Não
sou o coletivo, estou no coletivo — e só isso
Por Hiran de Melo
“Não
receba o que vou lhe dizer como apelação. Receba apenas como aquilo que é: uma
confidência serena, quase um sussurro. Toda vez — e é toda vez mesmo — que peço
algo e esse algo me é protelado, sinto um pequeno adeus. Não um adeus
dramático, mas um adeus miúdo, desses que acontecem por dentro. Sinto como se
um fio delicado entre nós se afrouxasse; como se uma parte de mim,
silenciosamente, se afastasse. Esse adeus não é exatamente um ‘até logo’. É,
antes, uma diminuição da presença. Parte de mim ainda pode permanecer ao seu
lado, conversar, sorrir, continuar. Mas outra parte — mais sensível, mais
vulnerável — recolhe-se. Vai para um canto onde aprende, outra vez, a não
esperar demais.”
Eu
não sou o coletivo. Estou no coletivo — e só isso. Essa frase, tão simples,
guarda uma ternura difícil de explicar. Porque estar no coletivo não é o mesmo
que ser abraçado por ele. Às vezes estamos cercados de vozes, de rostos, de
movimentos — e, ainda assim, o coração experimenta uma solidão mansa.
Quando
ouço “amanhã eu lhe dou” ou “depois eu lhe entrego”, não escuto apenas um
adiamento. Escuto uma ausência provisória que toca fundo. O que peço quase
nunca é o essencial. O essencial é o gesto — o gesto contido na resposta que
informa: “eu vejo você”. É a confirmação suave de que minha presença importa.
Talvez
isso soe como exigência. Talvez alguém chame de capricho. Mas mimado eu nunca
fui. Aprendi cedo a pedir pouco, porque o “não” quase sempre vinha antes do
“sim”. O “sim” era raro — e, por isso, precioso. Pedir tornava-se um risco, uma
exposição delicada da alma.
Se
em algum momento me mimei, foi por cuidado. Foi a maneira que encontrei de
oferecer a mim mesmo aquilo que tantas vezes faltou: acolhimento. O mimo,
quando nasce dessa necessidade, não é excesso — é carinho próprio. O problema
nunca está no ato de zelar, mas no exagero que tenta preencher, à força, o que
só o afeto autêntico pode sustentar.
O
pedido é mais do que um pedido. É a forma que o desejo encontra para se tornar
visível. Não é apenas o objeto que busco; é o laço. É saber que ele existe, que
respira, que pulsa. Quando a resposta se adia, o que dói não é a espera — é o
medo de que o fio tenha se rompido.
E,
ainda assim, é nesse intervalo — entre o desejo que insiste e a resposta que
demora — que eu me reconheço. É ali que descubro que o coletivo é cenário, mas
o sentir é singular. Posso estar entre muitos, mas continuo necessitando do
olhar específico daquela a quem dirijo minha palavra.
Dizer
isso é um gesto de afeto. É estender uma ponte. Porque talvez você também já
tenha sentido que um simples “depois” pesa mais do que deveria. Talvez você
também já tenha aprendido a se cuidar quando o outro não pôde — ou não soube —
cuidar.
Eu
falo de mim, sim. Mas falo também de nós. Porque é nesse espaço delicado —
entre o pedido e a resposta, entre a presença e a ausência — que se revela algo
profundamente humano: desejamos, esperamos, às vezes perdemos… e, mesmo assim,
continuamos a amar, a confiar e a tentar outra vez.
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