As chagas de Deus
Por Hiran de Melo
Existe uma tristeza
silenciosa em muitos homens religiosos.
A tristeza de quem
gostaria de acreditar…
mas aprendeu que Deus só pode existir se acontecer de maneira extraordinária.
Um milagre visível.
Uma prova incontestável.
Um sinal que interrompa as leis do mundo.
Algo tão grandioso que elimine qualquer dúvida.
E talvez seja exatamente
aí que nasça uma das maiores angústias espirituais do homem moderno:
a incapacidade de perceber o sagrado nas coisas simples.
A ressurreição sempre foi
difícil de aceitar.
Muito antes do século
XXI.
Muito antes das discussões contemporâneas sobre ciência, fé ou racionalidade.
O próprio evangelho já
revela isso.
Tomé não é apenas um
homem desconfiado dentro da narrativa cristã.
Talvez ele represente uma humanidade inteira que precisava tocar para
acreditar.
E isso é profundamente
humano.
O evangelho foi escrito
depois da experiência da ressurreição.
Quando a comunidade cristã já enfrentava dúvidas, medos e questionamentos.
Ao narrar a incredulidade de Tomé, o texto parece confessar algo importante:
desde o começo, a fé nunca foi ausência de dúvida.
Porque o homem sempre
desejou provas.
Sempre quis que Deus
aparecesse rompendo a lógica da existência.
Mas existe algo
profundamente simbólico na maneira como Jesus decide se apresentar.
Ele não retorna exibindo
poder.
Não reaparece cercado de glória esmagadora.
Não humilha os incrédulos com demonstrações cósmicas.
Ele mostra feridas.
As mãos furadas.
Os pés marcados.
O peito aberto.
E talvez exista aqui uma
das imagens mais profundas do evangelho:
para revelar a vida, Deus mostra cicatrizes.
Não é o brilho que
convence Tomé.
São as chagas.
Porque o Cristo
ressuscitado escolhe permanecer reconhecível justamente através daquilo que
sofreu.
E isso desmonta
completamente a lógica religiosa do espetáculo.
O homem procura Deus no
extraordinário.
Mas Deus parece insistir em aparecer no ordinário da vida.
Na fragilidade.
Na vulnerabilidade.
Na carne ferida.
Na dor humana.
Talvez o grande problema
espiritual do nosso tempo seja este:
nós nos acostumamos a imaginar Deus apenas nos excessos do sobrenatural.
Queremos experiências
arrebatadoras.
Queremos acontecimentos grandiosos.
Queremos certezas absolutas.
Queremos milagres que eliminem qualquer necessidade de sensibilidade.
Mas o evangelho aponta
para outra direção.
Jesus não mostra poder.
Mostra marcas.
Como se dissesse
silenciosamente:
“É aqui que Deus habita.”
Nas rachaduras humanas.
Porque talvez o
verdadeiro milagre nunca tenha sido suspender as leis da natureza.
Talvez o verdadeiro milagre seja continuar humano em meio à brutalidade do
mundo.
Continuar sensível.
Continuar compassivo.
Continuar capaz de acolher.
Existe algo profundamente
espiritual nisso.
O extraordinário de Deus
acontece exatamente no ordinário do homem.
Na mãe cansada que
continua cuidando.
No homem ferido que ainda consegue amar.
Na pessoa anônima que ajuda sem esperar reconhecimento.
Na escuta silenciosa.
Na compaixão discreta.
Na presença que não faz espetáculo de si mesma.
Mas nós queremos o
contrário.
Queremos que Deus
aconteça de maneira espetacular para compensar nossa incapacidade de perceber o
sagrado no cotidiano.
E talvez seja por isso
que tanta gente diga:
“Eu queria muito acreditar.”
Porque espera encontrar
Deus apenas no reluzente…
enquanto Ele continua aparecendo nas feridas.
Talvez a ressurreição
nunca tenha sido um convite para admirarmos um poder sobrenatural.
Talvez tenha sido um
convite para enxergarmos que até as dores podem transfigurar-se em presença.
E talvez Deus continue
fazendo exatamente o que fez com Tomé:
não destruindo nossas dúvidas…
mas atravessando nossas feridas para que, pouco a pouco, aprendamos a
reconhecer o sagrado dentro da própria condição humana.
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