A Produção da Rebelião e a Economia do Messianismo

Por Hiran de Melo

Introdução: quando o trono vacila, os corpos falam

O ano 4 a.C., marcado pela morte de Herodes, o Grande, não representa apenas o fim biológico de um soberano, mas a desarticulação de uma tecnologia de poder baseada no medo, na vigilância e na punição exemplar. O corpo apodrecido do rei, descrito algumas vezes como inchado e corroído, torna-se metáfora da decomposição do regime que ele sustentava. Com sua morte, abre-se um vácuo político — mas, mais profundamente, abre-se uma crise de legitimidade.

É nesse interstício que emergem figuras como Simão de Pereia, Atronges e Judas, o Galileu. Não são meros insurgentes: são efeitos de um campo de forças no qual poder, discurso religioso e violência se entrelaçam. Cada um, à sua maneira, reconfigura a pergunta fundamental: quem tem o direito de governar?

1. Simão de Pereia: o gesto soberano como ruptura simbólica

Antigo escravo de Herodes, Simão realiza um ato radical: coloca sobre si o diadema real. O gesto não é apenas político; é performativo. Ao autoproclamar-se rei, ele desestabiliza o regime de verdade que sustentava a monarquia herodiana.

O incêndio do palácio de Jericó não é simples vandalismo — é uma operação simbólica. Queimar o palácio é tentar purificar o espaço do poder, destruir o arquivo arquitetônico da dominação. O fogo funciona como ritual de exorcismo contra os signos materiais da servidão.

Mas o poder imperial responde. O general romano, de nome Varo, intervém, e a rebelião é esmagada. O corpo do rebelde torna-se, então, suporte da punição exemplar. O que antes era corpo soberano autoinstituído converte-se em corpo disciplinado pela violência imperial. A execução pública reinscreve a ordem.

2. Atronges: a militarização da esperança

Se Simão representa a irrupção simbólica, Atronges representa a organização estratégica da resistência.

Descrito como pastor de força descomunal, ele e seus quatro irmãos assumem o controle das colinas. A narrativa enfatiza seus corpos gigantescos — quase míticos. O gigantismo não é mero detalhe folclórico: ele compõe uma economia imaginária do poder. O corpo ampliado traduz a expectativa de redenção pela força.

Sem linhagem real, Atronges reorganiza suas tropas à imagem das legiões romanas. Eis o paradoxo: para enfrentar o império, imita-se sua técnica. O inimigo é combatido com seus próprios dispositivos.

A emboscada contra uma centúria romana perto de Emaús, culminando na morte de dezenas de soldados e de seu comandante Ário, revela a tentativa de inverter a assimetria militar. Por dois anos, Atronges governa partes da Judeia, atacando tanto romanos quanto colaboradores judeus. A resistência não é apenas nacional; é também purificadora.

Mas o império responde com paciência e esmagamento progressivo. A caça aos irmãos e a execução sistemática reconstituem a pedagogia do medo. A soberania romana reafirma-se pela administração calculada da morte.

3. Judas, o Galileu: a teologização da insurgência

Com Judas, o Galileu, a rebelião atinge outro patamar: deixa de ser apenas militar para tornar-se discursiva.

Ele formula uma doutrina: pagar impostos a Roma é pecado mortal, pois “não temos rei senão Deus”. Aqui, o conflito desloca-se do campo das armas para o campo da verdade. A obediência fiscal torna-se questão teológica.

Ao fundar o movimento dos Zelotes, os “homens do punhal”, Judas transforma a violência em imperativo religioso. A resistência deixa de ser circunstancial e passa a ser obrigação sagrada. Surge uma nova subjetividade: o fiel que é, ao mesmo tempo, combatente.

Trata-se de uma mutação decisiva. A rebelião não depende mais apenas de líderes carismáticos ou de oportunidades políticas; ela se ancora em uma doutrina que produz sujeitos dispostos ao sacrifício. A política torna-se teologia, e a teologia torna-se estratégia de guerra.

4. A febre messiânica como fenômeno histórico

A chamada “febre messiânica” não nasce do silêncio contemplativo, mas do ruído das espadas nas cavernas da Galileia. Antes de qualquer anúncio celeste, houve fumaça, corpos decapitados e palácios incendiados.

Simão e Atronges são descritos como “reis bandidos” — protótipos falhos. No entanto, ao fracassarem, eles ensinam. Cada execução pública, cada derrota, alimenta a memória coletiva da resistência. O poder imperial, ao punir, também produz narrativa.

O messianismo, nesse contexto, não é expectativa abstrata; é resposta concreta a um regime de dominação. Ele emerge como tecnologia de esperança em meio à violência.

5. O medo das autoridades diante de Jesus

Quando surge a figura de Jesus de Nazaré, o cenário já está inflamado. As autoridades não o veem como fenômeno isolado, mas como possível repetição de precedentes traumáticos.

A memória de Simão e Atronges constitui um arquivo político. O medo não é superstição; é cálculo. Diante de um território marcado por autoproclamações reais, incêndios e emboscadas, qualquer liderança carismática torna-se potencial foco de insurreição.

Assim, a percepção sobre Jesus é moldada por esse histórico de rebeliões. Ele aparece em um campo saturado de expectativas messiânicas e de repressões exemplares. O império e suas elites colaboracionistas operam preventivamente, pois sabem que discursos podem incendiar mais do que palácios.

Conclusão: poder, verdade e violência

As figuras analisadas revelam que o poder não é apenas estrutura vertical; é rede de relações, disputas e produções de verdade. O império administra corpos e territórios, mas também narrativas. Os rebeldes, por sua vez, disputam não só o trono, mas o direito de definir quem é rei e o que significa ser fiel.

Simão performa a soberania.
Atronges militariza a esperança.
Judas teologiza a insurgência.

Cada um reconfigura a relação entre religião e política, entre violência e legitimidade. A redenção, nesse cenário, deixa de ser promessa puramente espiritual e assume a forma concreta do confronto armado.

O messianismo, longe de ser evento isolado, surge como produto de um campo de tensões onde poder e resistência se produzem mutuamente. O império reprime — e, ao reprimir, fabrica novos mártires. A rebelião fracassa — e, ao fracassar, semeia novas expectativas.

 

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