O que
somos?
Uma
fronteira aberta
Por
Hiran de Melo
Se
ousamos perguntar o que somos, logo sentimos que não há resposta que se
sustente como pedra ou monumento. O "nós" não é estátua, mas verbo:
um sopro em movimento, uma onda que se ergue e se desfaz no instante em que
tentamos aprisioná-la em palavras.
A Ilusão do Centro
Acostumamo-nos
a acreditar que existe um "eu" primordial, uma essência intacta
escondida no fundo da alma. Mas, ao nos aproximarmos, percebemos que a
linguagem nos antecede. Nascemos em um oceano de símbolos, histórias e vozes
que já estavam aqui. Não somos senhores absolutos do que dizemos; somos
atravessados por ecos que nos ensinaram a falar.
O Jogo da Différance
A
identidade é um jogo sem fim, feito de adiamentos e contrastes. Nunca está
pronta, nunca se entrega inteira.
- Entre o que já fomos e o que ainda
seremos: somos sempre promessa e memória,
nunca presença plena.
- No espelho do outro:
o "eu" só se delineia quando encontra o estrangeiro, o
diferente, o que não é.
"O
'nós' é um rastro na areia: sinaliza uma passagem, mas quem o deixou já caminha
em outro lugar."
Somos Feitos de Rastros
Imagine-se
como um mosaico sem centro. Não há peça-mestra que explique todas as outras.
Somos fragmentos de memórias herdadas, vestígios culturais, restos de conversas
que nunca se fecham. Somos a presença de uma ausência — pegadas que revelam que
a vida pulsa, mesmo quando não conseguimos segurá-la.
A Identidade como Acolhimento
Se
não somos muralha nem essência rígida, então somos fronteira aberta. Ser humano
é hospedar o inesperado, acolher o que chega sem pedir passaporte. Definir o
"nós" de forma dogmática é tentar congelar o rio. Nossa força não
está na solidez, mas na fluidez: somos um texto vivo, um livro que se escreve a
cada encontro.
Em resumo, o que somos?
- Sujeitos em fluxo:
não o centro, mas parte de uma teia de sentidos.
- Um eterno vir-a-ser:
projeto inacabado, que se renova ao desconstruir certezas.
- Hospitalidade pura:
espaço onde o eu e o outro se misturam, sem rótulos finais.
Aceitar
essa incerteza não é perder-se, mas libertar-se. Somos testemunho de que a vida
é mais bela quando escapa às definições.
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