Genealogia da Rebelião — Entre Fé, Poder e Discursos
Por Hiran de Melo
A
separação entre política e religião é uma invenção recente. No mundo antigo, fé
e poder eram indissociáveis, e os discursos religiosos funcionavam como
dispositivos de controle e resistência. Judas, o Galileu, não foi apenas um
insurgente contra Roma; foi um produtor de uma gramática que transformou a
crença em mandamento de guerra. Sua frase — “Não temos rei senão Deus” —
inaugurou uma lógica que atravessaria séculos: a fusão entre teologia e
insurreição.
O Censo como Dispositivo
O
censo de Quirino, em 6 d.C., não era mera contagem populacional. Era uma
tecnologia de poder: transformar vidas em números, converter o sagrado em
estatística, submeter corpos ao cálculo imperial. Judas, ao recusar esse
mecanismo, abriu uma fissura discursiva que redefiniu a relação entre fé e
dominação. A resistência não era apenas política, mas teológica.
A Produção dos Zelotes
Os
Zelotes surgiram como sujeitos moldados por esse discurso. O punhal escondido
sob o manto não era apenas arma, mas signo de uma teologia revolucionária. A fé
tornava-se prática de guerra, e o colaborador judeu, alvo legítimo. A violência
era sacralizada, e o corpo coletivo da comunidade se reorganizava em torno da
ideia de que obedecer a César era idolatria.
Jesus e a Ruptura
Jesus
cresceu nesse campo saturado de ideologia. Sua resposta — “Dai a César o que
é de César” — foi gesto estratégico diante de uma pergunta armada. O
discurso de Judas havia transformado cada palavra sobre impostos em sentença de
vida ou morte. Os discípulos de Jesus — Simão, o Zelote; Judas Iscariotes;
Pedro com sua espada — revelam como o vírus da insurreição estava inscrito no
próprio círculo do Messias. A recusa de Jesus em assumir o papel de guerreiro
foi ruptura com esse dispositivo, mas sua morte mostra como Roma não distinguia
entre discursos: qualquer voz que falasse de reino era inscrita como ameaça.
Genealogia da Ideia
O
poder da teologia de Judas não morreu com ele. Setenta anos depois, incendiou
Jerusalém e levou à destruição do Templo. Essa lógica — de que a fé exige
sangue — reaparece em diferentes épocas.
- Nas Cruzadas,
a guerra foi sacralizada como peregrinação armada.
- Na Reforma, discursos religiosos se
tornaram armas contra o poder político e eclesiástico.
- Nos movimentos revolucionários
modernos, a linguagem da liberdade absoluta ecoa o dogma de Judas.
- Mesmo hoje, em fundamentalismos
contemporâneos, vemos a repetição da mesma gramática: a fusão entre fé e violência como forma de
resistência e dominação.
O Rival Simbólico
Enquanto
Judas produzia guerra urbana, outros discursos emergiam: profetas do deserto,
anunciadores de sinais, e figuras como Apolônio de Tiana, que ofereciam à elite
romana uma alternativa espiritual sem ameaça política. Sua biografia, paralela
à de Jesus, mostra que o poder também se exerce pela produção de rivais
simbólicos, narrativas concorrentes que disputam legitimidade.
Conclusão
A
genealogia da rebelião mostra que Judas, o Galileu, não foi apenas personagem
histórico, mas ponto de inflexão na produção de discursos que atravessam
séculos. Sua teologia revolucionária reaparece em diferentes formas, sempre que
fé e poder se fundem em máquina de guerra. Jesus, ao recusar essa lógica,
tentou instaurar outro regime de verdade, mas sua voz foi inscrita no mesmo
campo de suspeita. O contraste entre ambos revela que religião nunca foi esfera
separada: é terreno onde se disputam corpos, ideias e futuros, e onde cada
época reinscreve, à sua maneira, o mesmo conflito entre fé e poder.
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