Os que carregam pedras ainda estão entre nós Por Hiran de Melo Existe algo profundamente instigante na figura de Jesus. Não no Cristo transformado em símbolo religioso. Não no Cristo domesticado pelos templos. Mas no homem que atravessava ruas poeirentas sentando-se à mesa com aqueles que a moral rejeitava. Porque Jesus nunca pareceu ameaçar os pecadores. Ele ameaçava os que acreditavam não ser um deles. Talvez por isso a pergunta continue tão perturbadora: “Tu achas que a humanidade mataria Jesus de novo?” A resposta talvez seja ainda mais perturbadora: Certamente, rapidamente seria condenado. Porque os que desejaram a morte de Jesus não eram os marginalizados. Não eram as prostitutas. Não eram os famintos. Não eram os impuros sociais. Eram os defensores da ordem. Os guardiões da moral. Os religiosos. O “povo de bem”. Aqueles que acreditavam possuir Deus com tanta certeza que já não conseguiam enxergar o humano diante deles. Existe uma pas...
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A Herança Invisível da Dor Por Hiran de Melo Existe um tipo de peso que não nasce conosco. Ele chega antes do nosso primeiro choro. Antes mesmo do nosso nome. É um peso silencioso, transmitido não pelo sangue, mas pelos afetos interrompidos, pelas dores não elaboradas, pelas ausências que atravessaram o tempo sem jamais encontrarem repouso. Todo ambiente de cuidado possui seus fantasmas. Silêncios que ninguém nomeia. Humilhações engolidas sem escuta. Afetos negados. Corpos presentes, mas emocionalmente ausentes. Há crianças que crescem aprendendo que amor é medo. Outras aprendem que existir demais incomoda. Algumas descobrem cedo que precisam esconder a própria tristeza para não desorganizarem os adultos ao redor. E assim, sem perceber, recebemos marcas emocionais daqueles que nos cuidaram, dos espaços onde fomos formados, das presenças e ausências que moldaram nossa entrada no mundo. A psicanálise compreende que o ser humano não nasce em um vazio. Entramos num campo já o...
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Poema da Transformação — Entre o Ser e o Retorno Por Hiran de Melo Tenho em minha casa quatro pés de jasmins. E, no entanto, não são apenas flores que habitam o jardim, mas lições silenciosas que a vida repete para quem se dispõe a escutar. À noite, abrem-se — como almas que, por um breve instante, lembram-se de sua origem luminosa e se oferecem ao mundo em forma de perfume. Exalam ternura, mas não se demoram. Há nelas uma pressa serena, quase sagrada, como se soubessem que existir é um gesto que não se prolonga, apenas se cumpre. Pela manhã, já não são as mesmas. As pétalas cedem, o branco se recolhe, e o chão recebe, em silêncio, aquilo que antes se erguia em graça. O jardim não entristece — transforma-se. A grama, mesmo sob o peso do que caiu, continua a crescer, como quem compreende que viver é acolher também o que termina. E então percebo: não é das flores que falo, nem de suas cores ou perfumes — é do mistério que as atravessa. Chamamos de m...
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Entre o Verbo e o Silêncio Uma reflexão para os obreiros da Excelsa Loja de Perfeição” Paz e Amor” Por Hiran de Melo Há um instante, anterior a toda palavra, em que o homem apenas sente. Não pensa Deus — pressente. Não define — busca. É nesse território silencioso que nasce a primeira concepção do Divino. O homem comum, em sua travessia de dores e esperanças, ergue dentro de si uma figura paterna: um Deus que acolhe, que protege, que escuta . Não é uma construção filosófica, mas uma necessidade existencial. Como a criança que, ao cair, procura o colo, assim a alma humano, ao se ver diante do abismo da incerteza, invoca um Pai. E esse gesto, simples e profundo, já é uma oração — ainda que não formulada em palavras. Mas há um outro olhar, mais inquieto, que não se contenta com o consolo. É o olhar do homem que desperta. Nessa perspectiva, Deus não é apenas aquele que responde — é aquele que já respondeu antes mesmo da pergunta. A liberdade concedida ao homem não é ab...
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Entre o Querer e o Fazer Uma travessia da vontade humana sob o silêncio do Eterno Por Hiran de Melo Há uma sutileza escondida nas palavras que usamos para prometer a nós mesmos o que ainda não somos. Dizemos: “farei, se Deus quiser”, como quem deposita no céu a responsabilidade pelo próprio passo. E, no entanto, o céu — em sua vastidão silenciosa — não se move para impedir nem para compelir. Ele apenas sustenta. Há, nessa expressão tão comum, um deslocamento quase imperceptível: o homem retira de si o centro da decisão e o projeta para o alto, como se a realização dependesse de uma autorização que nunca foi negada. Mas o Pai, em sua sabedoria insondável, não governa o homem pela imposição — governa pela liberdade. E nisso reside tanto o dom quanto o peso da existência. Não é que Deus não queira. É que Ele já quis — e continua querendo — na própria possibilidade que nos foi dada de escolher. Cada desejo sincero de construção, cada impulso de realização, já carrega em si um...
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A Vontade que Responde ao Silêncio Entre a intenção e o ato, o homem se revela Por Hiran de Melo Há um instante delicado em que o homem se encontra diante de si mesmo — não diante do mundo, nem diante de Deus, mas diante daquilo que, em silêncio, sabe que deve ser feito. Nesse instante, nenhuma palavra é neutra. Tudo o que se diz, revela. Dizer “farei, se Deus quiser” parece, à primeira vista, um gesto de humildade. Mas, por vezes, é apenas uma forma sutil de adiar o encontro com a própria responsabilidade. Porque o Eterno, em sua sabedoria, não habita o campo das indecisões humanas. Ele não oscila, não hesita, não posterga. Ele é. E, ao criar o homem, não o fez dependente de permissões contínuas, mas portador de uma centelha capaz de escolher, decidir e agir. Há, portanto, uma confiança silenciosa depositada em cada ser: a de que ele pode responder à vida com inteireza. O Pai não precisa querer novamente aquilo que já concedeu como possibilidade. A liberdade não é um e...
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O discípulo perfeito segundo Jesus Por Hiran de Melo O discípulo perfeito não é o impecável, mas o que, ao tropeçar, reencontra o caminho e se ergue com o olhar voltado para o sentido profundo da vida. Ele não se mede pela ausência de falhas, mas pela coragem de recomeçar, pela fidelidade em buscar o que é justo e autêntico. Na Galileia do século I, entre pescadores, camponeses e escribas, Jesus surge como reformador do judaísmo, chamando à essência da Lei: não o peso das regras, mas o coração ardente de amor a Deus e ao próximo. O discípulo perfeito é aquele que escuta esse chamado e o traduz em vida, que não se contenta com a letra morta, mas busca o espírito que dá vida. Ser discípulo perfeito é viver como quem descobre que o Reino está próximo, não em palácios ou templos, mas no gesto simples de partilhar o pão, no perdão que liberta, na justiça que restaura. É carregar o fardo da existência não como condenação, mas como possibilidade de sentido. O discípulo perfeit...