Que nunca nos falte vizinhos toleráveis
Por Hiran de Melo
Não
nego: ao cruzar o portal dos sessenta, o silêncio passou a ser meu convidado de
honra. Mas na rua onde moro, os muros, por mais altos que se ergam, são feitos
de uma alvenaria teimosa e porosa. Eles não dão conta de segurar a vida que
transborda.
O
vento, esse mensageiro sem pressa, traz o cheiro do café que não é meu e o som
de um rádio cansado — que ora chora um xote, ora grita um rock, ao sabor do
humor de quem manda no dial. É o mundo invadindo meu quintal, lembrando-me que
ninguém é dono absoluto do seu próprio sossego. Ouço o grito do menino que, na
solidão do pátio, faz do muro o seu único parceiro de jogo: é o gol e o
goleiro, o eco de uma infância que ainda não conhece a maldade das esperas.
Os
vizinhos são como essas ondas que batem no cais: cada uma com sua força, mas
todas filhas do mesmo oceano. Aquele que acorda cedo e espalha "bons
dias" virtuais não me rouba o sono; ele apenas avisa, com a gentileza de
um seresteiro, que o sol já bateu em outra janela antes de chegar na minha. E o
vizinho que vigia por trás da cortina, ou pelo olho frio da câmera, não é só um
curioso. No fundo, é um guardião de almas, uma presença muda que cuida do
movimento da rua para não se sentir tão só.
Não
peço isolamento, peço apenas a delicadeza do convívio. Viver em vizinhança é
como uma roda de samba improvisada: se alguém atravessa o ritmo, o coro
desafina. O descanso não deveria ser uma guerra de trincheiras, mas uma
partilha de espaços. É saber cultivar o próprio silêncio e, vez ou outra,
perdoar o ruído alheio — contanto que a nota não suba além do que o ouvido
aguenta.
Quando
a noite cai e o sono ainda me fustiga, acabo sorrindo. Vizinhos, com suas
harmonias e seus agudos fora de hora, são os instrumentos da grande orquestra
do cotidiano. Sem eles, a vida seria um deserto de portas trancadas, um morro
sem samba, um mundo sem eco.
Que
nunca nos faltem vizinhos que se possam tolerar. Mas que, acima de tudo, cada
um saiba que a paz é como um violão antigo: precisa de ouvidos atentos e mãos
delicadas para não arrebentar a corda antes do fim da canção.
Leitura recomendada:
Deus nos livre
de maus vizinhos – LuCaS, publicado no grupo de WhatsApp “1 -ILPB ”, em
19/01/2026.
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