O que somos nós?
Uma obra de arte em constante execução
Por Hiran de Melo
Somos
o movimento ininterrupto das marés, uma sucessão de estados que se desdobram
sob o sol. Nossa natureza é o fluxo: somos processo, tensão e a vibração
constante de quem habita o próprio caminho. Longe de qualquer repouso
definitivo, somos a dança entre o que fomos e o que ainda ensaiamos ser — uma
existência que se define não pelo que é, mas pelo que ousa vir a ser.
O Altar das Forças Internas
Existimos
como um feixe vibrante de impulsos, uma multiplicidade de afetos que buscam,
cada um à sua maneira, a luz. O que nomeamos como "eu" é apenas a
espuma visível de um oceano profundo, onde correntes instintivas se entrelaçam
e se organizam em silêncio.
Ø O Ímpeto da Expansão:
Para além da simples sobrevivência, carregamos o desejo de transbordar. Somos
movidos por uma sede de criar, de ocupar os espaços da alma com novas potências
e de superar, a cada amanhecer, os nossos próprios contornos.
Ø A Linguagem do Corpo:
Nossa consciência é a gramática delicada que tenta traduzir o caos sagrado do
corpo. Antes do pensamento, existe a vida; antes da lógica, existe o pulsar de
uma vontade que decide e sente muito antes de a razão encontrar as palavras.
A Travessia sobre o Abismo
Somos
uma corda estendida, um elo vibrante lançado sobre o vazio. Ser humano é
habitar essa passagem — um estágio de corajosa transição entre as heranças do
ontem e as promessas de um amanhã mais pleno.
Ø A Sagrada Finitude:
Nossa verdade floresce no chão que pisamos. Ao abraçarmos nossa natureza
biológica e terrena, encontramos a beleza na finitude. Ser plenamente humano é
honrar a intensidade do agora, recusando as fugas para mundos imaginários e
aceitando o peso e a glória de sermos feitos de terra e tempo.
A Escultura de Si
Nossa
grandeza reside no dom de sermos os poetas do sentido. Em um universo
silencioso, somos nós quem emprestamos voz às estrelas e valor às pedras. Somos
os únicos seres capazes de transformar o acaso em destino e o caos em
significado.
Ø A Invenção do Próprio Destino:
O desafio da existência não é encontrar uma essência oculta, mas ter a audácia
de inventar-se.
Somos, ao mesmo tempo, o mármore e o escultor. Tornar-se quem se é exige
assumir o cinzel e a responsabilidade, esculpindo a própria vida como uma obra
única, rara e irrepetível.
Por enquanto
Somos
uma vontade encarnada que caminha sobre o fio esticado da existência. O
horizonte que avistamos não é um porto de chegada, mas a própria liberdade de
caminhar. Nossa missão não é decifrar o sentido da vida, mas ter a coragem de
criá-lo a cada passo, afirmando a jornada com toda a sua terrível e magnífica
beleza.
Nota sobre o
"Eu": Diferente
da tradição que o vê como um núcleo estável e racional (o capitão do navio),
o eu é aqui compreendido como uma ficção necessária. Ele não é
uma essência imutável, mas uma construção da linguagem que simplifica a
complexa hierarquia de impulsos e afetos em constante disputa. Em vez de uma
unidade sólida, o "eu" é o resultado provisório de um campo de
batalha interno: o nome que damos ao impulso que, no momento, prevalece e fala
em nome de todo o organismo.
Uma
obra de arte em constante execução
Não somos o repouso, mas a maré cheia,
Um feixe de impulsos buscando a claridade,
A espuma que flutua, enquanto a profundidade
Em correntes de fogo o nosso "eu" semeia.
Somos a corda esticada sobre o abismo,
Entre o ontem que fomos e o que ainda ensaiamos,
No chão desta terra, onde enfim florescemos,
Sem fugas pro céu, sem medo ou misticismo.
A vida é o cinzel, o mármore é o agora,
Esculpimos o passo na carne do destino,
Dando voz ao silêncio que o mundo apavora.
Somos vontade encarnada, em rito divino,
Criando o sentido que a alma transborda:
A beleza que nasce do fio de uma corda.

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