As estrelas vistas da
lama
Por Hiran de Melo
Existe um equívoco
silencioso na maneira como muitos homens enxergam a própria vida.
Acreditam que amadurecer
é chegar.
Que evoluir é permanecer fiel, para sempre, ao primeiro destino que escolheram.
Como se mudar de direção fosse sinal de fracasso.
Como se recomeçar anulasse tudo o que foi vivido.
Mas talvez a existência
humana seja exatamente o contrário disso:
uma travessia onde o homem se transforma enquanto caminha.
Santo Agostinho dizia
que, quando estamos na lama, existem duas possibilidades:
há quem olhe para a lama e se entristeça.
E há quem, mesmo dentro dela, consiga contemplar as estrelas.
É uma das imagens mais
profundas da experiência humana.
Porque todos estamos na
lama.
Todos carregamos
limitações.
Contradições.
Medos.
Fracassos.
Feridas.
Desejos interrompidos.
Nenhum homem atravessa a vida sem tocar o chão áspero da própria incompletude.
Mas nem todos olham para
cima.
Há pessoas que passam a
vida inteira aprisionadas naquilo que lhes falta.
Naquilo que perderam.
Naquilo que ainda não conseguiram ser.
E então a existência vira
apenas peso.
Outras, porém, mesmo
feridas, continuam contemplando as estrelas.
Continuam desejando.
Continuam sonhando.
Continuam abertas à possibilidade de transformação.
E talvez seja exatamente
isso que mantém o espírito humano vivo.
O problema é que muitos
confundem metas com identidade.
Escolhem um ponto de
chegada e passam a acreditar que precisam morrer fiéis àquela versão antiga de
si mesmos.
Mas o homem amadurece.
E amadurecer significa,
muitas vezes, perceber que o caminho nos transformou a ponto de alterar também
nossos destinos.
Existe algo profundamente
bonito nisso.
O homem que iniciou a
jornada já não é o mesmo homem que caminha agora.
As dores mudaram sua
percepção.
As experiências alargaram sua consciência.
Os encontros remodelaram seus afetos.
As perdas reorganizaram seus valores.
E então, de repente,
aquele antigo objetivo talvez já não faça mais sentido.
Não porque a caminhada
fracassou.
Mas porque ela cumpriu exatamente sua função:
transformar quem caminhava.
Existe uma violência
silenciosa em exigir que alguém permaneça eternamente preso às versões antigas
de si mesmo.
Como se mudar fosse
traição.
Como se recomeçar fosse fraqueza.
Mas recomeçar talvez seja
uma das expressões mais honestas da consciência humana.
Porque ninguém recomeça
do zero.
Todo recomeço carrega a
memória dos passos anteriores.
Os erros continuam
ensinando.
As dores continuam falando.
As quedas continuam amadurecendo.
Os caminhos antigos continuam vivos dentro daquele que decide seguir por outra
direção.
O recomeço não apaga a
estrada.
Ele apenas revela que o
homem não nasceu para permanecer imóvel dentro dela.
Talvez uma das maiores
prisões existenciais seja acreditar que somos seres concluídos.
Definitivos.
Prontos.
Encerrados.
Mas a vida parece
desmentir isso o tempo inteiro.
Somos consciência em
movimento.
E há algo profundamente
sagrado nessa possibilidade de transformação.
Porque somente os vivos
conseguem mudar.
Somente os conscientes
conseguem rever a própria rota.
Somente os humildes
conseguem admitir:
“aquilo fazia sentido para quem eu era…
mas já não faz para quem estou me tornando.”
E isso não diminui a
caminhada anterior.
Pelo contrário.
Dá sentido a ela.
Porque talvez o
verdadeiro amadurecimento não seja alcançar todas as metas que um dia
imaginamos.
Talvez seja adquirir
consciência suficiente para perceber, no meio da travessia, que também temos o
direito de redesenhar as estrelas que escolhemos seguir.
E talvez a liberdade mais
bonita concedida ao homem seja exatamente esta:
a possibilidade de continuar se tornando.
Comentários
Postar um comentário