Entrega e Pertencimento Quando o coração deixa de esperar apenas o outro e descobre que pertence à própria vida Por Hiran de Melo Há momentos em que atravessamos o mundo como quem caminha com os olhos abertos, mas sem realmente enxergar. Tudo permanece em seu devido lugar: as ruas, as pessoas, o céu, o trabalho, os compromissos. Ainda assim, algo parece ausente. Não porque o mundo tenha perdido sua beleza, mas porque a alma deixou de encontrar nele um motivo para permanecer desperta. Esse é um dos dramas mais silenciosos da existência humana. A sensação de estar "meio desligado" não nasce da falta de inteligência nem da incapacidade de perceber a realidade. Surge quando a consciência deixa de experimentar pertencimento. O olhar continua funcionando, mas já não encontra aquilo que alimenta o coração. Os pés continuam firmes no chão, mas a vida parece suspensa, como se aguardasse uma autorização para começar. É curioso perceber que, nesses instantes, o ser humano nã...
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A Consciência Cósmica Quando Descobrimos que Não Estamos em Deus, Mas Somos Nele Por Hiran de Melo Há um instante na caminhada humana em que a pergunta deixa de ser "onde está Deus?" e passa a ser "como deixei de percebê-Lo?". Durante muito tempo imaginamos Deus como um objeto distante, uma presença localizada em algum lugar do universo, um soberano assentado acima das estrelas observando silenciosamente a criação. Essa imagem conforta a razão, porque a razão compreende aquilo que pode separar. Mas a experiência espiritual dissolve as distâncias. Ela não encontra um Deus diante de si; descobre uma realidade na qual tudo já está mergulhado. Talvez o maior equívoco da linguagem seja dizer que Deus existe. Existir é ocupar um espaço, possuir limites, ser percebido pelos sentidos, ser analisado pelas categorias do pensamento. Tudo aquilo que existe participa do tempo, nasce, transforma-se e, de algum modo, está sujeito às condições da própria existência. ...
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A Dialética do Espaço Aberto Da Função do Cárcere à Redenção da Ruína Por Hiran de Melo "Sinto você como um pássaro que saiu da gaiola afetiva e deseja voar. Pássaro que me contempla e vê em mim uma outra gaiola. Como gaiola sinto-me vazia e sem sentido em existir. E mais que isso, uma gaiola quebrada e de porta aberta." Hiran de Melo Poucas imagens conseguem revelar com tanta delicadeza a tragédia dos afetos quanto a do pássaro e da gaiola. Não porque falem apenas de liberdade, mas porque interrogam silenciosamente a identidade de quem ama. Afinal, o que resta da gaiola quando o pássaro já não deseja permanecer? E o que sobra daquele que fez de sua vida um abrigo para alguém que escolheu o horizonte? A linguagem da poesia alcança aquilo que a razão frequentemente não consegue dizer. O amor não se rompe apenas quando duas pessoas se afastam; rompe-se, sobretudo, quando duas maneiras de compreender a proximidade deixam de conversar entre si. Para um, permanecer signi...
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O Homem que descobriu que Nem Sempre o Amor Basta Por Hiran de Melo “ Esse texto não é a tentativa de justificar uma vida, mas de compreendê-la. Há nele uma honestidade que dói porque não busca absolvição. Apenas reconhecimento .” Há um momento na vida em que a coragem deixa de ser o enfrentamento do mundo e passa a ser o enfrentamento do espelho. É quando percebemos que algumas das feridas que carregamos não ficaram apenas em nós. Elas atravessaram nossos gestos, nossas palavras, nossos silêncios e alcançaram justamente aqueles que mais amávamos proteger. Essa talvez seja a forma mais amarga da consciência. Não é a culpa. É a lucidez. Durante muito tempo imaginamos que amar fosse suficiente. Que bastava querer o bem do outro para que o bem acontecesse. A experiência, porém, nos ensina algo infinitamente mais doloroso: pessoas profundamente amorosas também podem ferir profundamente. Porque ninguém oferece aquilo que nunca recebeu inteiro. Há pais que abraçam os filh...
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Debaixo do Sol nada se perde, tudo se transforma Por Hiran de Melo Há um instante do dia em que a luz parece desacelerar. O céu abandona lentamente o azul e se entrega aos tons dourados, alaranjados e rubros. É o momento em que o sol se despede sem fazer alarde. Não luta contra a noite. Apenas cumpre seu ciclo. Talvez seja por isso que o pôr do sol desperte tanta nostalgia. Nele, percebemos que tudo passa. Não apenas o dia. Também os encontros, os afetos, as certezas, a juventude, os sonhos que um dia pareciam eternos e as pessoas que acreditávamos jamais perder. É diante do horizonte que muitas ausências voltam a conversar conosco. Mas será que realmente perdemos? Costumamos imaginar a perda como um desaparecimento absoluto, como se algo fosse arrancado da existência e lançado ao vazio. Entretanto, a natureza jamais confirma essa crença. Debaixo do sol, nada desaparece por completo. Tudo muda de forma. A folha que cai da árvore torna-se húmus. A chuva que evapora regress...