O Controle dos Desejos Entre as Vozes do Inconsciente e a Liberdade da Consciência Por Hiran de Melo Costumamos acreditar que somos senhores absolutos de nossas escolhas. Quando alcançamos um objetivo, afirmamos com convicção: "Foi exatamente o que eu quis." Quando fracassamos ou agimos de forma contraditória aos nossos valores, frequentemente nos justificamos dizendo: "Nem sei por que fiz aquilo." Talvez as duas afirmações sejam apenas parcialmente verdadeiras. O ser humano é um território mais complexo do que costuma admitir. Há em nós desejos conscientes, mas também forças subterrâneas que operam longe da luz da razão. Há impulsos, medos, carências, fantasias, memórias e expectativas que influenciam silenciosamente nossas decisões. Foi justamente essa complexidade que Jacques Lacan procurou compreender ao afirmar que o sujeito não é senhor em sua própria casa. Para Lacan, o desejo não nasce simplesmente de uma escolha racional. Ele é constituído na ...
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Não Tem Mais Jeito O Desejo, a Falta e o Adeus ao "E Se" Por Hiran de Melo Existe uma frase que soa como uma sentença: "Não tem mais jeito. Acabou. Boa sorte." Ouvimos essas palavras e imediatamente algo dentro de nós se rebela. Porque o ser humano possui uma dificuldade profunda em aceitar os finais. Não apenas os finais dos relacionamentos. Não apenas os finais das oportunidades. Mas, sobretudo, o fim das fantasias. E talvez seja justamente isso que mais nos faz sofrer. A psicanálise de Jacques Lacan nos oferece uma chave importante para compreender esse fenômeno. Segundo Lacan, não vivemos apenas na realidade dos fatos. Vivemos também na realidade dos significados que construímos sobre os fatos. Quando algo termina, nem sempre sofremos pelo que aconteceu. Muitas vezes sofremos pelo que poderia ter acontecido. Não é a perda da pessoa. É a perda da história imaginária que escreveríamos com ela. Não é a perda do trabalho. É a ...
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O Pai Nosso dos Céus e o Pai Todo-Poderoso dos Impérios Por Hiran de Melo Existe uma diferença sutil, mas profunda, entre o Pai que Jesus chamava de "Nosso Pai" e o Deus que, séculos depois, muitos passaram a apresentar como o Senhor absoluto dos impérios religiosos. Talvez essa seja uma das maiores transformações ocorridas na história da espiritualidade. O Nazareno ensinava: "Pai nosso que estás nos céus..." Não dizia: "Meu Pai." Nem dizia: "Pai dos sacerdotes." Nem dizia: "Pai dos escolhidos." Nem dizia: "Pai do império." Dizia: "Pai nosso." Uma expressão simples. Mas revolucionária. Porque destrói imediatamente toda hierarquia espiritual baseada na exclusividade. Se Deus é nosso Pai, então somos irmãos. Se somos irmãos, ninguém é proprietário de Deus. Se ninguém é proprietário de Deus, nenhuma instituição pode reivindicar monopólio sobre o sagrado. Essa era uma ideia p...
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A Porta e a Travessia Por Hiran de Melo Existem duas frases no Evangelho que, à primeira vista, parecem pertencer a caminhos diferentes. Uma fala da fé. A outra fala da prática. Uma fala de crer. A outra fala de viver. A primeira é conhecida por quase todo cristão: " Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna ." (João, 3) A segunda costuma causar mais desconforto: " Nem todo aquele que diz a mim: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus, mas somente o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. " (Mateus, 7) Durante séculos, multidões tentaram escolher entre uma e outra. Alguns abraçaram a fé e esqueceram a transformação. Outros enfatizaram as obras e esqueceram a experiência interior. Mas talvez Jesus jamais tenha pretendido criar essa separação. Talvez ele estivesse descrevendo duas etapas de uma mesma jornada. A porta e a tra...