O
Crepúsculo dos Ídolos Externos
A
Desolação do Messianismo e a Escolha da Interioridade
Por
Hiran de Melo
Por
que, após dois milênios de um silêncio ensurdecedor dos céus e do desfile
fúnebre de profetas mortos, a humanidade ainda mendiga por um salvador? Talvez
a resposta não repouse nas nuvens, mas na vertigem que sentimos ao olhar para o
abismo de nossa própria liberdade. O homem prefere a escravidão de uma espera
vã à angústia de ser o único responsável por seus passos.
A Patologia da Fuga: O Delírio de
Jerusalém
A
persistência da esperança messiânica não é uma virtude teológica; é a confissão
de uma impotência clínica. Todos os anos, na "Cidade Santa", a
máscara do mito devora o rosto do homem comum. É a Síndrome
de Jerusalém: contadores, engenheiros e profissionais graduados em
geral, exaustos de serem apenas eles mesmos, sucumbem ao peso do cenário
bíblico. Enrolam-se em lençóis e gritam profecias com a "certeza
absoluta" de quem encontrou uma saída para o peso de sua própria
existência.
O
que ocorre ali é o naufrágio do ego. Ao pisar no palco da história sagrada, o
indivíduo abdica de sua singularidade para se tornar um arquétipo. A máscara do
Messias gruda na pele e, sob o pretexto da divindade, o homem finalmente
descansa do esforço de ser humano.
O Vazio e a Fraqueza de Espírito: Do
Sagrado ao Profano
Existe
um hiato infinito no peito humano — uma ferida que tentamos estancar delegando
nossa alma a terceiros. O desejo por um Messias externo é a estética do
desespero fantasiada de esperança infantil. É o clamor por um pai superpoderoso
que resolva o paradoxo da vida e nos devolva a inocência do jardim.
Essa
estrutura de negação não se restringe aos templos. Quando a transcendência é
esvaziada, o ímpeto religioso não desaparece; ele se desloca para as urnas e
palanques. É o Messianismo Laico: a
tentativa desesperada de resolver uma angústia espiritual através de
ferramentas temporais.
O Caso Brasileiro: O "Mito" e a
Transferência de Culpa
O
fenômeno em torno de figuras como Jair Bolsonaro no Brasil é um exemplo
clássico de como a estética messiânica sequestra a política. A adoção do
epíteto "Mito" não é acidental. Ela sinaliza que o líder não é mais
julgado por sua eficácia administrativa, mas por sua capacidade de encarnar os
anseios de um povo que se sente órfão de ordem.
Ao
gritar "Mito", o indivíduo entrega seu arbítrio e abdica da
complexidade da realidade em favor da vontade simplificadora de um
"escolhido". Como todo messianismo, este também exige um demônio — o
"outro", o "sistema" — mantendo a massa em um estado de
infância moral onde a culpa pelo sofrimento é sempre externa e a solução é
sempre delegada.
Outras Máscaras do Redentor Moderno
O
messianismo laico se manifesta em múltiplas frentes, todas prometendo o paraíso
em troca da obediência:
1. O Messianismo Tecnológico:
A crença de que gurus do Vale do Silício ou a Inteligência Artificial nos
salvarão da finitude. É a fé de que um algoritmo resolverá o que a ética humana
falhou em curar.
2. O Messianismo Ideológico:
A espera por um sistema perfeito (seja o mercado absoluto ou o estado total)
que dispense o homem da necessidade de ser bom.
A Resposta da Interioridade: O Cristo no
Espelho
Enquanto
as instituições e os partidos vendem a "teologia da espera", a
corrente gnóstica oferece uma saída severa e solitária. Para eles, a verdadeira
vinda não é um espetáculo para as massas; é um terremoto na subjetividade. A
diferença entre a esperança passiva e o despertar ativo é a diferença entre o
escravo e o indivíduo.
|
Característica |
Esperança Passiva
(O Messias Externo) |
Despertar Ativo (A Gnose) |
|
Localização |
O Reino virá de
fora (política, céu, tecnologia). |
O
Reino já está aqui, dentro de você. |
|
Postura |
Espera, obediência
e sacrifício da crítica. |
Questionamento,
autoconhecimento e ação. |
|
Responsabilidade |
Delegada ao Líder
ou ao "Mito". |
Assumida
integralmente pelo Indivíduo. |
|
Resultado |
Ciclos de euforia
seguidos de tirania. |
Transformação
silenciosa e libertação. |
O Reino como Salto Qualitativo
Como
sugere o Evangelho de Tomé, o Reino está "espalhado sobre a terra",
invisível para quem busca apenas o que é externo. O Messias não veio para ser o objeto da nossa adoração,
mas o espelho da nossa potencialidade. A salvação não é um perdão
recebido de um líder político ou religioso, mas o árduo trabalho de transformar
a angústia do ego na liberdade do espírito.
Conclusão: A Terrível Responsabilidade de
Ser Livre
A
falência do modelo messiânico é a maior prova da nossa imaturidade. Se a
salvação dependesse de um "Mito" político ou de um operador de
milagres, o mundo já teria sido redimido. Mas o sofrimento continua, provando
que ninguém virá nos resgatar de nós mesmos.
A
esperança, com frequência, é o ópio que impede o remédio. Ao esperar que o
ídolo de turno conserte o mundo, o homem interrompe o confronto com a sua
própria sombra. A verdadeira blasfêmia é a abdicação da própria divindade
interior.
É
hora de acender a luz. A segunda vinda acontece toda vez que um indivíduo
desperta para o fato de que a chave
da cela está do lado de dentro. O caminho da espada e o da política
falharam. Resta apenas o caminho da Gnose: o conhecimento de si mesmo.
Não
seja a pobreza de quem espera. Seja
a riqueza de quem se encontra. Torne-se o seu próprio libertador.
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