Entre a Árvore do Conhecimento e a Árvore da Vida

Por Hiran de Melo

Conta o Evangelho que um jovem rico se aproxima de Jesus com uma pergunta que atravessa os séculos:

— Mestre, o que me falta para herdar a vida eterna?

Era um homem correto. Cumpria os mandamentos. Respeitava a Lei. Fazia tudo o que a religião esperava dele. Aos olhos da sociedade, era alguém bem-sucedido. Possuía prestígio, patrimônio e reconhecimento.

Mas Jesus olha para ele e responde:

— Vende tudo o que tens, distribui aos pobres, conserva apenas o necessário e segue-me.

O texto nos diz que o jovem se entristeceu e foi embora.

A questão é: quem ficou triste?

Foi a alma.

Mas é preciso compreender o que estamos chamando aqui de alma.

Quando falamos de alma, não estamos nos referindo a uma entidade separada da experiência humana. A alma é o nosso sistema psíquico: o conjunto de memórias, crenças, medos, desejos, condicionamentos, afetos e identidades que estruturam a maneira como percebemos a nós mesmos e o mundo.

Foi esse sistema psíquico que sofreu diante do convite de Jesus.

Porque toda estrutura construída sobre a posse, o controle e a segurança inevitavelmente, teme perder aquilo que acredita ser sua fonte de valor.

Mas existe algo mais profundo no ser humano do que sua própria estrutura psíquica.

Existe uma presença silenciosa.

Uma centelha.

Uma semente divina.

Uma realidade espiritual que habita o coração de cada pessoa.

E é justamente essa centelha que escuta Jesus.

Talvez este seja um dos aspectos mais extraordinários dos Evangelhos.

Jesus nunca parece falar apenas à mente das pessoas.

Ele fala a algo mais profundo.

Algo anterior aos condicionamentos sociais.

Anterior aos medos.

Anterior às máscaras.

Anterior até mesmo às construções religiosas.

Ele fala àquilo que, em nós, ainda se recorda de Deus.

A tradição mística de diversas épocas chamou isso de imagem divina, centelha divina, homem interior ou presença do Espírito.

O nome pouco importa.

O essencial é compreender que existe no ser humano uma dimensão capaz de reconhecer a Verdade quando ela se manifesta.

Por isso algumas palavras de Jesus produzem transformação.

Elas não convencem apenas o intelecto.

Elas despertam algo adormecido.

A civilização humana desenvolveu-se extraordinariamente através da acumulação de conhecimento.

Exploramos a natureza.

Construímos impérios.

Desenvolvemos tecnologias.

Expandimos as fronteiras da ciência.

Aprendemos a dominar inúmeras forças da matéria.

Mas permanece uma pergunta inquietante:

O desenvolvimento da consciência acompanhou o desenvolvimento do conhecimento?

Porque uma humanidade tecnologicamente avançada não é necessariamente uma humanidade espiritualmente desperta.

Podemos acumular informações e continuar ignorando a nós mesmos.

Podemos conhecer os mecanismos do universo e permanecer estranhos ao mistério da nossa própria existência.

Talvez seja nesse contexto que a narrativa do Gênesis revele sua profundidade simbólica.

No jardim existem duas árvores.

A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

E a Árvore da Vida.

A primeira representa a capacidade humana de classificar, analisar, controlar e dominar.

A segunda representa a experiência da comunhão, da unidade e da participação consciente na vida divina.

O problema nunca foi o conhecimento.

O problema surge quando o conhecimento se torna o centro.

Quando o saber substitui o ser.

Quando o domínio substitui a comunhão.

Quando a inteligência cresce mais rapidamente que a consciência.

Jesus surge justamente para restaurar essa centralidade perdida.

Ele não combate a razão.

Não combate o pensamento.

Não combate o conhecimento.

Ele combate a ilusão de que o conhecimento, por si só, é suficiente para libertar o ser humano.

Por isso sua mensagem é sempre um chamado ao despertar.

"Quem tem ouvidos para ouvir, ouça."

Mas ouvir o quê?

Ouvir apenas palavras?

Não.

Ouvir aquilo que as palavras despertam.

Ouvir a ressonância da verdade dentro de si.

Ouvir a voz da centelha divina reconhecendo sua própria origem.

Quando Jesus diz "segue-me", ele não está propondo simplesmente a adesão a uma religião.

Está apontando para um caminho de desvelamento.

Um processo de revelação interior.

Um despertar da consciência.

A escuta profunda da fala de Jesus permite que o ser humano tome consciência da presença divina que sempre esteve dentro dele.

Não se trata de receber algo externo.

Trata-se de reconhecer algo que já habita o mais íntimo do ser.

A centelha não é criada por Jesus.

Ela já existe.

Jesus a desperta.

Assim como o sol não cria a semente, mas desperta nela a potência da vida.

Por isso a pergunta fundamental do Evangelho não é:

"O que eu preciso possuir?"

Nem:

"O que eu preciso saber?"

Mas:

"O que em mim ainda está adormecido?"

A verdadeira transformação acontece quando a alma — nosso sistema psíquico, com seus medos, desejos e condicionamentos — deixa de ocupar o trono da existência.

Não porque seja destruída.

Mas porque encontra seu devido lugar.

Ela deixa de ser senhora para tornar-se serva.

E então a centelha divina pode iluminar a consciência.

Talvez seja por isso que Jesus continua fascinando a humanidade.

Porque sua presença toca exatamente o ponto onde o humano encontra o divino.

Ele fala à alma, mas desperta o espírito.

Ele encontra o homem condicionado, mas convoca o homem eterno.

Ele acolhe a personalidade, mas chama a centelha.

E quando essa centelha desperta, a consciência começa a perceber algo que sempre esteve presente:

O Reino de Deus não é uma realidade distante.

Não é uma recompensa futura.

Não é um território geográfico.

Ele começa a ser percebido no interior daquele que descobre a Presença Divina habitando o próprio coração.

Talvez seja esse o verdadeiro significado do convite de Jesus ao jovem rico.

Não abandonar apenas seus bens.

Mas abandonar tudo aquilo que impede sua alma de ouvir a voz da centelha.

Porque a verdadeira riqueza nunca esteve nas posses.

Ela sempre esteve na Presença que habita silenciosamente cada ser humano, aguardando o momento de despertar para a Árvore da Vida.

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