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  Espiritualidade e Existencialismo CAMINHAR JUNTOS Por Hiran de Melo Os anos passam. E talvez a maior transformação não esteja no rosto que o espelho devolve, mas naquilo que aprendemos a compreender sobre nós mesmos e sobre o outro. Já não somos aqueles que um dia se encontraram. O tempo levou algumas ilusões, acrescentou algumas rugas e deixou cicatrizes onde antes havia apenas desejo. Aprendemos, pouco a pouco, que amar não é apenas sentir. É permanecer . No começo, o amor tem pressa. Procura o beijo, deseja o abraço, quer a presença inteira do outro. Tudo parece urgente, porque ainda não sabemos quanto tempo teremos. Depois, a vida ensina outra linguagem. O amor amadurece quando descobrimos que caminhar juntos não significa seguir no mesmo ritmo, nem pensar com as mesmas palavras. Significa não transformar a diferença em distância . Há dias em que um caminha mais depressa. Há outros em que precisa parar. E então o outro espera. Porque, numa vida compa...
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Espiritualidade e Existencialismo PEDALAR JUNTOS Por Hiran de Melo No começo, pedalamos depressa. Havia pressa no caminho, urgência no encontro, e nossas mãos se procuravam como se o mundo pudesse acabar amanhã. Depois vieram os anos. E aprendemos que pedalar juntos não significa correr na mesma direção. Significa saber diminuir o ritmo quando o outro precisa . É esperar. É compreender. É permanecer. Porque haverá dias em que você estará forte e eu estarei cansado. E haverá dias em que será a minha mão aquela que você precisará segurar. Talvez seja isso que o tempo ensina: a amizade não precisa permanecer igual ao que era. Precisa apenas permanecer verdadeira. Porque o tempo não conserva as relações. Ele as revela. Mostra quem permanece quando a velocidade diminui, quando o entusiasmo passa e quando o caminho deixa de ser fácil. Um dia, talvez nossos pedais girem mais lentamente. Mas, se ainda houver uma mão procurando a outra, se ainda hou...
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  Espiritualidade e Existencialismo A Ingratidão e a escolha de ser Por Hiran de Melo “O ser humano é ingrato por natureza?” Talvez não. Talvez a ingratidão não seja nossa natureza, mas uma das sombras que podem crescer quando deixamos de trabalhar a própria pedra. O homem nasce incompleto. Recebe a pedra bruta e, ao longo da vida, escolhe o que fará dela. Pode transformá-la em templo. Pode deixá-la permanecer pedra. Por isso, a ingratidão não é destino. É escolha. E existe algo ainda mais perigoso: permitir que a ingratidão dos outros nos torne semelhantes a eles. Alguém nos decepciona, e passamos a desconfiar de todos. Alguém não agradece, e deixamos de servir. Alguém não reconhece nosso gesto, e abandonamos a fraternidade. Nesse instante, a pedra do outro começa a ser levantada dentro de nós. O verdadeiro trabalho está em não permitir isso. O bem que fazemos não pode depender da gratidão que recebemos. A semente não pergunta à terra se será lembrada quando ...
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  Quem somos nós O Relógio e a Advertência do Irmão Por Hiran de Melo Há uma luz específica que só existe nas telas de celular às vésperas de um encontro importante. Não é a luz do dia, nem a do sono. É a luz de quem, mesmo aposentado, ainda se organiza para servir. Foi nessa luz que os dois se encontraram. Não presencialmente — o corpo já não corre com a pressa de antes —, mas na tela pequena onde cabem, ainda assim, décadas de irmandade. Dois homens que atravessaram o tempo lado a lado, um caminho de aventais e colunas, de silêncios ensinados e palavras pesadas na medida certa. Dois velhos amigos maçons, tratando, como tantas vezes trataram, do que parece pequeno: o horário de uma reunião. Mas nada, entre eles, era pequeno de verdade. Um escrevia como quem prepara o terreno para uma cerimônia dupla — de um lado, a justa homenagem a um irmão querido; do outro, a sessão magna, onde os mistérios antigos se repetem como se fossem a primeira vez. — Quem irá lhe saudar...
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Entrega e Pertencimento Quando o coração deixa de esperar apenas o outro e descobre que pertence à própria vida Por Hiran de Melo Há momentos em que atravessamos o mundo como quem caminha com os olhos abertos, mas sem realmente enxergar. Tudo permanece em seu devido lugar: as ruas, as pessoas, o céu, o trabalho, os compromissos. Ainda assim, algo parece ausente. Não porque o mundo tenha perdido sua beleza, mas porque a alma deixou de encontrar nele um motivo para permanecer desperta. Esse é um dos dramas mais silenciosos da existência humana. A sensação de estar "meio desligado" não nasce da falta de inteligência nem da incapacidade de perceber a realidade. Surge quando a consciência deixa de experimentar pertencimento. O olhar continua funcionando, mas já não encontra aquilo que alimenta o coração. Os pés continuam firmes no chão, mas a vida parece suspensa, como se aguardasse uma autorização para começar. É curioso perceber que, nesses instantes, o ser humano nã...
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  A Consciência Cósmica Quando Descobrimos que Não Estamos em Deus, Mas Somos Nele Por Hiran de Melo Há um instante na caminhada humana em que a pergunta deixa de ser "onde está Deus?" e passa a ser "como deixei de percebê-Lo?". Durante muito tempo imaginamos Deus como um objeto distante, uma presença localizada em algum lugar do universo, um soberano assentado acima das estrelas observando silenciosamente a criação. Essa imagem conforta a razão, porque a razão compreende aquilo que pode separar. Mas a experiência espiritual dissolve as distâncias. Ela não encontra um Deus diante de si; descobre uma realidade na qual tudo já está mergulhado. Talvez o maior equívoco da linguagem seja dizer que Deus existe. Existir é ocupar um espaço, possuir limites, ser percebido pelos sentidos, ser analisado pelas categorias do pensamento. Tudo aquilo que existe participa do tempo, nasce, transforma-se e, de algum modo, está sujeito às condições da própria existência. ...
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A Dialética do Espaço Aberto Da Função do Cárcere à Redenção da Ruína Por Hiran de Melo "Sinto você como um pássaro que saiu da gaiola afetiva e deseja voar. Pássaro que me contempla e vê em mim uma outra gaiola. Como gaiola sinto-me vazia e sem sentido em existir. E mais que isso, uma gaiola quebrada e de porta aberta." Hiran de Melo Poucas imagens conseguem revelar com tanta delicadeza a tragédia dos afetos quanto a do pássaro e da gaiola. Não porque falem apenas de liberdade, mas porque interrogam silenciosamente a identidade de quem ama. Afinal, o que resta da gaiola quando o pássaro já não deseja permanecer? E o que sobra daquele que fez de sua vida um abrigo para alguém que escolheu o horizonte? A linguagem da poesia alcança aquilo que a razão frequentemente não consegue dizer. O amor não se rompe apenas quando duas pessoas se afastam; rompe-se, sobretudo, quando duas maneiras de compreender a proximidade deixam de conversar entre si. Para um, permanecer signi...