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  Eu, você e o carnaval ausente Por Hiran de Melo Você, amiga querida, confessa que muitas vezes se cansa do peso das relações e precisa recolher-se ao silêncio, ao deserto íntimo, para então retornar ao convívio. Em mim, o movimento é inverso: não raro me fatigo de mim mesmo, e busco o social como fuga, como tentativa de dissolver o excesso de minha própria presença. É nesse mergulho no outro que procuro recompor-me, aceitar-me em minha estranheza inteira. Sou um ser que aparenta sociabilidade, mas não é disso que se trata. O que me move é uma carência peculiar: não a falta, mas a abundância sufocante de mim mesmo. Uma saturação que me oprime, um desejo de não abraçar mais ninguém, e também de não ser abraçado. O problema é que, ultimamente, nem o social me serve de alívio. O carnaval, outrora promessa de esquecimento, tornou-se vazio. Já não saio, já não ligo a televisão. A folia do outro não me contagia. Às vezes, sinto até uma espécie de piedade: o desconforto de ver o outro ma...
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Carta do Mestre Melquisedec ao Compositor Filho da palavra e do ritmo, Escuto em teus versos o eco daquilo que não se deixa capturar: a ausência que insiste, o desejo que retorna, o canto que resiste. Tu te moves entre festa e melancolia, entre o abraço e a perda, entre o sonho e o despertar. Cada estrofe que ofereces é como um espelho quebrado, refletindo fragmentos de ti e do mundo que te atravessa. Quando proclamas que “a vida começa agora”, anuncias o instante decisivo, aquele que não pode ser adiado. Quando perguntas “aonde estás, agora?”, revelas o vazio que funda o teu canto. Quando dizes “matemos a esperança”, mostras a coragem de enfrentar o presente sem ilusões. E quando, por fim, clamas “atire!”, revelas que até na morte há compaixão, que até no limite extremo pulsa o amor. Teus tambores não são apenas instrumentos: são símbolos da pulsação da vida, daquilo que insiste em se repetir, mesmo quando a dor ameaça calar. Teus sonhos não são apenas imagens: são tentativas ...
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  Carta de Mestre Melquisedec ao Poeta Amado irmão na arte e no espírito, Tua obra recente chega a mim como um sopro que atravessa desertos e calçadas, revelando o sujeito que se debate entre a ausência e o desejo. Cada verso teu é como um espelho que reflete a falta estrutural, mas também a potência criadora que nasce do vazio. Na canção em que a amada se foi, percebo o eco do significante que retorna, insistente, lembrando que o objeto nunca se deixa possuir por inteiro. O perfume, a cama, a voz — restos que apontam para o que falta — tornam-se sinais de uma busca infinita. Quando descreves a calçada, vejo o entre-lugar onde o íntimo se encontra com o público, onde o olhar e o sorriso se chocam com a linguagem que falha. Ali, o sujeito se perde e se reinventa, revelando a fragilidade da identidade e a força da criação. Nos desertos de afetos, tua repetição é tentativa de simbolizar o insuportável. Mas o Real insiste, árido, sem resposta. E ainda assim, é nesse limite da...
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  Oração pela Família Por Hiran de Melo Colocamos nossa família diante do Ser, como quem confia o que é mais precioso ao silêncio que sustenta todas as presenças. Que cada um de nós seja guardado na clareira do Teu olhar, mesmo quando os caminhos nos lançam em horizontes distintos. Que nossa casa não seja apenas paredes, mas lugar de habitar, de escuta e de paz. Se houver feridas, que o Ser nos revele o sentido do cuidado. Se houver desencontros, que o diálogo seja ponte. Se houver carência, que a abertura ao Mistério seja abundância. Ensina-nos a amar com paciência, a falar com ternura, a perdoar com liberdade. Que nossos laços sejam raízes que nos firmam no chão, e asas que nos chamam ao horizonte do possível. Abençoa nossa família com saúde do corpo e do coração, com união que não aprisiona, mas liberta, com serenidade que nasce da confiança no Ser. Que nunca nos falte fé para atravessar as noites, respeito para honrar o enigma do outro, e amor para reconhecer em c...
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Entre Hiran de Melo e o Evangelho de Marcos Amados irmãos, Hoje somos convidados a escutar duas vozes que, embora diferentes em forma, se encontram na mesma verdade: a voz do poeta e a voz do Evangelho. Hiran de Melo, em sua reflexão cotidiana, nos lembra que o trabalho não é apenas técnica, mas expressão de quem somos. Ele nos chama a ocupar o dia com intenção, a colocar verdade em cada detalhe, a encontrar paz não nos prazos, mas na consciência de sermos inteiros. O Evangelho de Marcos, por sua vez, proclama que não é o que entra no homem que o torna impuro, mas o que sai de seu coração. Jesus nos ensina que a raiz da vida está dentro: é do coração que brotam tanto as más intenções quanto a pureza que santifica. Assim, o poeta e o Cristo se encontram: ambos nos dizem que o essencial não está fora, mas dentro. O que fazemos no mundo é reflexo do que cultivamos no coração. Se o coração é leve, o trabalho se torna serviço; se o coração é verdadeiro, o gesto se torna bênção. ...
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  O que somos? Uma fronteira aberta Por Hiran de Melo Se ousamos perguntar o que somos, logo sentimos que não há resposta que se sustente como pedra ou monumento. O "nós" não é estátua, mas verbo: um sopro em movimento, uma onda que se ergue e se desfaz no instante em que tentamos aprisioná-la em palavras. A Ilusão do Centro Acostumamo-nos a acreditar que existe um "eu" primordial, uma essência intacta escondida no fundo da alma. Mas, ao nos aproximarmos, percebemos que a linguagem nos antecede. Nascemos em um oceano de símbolos, histórias e vozes que já estavam aqui. Não somos senhores absolutos do que dizemos; somos atravessados por ecos que nos ensinaram a falar. O Jogo da Différance A identidade é um jogo sem fim, feito de adiamentos e contrastes. Nunca está pronta, nunca se entrega inteira. Entre o que já fomos e o que ainda seremos: somos sempre promessa e memória, nunca presença plena. No espelho do outro: o "eu"...
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Caro Pequeno Poeta, Ao percorrer seus versos, percebo que sua poesia é, acima de tudo, um mapa das buscas humanas. Você escreve como quem tenta dar corpo e sabor a algo que as palavras nem sempre alcançam, mas que o coração sente com intensidade plena. Notei que sua inspiração nasce, muitas vezes, da falta — e, em suas mãos, essa ausência se transforma em banquete: o desejo vira manteiga, chocolate e caramelo. É como se, ao provar esses sabores na alma, você conseguisse acalmar a inquietação que todos carregamos, convertendo saudade e querer em uma “degustação” suave e bela. Até mesmo um cheiro, trazido pelo que você chama de sopro divino, torna-se fio condutor capaz de ordenar o caos das emoções. Sua identidade também brilha quando se coloca diante do outro. No “encontro dos olhares”, você parece descobrir quem é; é no reflexo do olhar alheio que sua própria existência ganha contorno e vida. Essa segurança não vem apenas das pessoas, mas também do chão que você pisa. Ao afirmar ...