Obra singular

Por Hiran de Melo

Cada um de nós é uma obra em processo, nunca acabada, sempre atravessada por tensões que não são falhas, mas marcas da condição humana. Somos feitos de ambivalências: o desejo que aproxima e o medo que afasta, o acolhimento que abre e a recusa que protege. Não há plenitude, há sempre uma falta que nos move, um vazio que nos convoca a criar.

Os que nos cuidaram deixaram em nós inscrições, projetos que pareciam caricaturas, mas que eram o melhor que podiam oferecer. O melhor deles era também o seu limite, e esse limite se tornou parte de nós. Não se trata de aceitar essas marcas como destino, mas de reconhecê-las como traços que nos estruturam. Só assim podemos deslocá-las, transformá-las, abrir espaço para que o desejo se reinscreva em novas formas.

A vida é como a carona diante do abismo: aceitar pode facilitar a travessia, mas também aprisionar; recusar pode proteger, mas também impedir o movimento. Não há garantias, apenas o risco que acompanha cada escolha. E é nesse risco que se revela a nossa humanidade: viver é atravessar sem certeza.

Na origem, éramos tela em branco. Sobre nós, os cuidadores projetaram seus desejos, e nos tornamos rascunhos, sombras de múltiplos projetos. Mas dentro de cada sombra há uma obra singular que insiste em se revelar. Precisamos desbastar as cascas duras que nos cobrem, deixar emergir o que estava escondido, e, sobretudo, construir nossa própria arte. Uma arte que incorpora os projetos herdados, mas que se abre ao inédito que só nós podemos criar.

Somos, assim, obras singulares: tecidos de marcas e rasgos, de restos e remendos, mas também de criação e reinvenção. Não apenas resultado do que recebemos, mas criadores de um caminho que se reinventa no tempo e no espaço. A obra singular que somos é sempre incompleta, sempre em travessia, sempre em criação.

 


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