Do Nada, o Espelho

Por Hiran de Melo

Ela caminha entre sombras e claridades.
Há nela um ponto de silêncio — um rasgo antigo —
onde a palavra não alcança,
onde o corpo ainda guarda o susto do mundo.

Ela tenta nomear o que não se diz:
chama, acusa, redefine,
como quem costura o vazio com fios de lembrança.
Mas cada nome é um nó,
e cada nó, um espelho partido.

O pai, com sua voz de pedra,
deixou marcas que se tornaram fronteiras.
Entre o amor e o medo,
Ela aprendeu a sobreviver,
a depender e a rejeitar,
a desejar e a negar.

Há nela uma oscilação —
um pêndulo entre o toque e o abismo.
Ama o que teme, teme o que deseja.
E quando sonha transformar o outro,
é apenas tentativa de criar um refúgio,
um lugar onde o amor não doa,
onde o gozo não ameace.

O trauma é um ponto de furo,
um buraco no tecido da linguagem.
Por isso retorna —
em aversões, em fantasias, em repetições.
Ela gira em torno desse vazio,
tentando preenchê-lo com palavras,
mas o vazio é também o que a move.

Há nela uma arte em processo,
como uma tela marcada por pinceladas herdadas.
O pai, o primeiro beijo, o medo, o desejo —
todos são traços que compõem sua obra.
Mas dentro das marcas há um brilho,
um lampejo de criação.

Ela é obra singular:
feita de rasgos e remendos,
de restos e reinvenções.
O que a fere também a forma,
o que a limita também a revela.

E talvez, um dia,
quando o sol tocar o seu silêncio,
ela descubra que o nó que a prende
é o mesmo que pode sustentá-la.

Do nada, o nós —
renascido, terno, humano —
voltará a existir.

Entre o Vazio e a Criação

Por Hiran de Melo

O poema se constrói como um mergulho na interioridade marcada pelo trauma, mas também pela potência criativa que dele emerge. A figura feminina que caminha “entre sombras e claridades” é apresentada como alguém que carrega um silêncio ancestral, um espaço onde a linguagem falha e o corpo guarda cicatrizes. Esse vazio, longe de ser apenas ausência, torna-se motor de movimento e de arte.

A relação com o pai, descrita pela “voz de pedra” que delimita fronteiras, é o núcleo de uma experiência ambígua: amor e medo coexistem, desejo e negação se entrelaçam. Essa oscilação, esse “pêndulo entre o toque e o abismo”, revela uma subjetividade que não se fixa, mas que se reinventa a partir das marcas. O trauma, entendido como “um buraco no tecido da linguagem”, retorna em repetições e fantasias, mas também abre espaço para criação.

A obra de si mesma é feita de rasgos e remendos, de restos e lampejos. O que fere também forma, o que limita também revela. Há uma estética do fragmento, em que cada nó, cada espelho partido, compõe uma identidade singular. O poema sugere que a dor não é apenas destruição, mas também matéria de reinvenção: o nó que aprisiona pode, um dia, sustentar.

Assim, a narrativa poética se inscreve na tensão entre ferida e criação, ausência e presença, silêncio e palavra. O sujeito é apresentado como obra em processo, uma tela marcada por pinceladas herdadas, mas capaz de transformar cicatriz em brilho. O desfecho aponta para uma possibilidade de renascimento: “Do nada, o nós — renascido, terno, humano — voltará a existir.” É a esperança de que o vazio, ao invés de ser apenas falta, se torne fundamento de uma nova forma de existir.

 

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