Entre o
Querer e o Fazer
Uma travessia da vontade humana sob o silêncio do Eterno
Por Hiran de Melo
Há
uma sutileza escondida nas palavras que usamos para prometer a nós mesmos o que
ainda não somos. Dizemos: “farei, se Deus quiser”, como quem deposita no céu a
responsabilidade pelo próprio passo. E, no entanto, o céu — em sua vastidão
silenciosa — não se move para impedir nem para compelir. Ele apenas sustenta.
Há,
nessa expressão tão comum, um deslocamento quase imperceptível: o homem retira
de si o centro da decisão e o projeta para o alto, como se a realização
dependesse de uma autorização que nunca foi negada. Mas o Pai, em sua sabedoria
insondável, não governa o homem pela imposição — governa pela liberdade. E
nisso reside tanto o dom quanto o peso da existência.
Não
é que Deus não queira. É que Ele já quis — e continua querendo — na própria
possibilidade que nos foi dada de escolher. Cada desejo sincero de construção,
cada impulso de realização, já carrega em si um eco da vontade divina. Mas esse
eco não se transforma em obra sem a adesão firme daquele que o escuta.
Por
isso, dizer “se Deus quiser” pode, por vezes, ser um refúgio delicado contra o
risco de assumir o próprio querer. Porque querer, verdadeiramente, é
comprometer-se. É colocar-se diante da tarefa não como um espectador
esperançoso, mas como um operário que aceita o peso da pedra e a lentidão da
edificação.
E
há ainda uma segunda expressão que denuncia essa hesitação: “eu vou tentar”.
Tentar é habitar a fronteira confortável entre o fazer e o não fazer. É
preservar uma saída honrosa para o fracasso antes mesmo que a jornada comece.
Quem tenta, muitas vezes, já se despediu secretamente da realização.
Mas
a existência — essa oficina invisível onde o espírito se lapida — não se
constrói com tentativas frágeis, e sim com decisões inteiras. O verbo que
transforma não é o “tentar”, é o “fazer”. Não como arrogância, mas como
alinhamento. Não como imposição, mas como consentimento profundo entre aquilo
que se deseja e aquilo que se realiza.
Dizer
“eu farei” não é negar Deus — é, talvez, a forma mais madura de honrá-Lo.
Porque é reconhecer que Ele já nos concedeu tudo o que era essencial: a
liberdade, a consciência e a capacidade de agir. O resto não é milagre — é
resposta.
Há,
portanto, uma espiritualidade mais silenciosa e mais exigente: aquela que não
transfere para o divino o que pertence à decisão humana. Uma espiritualidade
que entende que o sagrado não está apenas no que se pede, mas sobretudo no que
se realiza.
O
homem que afirma “eu farei” não está sozinho. Ele carrega consigo a centelha
daquele que o criou livre. E, ao agir, não desafia o céu — ele o manifesta.
No
fim, a pergunta não é se Deus quer. A pergunta é se nós queremos o suficiente
para fazer.
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