas palavras davam movimento ao que não podíamos ver, e a casa, com suas portas fechadas e o banheiro no quintal, parecia participar da narrativa. Éramos adolescentes, ainda quase crianças, mas já conhecíamos uma verdade que os adultos...