Eu, você e o carnaval ausente
Por Hiran de Melo
Você,
amiga querida, confessa que muitas vezes se cansa do peso das relações e
precisa recolher-se ao silêncio, ao deserto íntimo, para então retornar ao
convívio. Em mim, o movimento é inverso: não raro me fatigo de mim mesmo, e
busco o social como fuga, como tentativa de dissolver o excesso de minha
própria presença. É nesse mergulho no outro que procuro recompor-me, aceitar-me
em minha estranheza inteira.
Sou
um ser que aparenta sociabilidade, mas não é disso que se trata. O que me move
é uma carência peculiar: não a falta, mas a abundância sufocante de mim mesmo.
Uma saturação que me oprime, um desejo de não abraçar mais ninguém, e também de
não ser abraçado.
O
problema é que, ultimamente, nem o social me serve de alívio. O carnaval,
outrora promessa de esquecimento, tornou-se vazio. Já não saio, já não ligo a
televisão. A folia do outro não me contagia. Às vezes, sinto até uma espécie de
piedade: o desconforto de ver o outro mascarado como se fosse essência, e em
mim nasce algo próximo da vergonha alheia.
Mas
não é sobre os outros que quero falar. É sobre este estar lançado no mundo sem
conseguir perder-me nele. Um incômodo persistente, uma chatice de sempre me
encontrar.
E,
no entanto, amiga, há entre nós uma proximidade paradoxal: tão semelhantes e
tão distantes, tão próximos e tão diferentes.
E
há ainda um terceiro modo de ser, mais raro, mas igualmente humano: o daqueles
que vivem em oscilação, como pêndulos entre o silêncio e o tumulto. Ora se
recolhem ao abrigo da própria singularidade, como quem se protege do excesso de
vozes, ora se deixam dissolver na massa anônima, buscando no ruído da multidão
um alívio para o peso de existir. Não é doença, não é rótulo, mas um ritmo
secreto: o vaivém de quem precisa tanto da solidão quanto da mediocridade
coletiva para não sucumbir ao fardo de si mesmo.
Assim,
entre nós três — você, que se refugia no silêncio; eu, que testemunho a
angústia de um mundo que insiste em devolver-me a mim mesmo; e aqueles que
oscilam entre o recolhimento e a multidão — compõe-se uma estranha sinfonia da
presença. Cada qual, à sua maneira, busca escapar do excesso de ser, mas todos,
inevitavelmente, retornam ao mesmo ponto: o encontro inescapável com a própria
existência.
Estar lançado e o peso do excesso de si
Mestre Melquisedec
O
escrito “Eu, você e o carnaval ausente” revela a experiência de quem se
descobre em constante confronto com a própria presença. Não é apenas o vazio
que inquieta, mas o excesso: um transbordamento de si que não encontra repouso
nem na solidão nem na festa. O social, outrora promessa de esquecimento,
torna-se palco de máscaras frágeis, incapazes de ocultar a insistência do ser.
O carnaval ausente não é apenas a recusa da folia, mas o testemunho de que
nenhuma máscara consegue dissolver o peso de existir.
Nesse
movimento, a proximidade com o outro se mostra paradoxal: companheira e
distante, semelhante e estranha, lembrando que o estar-no-mundo é sempre
atravessado por uma solidão que não se desfaz. A amiga, que busca o
recolhimento no silêncio, encontra na interioridade o caminho para recompor-se.
O narrador, ao contrário, testemunha uma angústia que não se deixa calar: o
mundo insiste em devolvê-lo a si mesmo, mesmo quando ele tenta dissolver-se no
social. A festa, que deveria suspender o fardo da existência, revela-se máscara
frágil, incapaz de encobrir o incômodo de sempre reencontrar-se.
E
há ainda um terceiro modo de ser, mais raro, mas igualmente humano: o daqueles
que vivem em oscilação, como pêndulos entre o silêncio e o tumulto. Ora se
recolhem ao abrigo da própria singularidade, ora se deixam dissolver na massa
anônima, buscando no ruído da multidão um alívio para o peso de existir. Não é
doença, não é rótulo, mas um ritmo secreto: o vaivém de quem precisa tanto da
solidão quanto da mediocridade coletiva para não sucumbir ao fardo de si mesmo.
O
texto pulsa, portanto, em três registros: o silêncio como refúgio, o social
como tentativa de fuga, e a oscilação como sobrevivência. Em todos eles, porém,
permanece a mesma marca: o ser não se deixa ocultar, não se dissolve, não se
cala. O mundo insiste em devolver o ser ao próprio ser, e é nesse retorno
inevitável que se inscreve a angústia fundamental da existência.
Somos iguais na dualidade de ser. Preencher as lacunas no silêncio e nas vozes da convivência. A questão é a intensidade.
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