O SEU OLHAR

Por Hiran de Melo

“Tenho contemplado, ao longo desses dias, o seu olhar. O olhar que pulsa nos olhos vivos e o olhar que repousa em tela. Em cada tela, você escolhe um deles, um dos olhos, e o oferece como espelho. São muitas telas, muitas versões. A mesma imagem, mas semblantes distintos. É o olhar que tudo vê, que tudo contempla, que tudo enxerga. Perto ou longe, distante ou íntimo.

Ontem, porém, você me mostrou uma tela que não apenas impacta, mas desarma. Uma tela que não apenas instiga, mas suspende. Uma tela que não apenas transcende, mas se enraíza no mais humano. Lá estava um olho só, como sempre, mas desta vez o globo ocular estava fora. Fora do olho, fora do lugar. Era o olho esperando o globo ocular, e o globo ocular fora, exposto, separado, mas ainda retratado.

Havia um vazio guardando sua forma, como se fosse um encaixe perfeito, pronto para recebê-lo de volta. Esse vazio não era ausência, mas promessa. Era espaço de leitura infinita, espaço de interpretação sem fronteiras. O globo ocular deslocado parecia carregar consigo não apenas a visão, mas o próprio corpo que se descentrava, como se a identidade tivesse se desprendido do eixo e se abrisse ao mundo.

E eu me vi tocado por essa imagem. Porque há ternura em aceitar que nem sempre estamos inteiros, que às vezes somos feitos de partes que se afastam, mas ainda se reconhecem. Há leveza em perceber que o olhar pode estar dentro e fora, presente e ausente, imanente e transcendental. Somos dois em um, somos múltiplos em um só gesto.

No deslocamento do globo ocular, há uma metáfora do ser: o corpo que se abre, a alma que se expõe, o olhar que se reinventa. E nesse jogo de presenças e ausências, o que permanece é a delicadeza de continuar buscando — não a resposta, mas o encontro.”

Há olhares que nos atravessam como vento suave, e há olhares que nos desarmam como revelação. O olhar vivo, aquele que pulsa no encontro cotidiano, carrega consigo a presença imediata, o calor da existência. Mas quando esse mesmo olhar se deixa aprisionar em tela, em traço ou em forma, ele se transforma em enigma. Já não é apenas função biológica: é presença autônoma, testemunha silenciosa, espelho que devolve mais do que vê.

Em cada representação, o olhar se multiplica. É o mesmo e, ao mesmo tempo, outro. É o olhar que tudo contempla, que tudo enxerga, seja de perto ou de longe. Mas há momentos em que a arte decide romper com a ordem natural, deslocando o centro da visão, retirando o globo ocular de seu lugar habitual. E nesse gesto de estranhamento, abre-se um vazio. Um vazio que não é ausência, mas promessa.

Esse espaço, guardando a forma perfeita para o retorno, é convite à interpretação infinita. É como se a identidade se desprendesse do eixo e se abrisse ao mundo, revelando que nem sempre estamos inteiros, que às vezes somos feitos de partes que se afastam, mas ainda se reconhecem. O globo ocular fora do olho é metáfora do ser: o corpo que se abre, a alma que se expõe, o olhar que se reinventa.

Há ternura em aceitar essa incompletude. Há leveza em perceber que o olhar pode estar dentro e fora, presente e ausente, imanente e transcendental. Somos dois em um, múltiplos em um só gesto. E nesse jogo de presenças e ausências, o que permanece é a delicadeza de continuar buscando — não a resposta definitiva, mas o encontro.

O olhar deslocado nos lembra que a essência não está presa ao corpo, mas circula entre o visível e o invisível, entre o que se mostra e o que se oculta. É nesse intervalo que mora a beleza: na suspensão, na espera, na ternura de não ter todas as respostas. O olhar fora do olho é também o coração fora do peito, é a alma que se expõe sem medo de não ser compreendida.

E talvez seja justamente aí que reside o milagre da arte: na capacidade de nos devolver a nós mesmos, não como inteiros, mas como seres em busca. O olhar que se desloca é também o olhar que nos chama. Onde está o seu olhar? Onde está o meu? Talvez ambos se encontrem nesse vazio que, longe de ser falta, é pura possibilidade.

O SEU OLHAR – breve comentário

Por Hiran de Melo

Quando escrevi O Seu Olhar, não estava tentando falar apenas de uma obra de arte. Na verdade, eu estava tentando falar de nós.

À primeira vista, o texto parece nascer da contemplação de algumas telas. O observador vê olhos semelhantes, repetidos, quase idênticos. Mas, à medida que a observação se aprofunda, surge uma percepção que me acompanha há muito tempo: nada é exatamente igual quando olhado com atenção. Nem os quadros. Nem as pessoas. Nem nós mesmos.

Cada olhar carrega uma história, uma ausência, uma busca. Por isso, aquelas telas deixaram de ser apenas pinturas e passaram a funcionar como espelhos da condição humana.

O ponto que mais me chamou atenção foi justamente o globo ocular deslocado para fora do olho. Aquela imagem produzia um estranhamento quase imediato. Mas, para mim, ela dizia algo muito maior do que uma simples ruptura estética. Ela falava da distância que existe entre aquilo que somos e aquilo que pensamos ser.

A vida inteira tentamos construir uma identidade sólida. Queremos acreditar que somos algo pronto, definido, concluído. Contudo, a experiência humana nos mostra exatamente o contrário. Estamos sempre em construção. Há sempre uma parte de nós que ainda não chegou. Há sempre algo que escapa à nossa compreensão.

Talvez por isso o olho vazio da pintura não me tenha transmitido sensação de perda. Ao contrário, transmitiu a ideia de possibilidade.

Muitas pessoas enxergam o vazio como ausência. Eu o vejo como espaço. É no espaço vazio que uma casa pode ser habitada. É no silêncio que uma música encontra sentido. É na página em branco que nasce um livro. E talvez seja justamente naquilo que nos falta que encontramos a oportunidade de crescer.

O vazio daquele olho simbolizava, para mim, a abertura permanente da existência humana. Não somos seres acabados. Somos seres em travessia.

Outro aspecto que atravessa o texto é a questão do encontro. Aquelas pinturas chegaram até mim através de outra pessoa. E isso não é um detalhe. Grande parte daquilo que nos transforma chega através de alguém. Um olhar, uma palavra, um gesto ou uma obra de arte podem nos revelar dimensões de nós mesmos que permaneciam ocultas.

Existe algo profundamente misterioso no olhar humano. Quando olhamos alguém, vemos uma imagem. Quando somos olhados, descobrimos uma parte de nós que ainda não conhecíamos. O olhar não apenas observa; ele revela.

Talvez por isso o texto tenha assumido um tom de ternura diante da incompletude humana. Não vejo nossas imperfeições como defeitos a serem eliminados. Vejo-as como sinais da nossa condição de aprendizes. Somos fragmentos em busca de sentido. Somos perguntas caminhando em direção a respostas que jamais serão definitivas.

A arte possui essa capacidade extraordinária de nos devolver a nós mesmos. Não para que encontremos certezas, mas para que descubramos novas perguntas.

Por isso, ao final do texto, deixei uma questão em aberto: “Onde está o seu olhar?”

A pergunta não se refere apenas aos olhos físicos. Refere-se ao foco da consciência. Refere-se àquilo que você escolhe enxergar quando observa o mundo, os outros e a si mesmo.

Porque, no fundo, o verdadeiro olhar não é aquele que vê as formas. É aquele que consegue perceber os significados escondidos por trás delas.

E talvez toda a jornada humana consista exatamente nisso: aprender a enxergar.

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