O que somos nós?
Somos seres em trânsito
Por Hiran de Melo
Talvez
sejamos, antes de tudo, memória de encantamento. Na infância, o mundo se abria
como um livro de maravilhas: cada gesto era leve, cada instante carregava a
promessa de descoberta. Éramos inteiros, sem máscaras, respirando a verdade
daquilo que simplesmente existia.
Mas
também éramos coração entregue — como quando um olhar nos encontra, doidinho,
paquerando a nossa essência. Nesse instante, tudo se torna sopro divino: o
cheiro da vida, trazido do nada, faz e refaz o que somos.
Com
o tempo, porém, a vida nos veste de funções. Aprendemos a ser adequados,
lógicos, respeitáveis. Tornamo-nos peças de um mecanismo que exige eficiência e
aparência, e nesse processo a espontaneidade se recolhe, como se fosse um luxo
que já não cabe no cotidiano. O que era essência se transforma em papel; o que
era verdade se converte em representação.
O
mundo moderno, com sua pressa e racionalidade, nos empurra para um terreno
clínico e cínico, onde a poesia parece deslocada. Mas dentro de nós ainda pulsa
um chamado: recuperar o que foi perdido, reencontrar o fio da autenticidade,
deixar que a sensibilidade volte a iluminar o caminho.
Somos,
então, seres em trânsito — oscilando entre a essência e a função, entre o que
somos e o que fingimos ser. A pergunta “O que somos nós?” não busca uma
resposta definitiva, mas nos convida a lembrar que, sob todas as camadas, há
sempre uma dimensão poética que insiste em sobreviver.
E
talvez seja nesse instante de reencontro, quando o coração se reconhece no
sopro que tudo cria, que percebemos: não somos apenas memória ou função, mas
também o perfume invisível da vida, que nos atravessa e nos devolve ao milagre
de existir.
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