Deus não mora nas certezas
Por Hiran de Melo
Existe um tipo de fé que
endurece o homem.
Ela nasce da necessidade
de possuir respostas absolutas.
Da obsessão em defender doutrinas.
Da ansiedade de convencer o outro.
Da crença silenciosa de que “estar certo” é mais importante do que permanecer
humano.
E talvez seja exatamente
aí que muitos se afastem de Deus sem perceber.
Porque o problema das
convicções rígidas não está apenas naquilo que afirmam.
Está naquilo que deixam de escutar.
Há pessoas profundamente
religiosas incapazes de ouvir.
Incapazes de dialogar.
Incapazes de permitir que a experiência do outro atravesse suas certezas.
Falam muito.
Defendem muito.
Discutem muito.
Mas quase nada se transforma dentro delas.
E quando o diálogo deixa
de produzir consciência, as palavras viram apenas ruído.
Talvez uma das maiores
tragédias espirituais do nosso tempo seja essa:
homens que aprenderam a defender Deus…
mas desaprenderam a acolher pessoas.
O Cristo histórico nunca
pareceu interessado em criar competições teológicas.
Jesus não organizava tribunais de ortodoxia.
Não separava pessoas entre “as que acertaram a doutrina” e “as que erraram a
doutrina”.
O que ele fazia era muito
mais desconfortável.
Ele olhava para a
consciência humana.
Porque alguém pode
conhecer versículos e ainda assim permanecer cruel.
Pode frequentar templos e continuar incapaz de amar.
Pode defender valores religiosos enquanto destrói emocionalmente quem pensa
diferente.
E isso talvez explique
por que Jesus frequentemente entrava em conflito justamente com os homens mais
“certos” de sua época.
O excesso de certeza
costuma adoecer a sensibilidade.
Há algo profundamente
simbólico quando percebemos que muitos dos que rejeitaram Jesus eram exatamente
os defensores oficiais da religião.
Homens treinados para proteger Deus…
mas incapazes de reconhecer humanidade.
Enquanto isso, os simples
o compreendiam.
Os marginalizados.
Os feridos.
Os que não tinham prestígio espiritual.
Os que não precisavam sustentar a imagem de pureza.
Talvez porque a
consciência desperta raramente nasce do orgulho.
Ela nasce da vulnerabilidade.
E é aqui que o
acolhimento ganha um significado muito mais profundo do que simples gentileza.
Acolher alguém não é
apenas abrir espaço.
É suspender o próprio ego por alguns instantes.
É permitir que o outro exista sem imediatamente tentar corrigi-lo, dominá-lo ou
convertê-lo.
Existe uma
espiritualidade silenciosa nisso.
Uma espiritualidade que
quase nunca aparece nos grandes discursos religiosos.
Porque Deus talvez esteja
muito menos nas explicações grandiosas…
e muito mais na presença discreta.
Na escuta sem violência.
Na compaixão espontânea.
Na capacidade de permanecer humano diante da dor alheia.
Há quem procure Deus em
êxtases espirituais.
Há quem procure Deus em sistemas filosóficos sofisticados.
Há quem procure Deus em dogmas.
Mas talvez Deus continue
escondido exatamente onde Jesus disse que Ele estaria:
no humano ferido.
No faminto.
No rejeitado.
No cansado.
No invisível.
E talvez exista algo
ainda mais difícil de aceitar:
muitas vezes, quem encontra Deus nem percebe que encontrou.
Porque a verdadeira
consciência não faz espetáculo de si mesma.
Ela apenas acolhe.
Sem necessidade de
aplauso.
Sem necessidade de superioridade.
Sem necessidade de vencer debates.
O homem contemporâneo se
tornou profundamente treinado para pertencer a grupos.
Grupos políticos.
Religiosos.
Ideológicos.
E quando a consciência se dissolve completamente na pertença coletiva, o
indivíduo deixa de enxergar.
Passa apenas a repetir.
A massa pensa por ele.
Sente por ele.
Julga por ele.
E então surgem homens
capazes de defender barbaridades apenas porque seu grupo decidiu defendê-las.
Isso acontece na
política.
Na religião.
Nas ideologias.
Nas torcidas.
Em qualquer espaço onde a identidade coletiva se torne maior que a consciência.
O problema nunca foi
apenas o fanatismo.
O problema sempre foi o adormecimento da consciência.
Por isso talvez o caminho
espiritual mais difícil não seja “acreditar em Deus”.
Talvez seja tornar-se
suficientemente consciente para continuar humano enquanto todos ao redor
desaprendem a ser.
Existe algo divino no
homem que ainda consegue sentir compaixão sem precisar transformar isso em
propaganda moral.
Algo sagrado naquele que
ajuda sem desejar reconhecimento.
Naquele que escuta sem desejar controlar.
Naquele que acolhe sem perguntar primeiro a religião, a ideologia ou a
moralidade do outro.
Porque talvez Deus nunca
tenha habitado as certezas humanas.
Talvez Ele sempre tenha
habitado a consciência desperta.
E talvez o Reino continue
pertencendo justamente aos que ainda sabem acolher o humano sem necessidade de
possuir o sagrado.
Por que escrevi "Deus não mora nas certezas"?
Por Hiran de Melo
Sabe,
quando me sentei para escrever este texto, eu não queria redigir uma tese
teológica. Queria, na verdade, fazer um desabafo e, ao mesmo tempo, um espelho.
Estamos vivendo em uma época barulhenta. As redes sociais, os debates políticos
e até os bancos das igrejas viraram arenas de batalha. Percebi que as pessoas
estão famintas por estar certas, mas profundamente desnutridas de humanidade.
1. A Ilusão das Respostas Absolutas
O
texto nasce de uma observação dolorosa: a fé, que deveria ser uma ponte, virou
um muro para muitos. Quando a nossa espiritualidade se baseia apenas na
obsessão por defender doutrinas e convencer o outro, nós paramos de escutar. O
meu argumento central aqui é que o excesso de certeza adoece a sensibilidade.
Quem sabe tudo não tem espaço para aprender nada, e muito menos para acolher
quem pensa diferente.
2. O Resgate do Cristo Histórico
Para
fundamentar essa crítica, precisei voltar às origens. Olhando para os
Evangelhos, fica evidente o paradoxo: Jesus não passava o tempo organizando
"tribunais de ortodoxia". Ele não estava interessado em quem decorou
mais versículos, mas sim em quem era capaz de amar.
Por
isso fiz questão de lembrar que os maiores inimigos de Jesus não foram os
"pecadores" oficiais, mas os defensores ferrenhos da religião da
época. Homens com a teologia impecável, mas com o coração de pedra.
3. A Coletividade que Aniquila o Indivíduo
Na
segunda metade do texto, quis expandir o olhar para além dos templos. Esse não
é um problema exclusivamente religioso; é um sintoma do homem contemporâneo.
Nós nos refugiamos em bolhas — políticas, ideológicas, religiosas — e deixamos
que a massa pense, sinta e julgue por nós. Quando a identidade coletiva engole
a consciência individual, o ser humano se torna capaz de defender barbaridades
sem sentir remorso. O fanatismo é apenas o sintoma; a doença real é o adormecimento
da consciência.
4. A Verdadeira Espiritualidade é Silenciosa
O
desfecho do texto é um convite ao avesso do espetáculo. Enquanto o mundo
aplaude os grandes discursos, as lacradas e os debates vencidos, eu acredito
que o sagrado se esconde no oposto:
- Na escuta sem violência;
- Na suspensão do próprio ego para que
o outro possa existir;
- No acolhimento do humano ferido, sem
checar antes sua cartilha ideológica ou moral.
Conclusão
Escrever esse
texto foi o meu modo de dizer que o caminho espiritual mais difícil hoje não é
simplesmente dizer que "acredita em Deus". O verdadeiro desafio é permanecer
humano em um mundo que desaprende essa arte diariamente. Deus não habita em
sistemas filosóficos fechados ou em dogmas intocáveis. Ele habita na
consciência desperta que, diante do sofrimento alheio, escolhe acolher em vez
de julgar.
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