Corpo, Alma e Espírito na Travessia
Por Hiran de Melo
Quando
penso na despedida, percebo que a diferença entre entregar ao fogo ou à terra é
apenas uma questão de tempo. O fogo consome rápido, devolvendo cinzas ao ar e
às águas; a terra, paciente, guarda o corpo em sua decomposição lenta,
cumprindo a promessa de que do pó viemos e ao pó retornaremos. Há uma beleza
nesse ciclo, seja na cremação, que resolve o luto de forma súbita, seja no
enterro, que prolonga o processo. Lembro dos antigos guerreiros que lançavam
seus mortos em barcos de lenha ao rio: fogo, água, ar e terra se encontravam, e
a entrega era completa.
O
corpo, para mim, é matéria — finita, perecível, devolvida ao Real da
existência. Ele não escapa ao destino de se desfazer, seja em cinzas ou em pó.
É nesse ponto que compreendo que o corpo não é apenas carne, mas também o lugar
onde a linguagem incide, onde o sujeito se inscreve.
A
alma, por sua vez, não é algo separado, como Platão quis nos fazer acreditar.
Ela habita o corpo, e quando o corpo descansa, a alma também silencia. Mas não
desaparece de todo: permanece nas obras que realizamos, nas memórias que
deixamos. É nesse espaço que ela se inscreve no Imaginário, como imagem de
unidade, e no Simbólico, como significante que sobrevive na história do Outro.
A alma é finita, mas encontra uma forma de durar enquanto houver quem se lembre
de nós.
E
o espírito? Esse é o que há de divino em nós. Não se trata de encarnações
sucessivas, mas de retorno. Penso nele como uma gota que se desprende do oceano
e, ao fim, retorna à imensidão azul. O espírito é eterno, não se prende ao
tempo, não se dissolve em memória. Ele volta ao divino, ao infinito, ao que
está além da finitude biológica e das construções imaginárias.
Assim,
vejo que corpo, alma e espírito se entrelaçam em registros distintos: o corpo
devolvido ao Real da matéria, a alma sustentada pelo Imaginário e pelo
Simbólico, e o espírito que retorna ao absoluto. O que é finito vive no tempo;
o que é infinito pertence à eternidade.
Corpo, Alma e Espírito na Travessia – Um aprofundamento
existencial
Mestre Melquisedec
Pensar
na despedida é, antes de tudo, confrontar-se com a própria condição humana:
finitude, angústia e possibilidade. O corpo, devolvido ao pó ou às cinzas,
revela a verdade incontornável da existência: somos matéria destinada ao
desaparecimento. Essa percepção não é apenas biológica, mas existencial. O
corpo nos lembra que não há como escapar da temporalidade, e é justamente nesse
limite que se abre a questão do sentido.
A
alma, que se inscreve nas obras e nas memórias, mostra que o humano não se
reduz ao corpo. Há uma dimensão de permanência que não é eterna, mas simbólica.
A alma é o traço que deixamos no mundo, o eco de nossa passagem. No entanto,
essa permanência depende do olhar do outro, da lembrança que nos sustenta. Aqui
surge a angústia: não temos controle sobre o quanto de nós será preservado. A
alma é finita, mas aponta para a necessidade de assumir a responsabilidade por
nossas escolhas, pois são elas que se tornam memória e legado.
O
espírito, por sua vez, abre uma dimensão radicalmente diferente. Ele não se
prende ao tempo nem à memória, mas ao eterno. Se o corpo nos lembra da morte e
a alma nos inscreve na história, o espírito nos coloca diante do absoluto. É
nesse ponto que a travessia se torna mais profunda: o espírito não é algo que
possuímos, mas aquilo que nos transcende. Ele nos chama a uma relação com o
infinito, com aquilo que não pode ser reduzido à lógica do tempo.
Assim,
corpo, alma e espírito revelam três modos de viver a existência:
- O corpo nos confronta com a finitude
inevitável.
- A alma nos convoca à responsabilidade
de deixar marcas no mundo.
- O espírito nos abre à possibilidade
de sentido que ultrapassa o tempo.
A
travessia, portanto, não é apenas o percurso da morte, mas o movimento da vida
inteira. Viver é escolher entre o desespero de negar a finitude e a coragem de
assumi-la. É reconhecer que o corpo se desfaz, que a alma depende do olhar do
outro, e que o espírito nos chama ao eterno. Nesse encontro entre finito e
infinito, entre pó e eternidade, está a verdade mais íntima da existência: só
quem aceita a morte pode viver plenamente.
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