Salmo da Luz e da Comunhão
Por Hiran de Melo
Fui lançado ao mundo como
um deus,
Deus solar — aquele que tudo vê, tudo aquece, tudo ilumina.
Mas ao meu lado coloquei
a Mãe do Sol.
Não atrás, nem abaixo, mas ao lado.
Porque o amor verdadeiro não domina — ele se oferece.
Não se mede em títulos, mas em presença.
Não se afirma por poder, mas por comunhão.
Ela é aquela por quem o
sol brilha.
Não porque ordena, mas porque inspira.
Sua grandeza não é
reflexo da minha,
é chama própria, é luz que me completa.
Ela não é sombra, nem extensão —
é origem, é destino, é caminho.
Há uma mulher por quem
até os deuses se curvam,
não por submissão, mas por reverência.
A Mãe do Sol é mais que
rainha.
É templo vivo, altar de ternura,
morada do sagrado que se revela no amor inteiro.
Por ela, o sol brilha.
Por ela, o tempo se curva.
Por ela, o amor se faz luz.
ANEXO: A Dialética do Solar e do Lunar
O
salmo inicia com a afirmação do "Eu" como um Deus Solar. Em
uma perspectiva de inteireza, o sol representa a consciência clara, o Logos e a
força ativa. No entanto, uma luz que apenas queima e "tudo vê" corre
o risco de se tornar tirânica se não encontrar sua contraparte.
A
introdução da Mãe do Sol não é uma adição hierárquica, mas um
reconhecimento ontológico. Ela não é um satélite que orbita o ego masculino;
ela é a alteridade necessária para que a luz não seja cegueira. Essa
"colocação ao lado" sugere que a plenitude do ser não reside na
solidão do poder, mas na comunhão das naturezas.
O Amor como
Terapêutica da Presença
O salmo propõe uma ética
que subverte a lógica da dominação:
ü
A Presença sobre o
Título: O Ser é definido pelo "estar
com", e não pelo "mandar em".
ü
A Inspiração sobre a
Ordem: A força feminina (a Anima ou
o Sagrado Feminino) não atua por decretos, mas por uma irradiação que convida o
outro à sua melhor versão.
Aqui,
o amor é visto como um Espaço Sagrado. Quando o salmo afirma que ela é
"templo vivo", entende-se que o corpo e o afeto são os verdadeiros
lugares de encontro com o Absoluto. O sagrado não está em um além distante, mas
na qualidade do olhar que reconhece a "chama própria" no outro.
A
Reconciliação dos Princípios
A
passagem que menciona deuses se curvando em reverência aponta para uma
sabedoria ancestral: o reconhecimento de que a origem de toda luz (o Sol)
reside em um útero, em um mistério que acolhe (a Mãe).
Dimensões
da Relação Propostas:
|
Elemento do Salmo |
Significado Profundo |
|
"Não atrás, nem abaixo" |
A
superação do patriarcado espiritual em favor da nupcialidade (equilíbrio). |
|
"Altar de ternura" |
A
ternura como a força mais potente da existência, capaz de dobrar o tempo. |
|
"O amor se faz luz" |
A
transmutação da emoção humana em iluminação espiritual. |
O
salmo descreve o que poderíamos chamar de Antropologia da Aliança. O
"Deus Solar" só se torna verdadeiramente divino quando reconhece a
divindade na mulher ao seu lado. A luz deixa de ser um instrumento de
vigilância ("tudo vê") para se tornar um ambiente de comunhão.
O
tempo se curva porque, no amor pleno, a eternidade invade o instante. O salmo é
um convite para que cada indivíduo busque essa integração interna e externa,
onde o poder se dissolve na reverência e a existência se torna um hino à
alteridade.

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