SOMBRAS E MEDOS


A Mão no Escuro

Entre a razão que acende a luz e a fé que aprende a enxergar

Por Hiran de Melo

Toda criança conhece o quarto escuro.

Não é a escuridão que a assusta. É o que ela imagina dentro dela.

E, quase sempre, o que a acalma não é uma explicação. É uma mão.

Talvez a história da religião comece assim: com o medo da morte, da dor, do desconhecido, e com a necessidade de segurar alguma coisa na noite. Bertrand Russell e Nietzsche olharam para essa mão estendida e viram nela um sintoma. Não um remédio, mas a marca de uma fragilidade. "A religião é uma doença do medo", resumiu a crítica. A frase é dura. E seria desonesto fingir que não há verdade nela.

O que o medo construiu

Houve tempo em que o trovão era um deus irado, e o deus irado, um modo de dar nome ao pavor. Houve tempo em que o medo aprendeu a se organizar. Ganhou templos, hierarquias, tarifas. Fez do inferno um argumento e da culpa, uma moeda. Passou a vender a luz a quem tinha medo do escuro, desde que o fiel nunca acendesse a sua.

Russell chamou isso de doença: um contágio que passa de geração em geração, por tradição e por pressão, e que enfraquece o juízo justamente onde ele mais seria necessário. Para ele, o remédio é a razão. Só o pensamento crítico rompe o ciclo e devolve ao homem a autonomia.

Acender a luz.

Nietzsche olhou para o mesmo quarto e viu outra enfermidade. Não tanto a de quem não sabe, mas a de quem não ousa. O temor de Deus elevado a virtude. A obediência chamada de humildade. O dogma que congela o que deveria crescer. Para ele, a saída não era apenas pensar melhor, e sim viver com mais força: afirmar a vida inteira, com a dor dentro, e assumir o próprio destino sem esperar que alguém o assine por nós.

Levantar-se e caminhar.

A diferença parece pequena.

Mas muda tudo.

Uma cura pela lucidez. A outra, pela coragem. E ambas visões concordam no essencial: ninguém deveria passar a vida inteira com a mão presa à de outro por medo de soltar.

O que o medo ainda tem a dizer

Mas talvez haja algo que a luz acesa, sozinha, não alcança.

Porque o medo não é apenas aquilo de que precisamos nos livrar. É também aquilo que nos revela. Quem nunca teve medo nunca sentiu a própria vulnerabilidade, e quem nunca a sentiu dificilmente pergunta por sentido. O medo pode ser a porta, e não a cela. Tudo depende do que se faz diante dela.

E há uma segunda coisa que a crítica, por vezes, esquece. Aquilo que o medo construiu nem sempre serviu apenas ao controle. Os mitos, os ritos, as narrativas antigas também falam do que não cabe em definição: a dor, a beleza, a esperança, a despedida, a comunhão. São uma linguagem da alma. Não explicam o mistério. Dão-lhe um lugar onde possa ser habitado.

O problema nunca esteve no símbolo.

Esteve em quem o transformou em coleira.

O mesmo rito que pode manipular pode também despertar. O mesmo texto que aprisiona pode, lido com consciência, abrir. Não é a mão que faz a diferença. É o que se faz com ela: se nos segura para sempre ou se nos ensina a caminhar.

Nem muleta, nem amputação

Chegamos então a um impasse aparente. Se a religião nasce do medo, devemos abandoná-la? Se tem valor simbólico, devemos aceitá-la inteira?

Talvez a pergunta esteja mal posta.

A muleta é um erro quando se torna a única perna. Mas arrancá-la de quem ainda precisa dela não é coragem. É crueldade. E quem jura andar sem apoio nenhum às vezes apenas esconde, com orgulho, o seu próprio coxear.

A razão sem profundidade vira frieza. A vitalidade sem raiz vira vaidade. E a fé sem lucidez vira medo com incenso.

Mas juntas, essas três coisas fazem outra.

Uma razão que não teme o mistério.
Uma vitalidade que não despreza a fragilidade.
Uma espiritualidade que não precisa de dogma para respirar.

Aí a fé deixa de ser fuga da vida e passa a ser mergulho nela. Deixa de pedir ao fiel que se encolha e passa a lhe pedir que responda: pelo que pensa, pelo que sente, pelo que faz com o pouco tempo que tem.

A noite que continua

Isso não aconteceu só com os antigos. Acontece com você, hoje.

Cada vez que o medo da perda, do erro, da solidão ou do fim chega à porta, você faz uma escolha silenciosa. Pode agarrar a primeira mão que lhe prometer segurança, sem perguntar de quem é. Pode soltar todas as mãos e fingir que a noite não existe. Ou pode, pouco a pouco, aprender o gesto mais difícil: acender a luz sem perder o respeito pelo escuro, caminhar com as próprias pernas sem desprezar quem estendeu a mão.

A escuridão não vai acabar.
Mas deixa de ser inimiga quando aprendemos a olhar para ela.

A razão acende a luz. A coragem nos põe de pé. E a mão estendida no escuro deixa de ser sintoma quando já não nos segura por medo, mas nos acompanha por amor.

O medo pode ser o ponto de partida.
Não precisa ser o destino.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog