O
Milagre Que Acontece Depois
Por
Hiran de Melo
Há um equívoco recorrente
na forma como lemos os Evangelhos: acreditamos que o milagre está no
acontecimento extraordinário.
Pensamos que o milagre
foi o cego enxergar.
Que o milagre foi o paralítico andar.
Que o milagre foi a água tornar-se vinho.
Que o milagre foi a multiplicação dos pães.
Mas talvez estejamos
olhando para o lugar errado.
O acontecimento é apenas
o sinal.
O milagre verdadeiro
acontece depois.
A
cura de um cego, para quem reconhece a centralidade de Jesus, não deveria ser o
ponto mais impressionante da narrativa. Afinal, se Jesus é a manifestação mais
elevada do Verbo entre os homens, restaurar uma visão física não é exatamente o
centro da mensagem. O extraordinário não está em devolver a capacidade de ver.
O extraordinário é aquilo que a visão passa a produzir na vida daquele que foi
curado.
A pergunta nunca deveria
ser: "Como ele voltou a enxergar?"
A pergunta deveria ser:
"O que ele passou a ver
depois que enxergou?"
Porque há pessoas que
possuem olhos perfeitos e permanecem cegas para a vida.
Há quem enxergue formas,
cores e movimentos, mas não consiga perceber a dor do próximo, a própria
arrogância ou a presença do sagrado escondida nas coisas simples.
Por isso, Jesus nunca
esteve interessado apenas em restaurar funções. Seu propósito era transformar
consciências.
O mesmo acontece na
multiplicação dos pães.
Talvez
o maior erro seja imaginar aquele episódio como uma demonstração de mágica
celestial. Como se o centro da mensagem estivesse na aparição sobrenatural de
alimentos.
O foco não
é o pão.
O foco é a partilha.
O
verdadeiro milagre acontece quando alguém deixa de segurar o pouco que tem e
decide repartir.
Quando a lógica da
escassez é vencida pela lógica da comunhão.
Quando o medo dá lugar à
generosidade.
É nesse instante que o
pão se multiplica.
Não porque surgiu do
nada, mas porque os corações deixaram de funcionar na lógica do egoísmo.
Os
doze cestos recolhidos ao final apontam para algo maior: a humanidade reunida
em torno do Cristo. As doze tribos, os doze apóstolos, a antiga e a nova
aliança encontrando seu centro em uma única verdade.
Tudo converge para Jesus.
Tudo encontra sentido
nele.
Tudo retorna à sua fonte.
Essa
dinâmica não é estranha aos caminhos iniciáticos. Toda verdadeira iniciação
começa quando o indivíduo compreende que não lhe falta informação, mas
consciência. Não lhe falta conhecimento exterior, mas luz interior.
Na
jornada maçônica, por exemplo, a iniciação não tem como objetivo transmitir
segredos. Seu propósito simbólico é conduzir o homem das trevas para a luz.
Contudo, essa luz não é um ponto de chegada. É apenas o início de um longo
despertar.
O iniciado entra
simbolicamente cego para sair em busca da visão.
Mas
a verdadeira visão não consiste em olhar para o mundo. Consiste em olhar para
si mesmo.
É exatamente esse
movimento que encontramos nos Evangelhos.
Jesus não oferece apenas
respostas.
Ele desperta.
Não entrega simplesmente
verdades prontas.
Ele provoca o nascimento
de uma nova consciência.
Por
isso, quando Jesus faz barro e o coloca sobre os olhos do cego, ele não está
apenas realizando uma cura.
Está ensinando.
Sempre ensinando.
O barro nos remete à
nossa origem.
"Tu és pó."
Tu és frágil.
Tu és limitado.
Tu és humano.
Talvez
aquele homem precisasse ser lembrado disso antes de recuperar a visão.
Talvez
a primeira cegueira que precisasse ser curada não estivesse nos olhos, mas no
coração.
Porque
existe uma cegueira muito mais perigosa que a ausência da visão física: a
cegueira produzida pela vaidade.
Aquela que nos faz
acreditar que já sabemos tudo.
Que já vemos tudo.
Que já compreendemos
tudo.
Toda
tradição iniciática séria sabe que o maior obstáculo para o conhecimento não é
a ignorância.
É a ilusão do saber.
Ninguém aprende enquanto
acredita já estar desperto.
Ninguém encontra a luz
enquanto se considera plenamente iluminado.
O primeiro passo da
iniciação é a humildade.
E
é justamente essa humildade que Jesus procura despertar naquele homem.
Então ele faz uma
pergunta aparentemente desnecessária:
— O que queres que eu te
faça?
A pergunta parece
absurda.
O homem é cego.
A resposta parece óbvia.
Mas Jesus não está
interessado naquilo que ele sabe.
Jesus está interessado
naquilo que o homem sabe sobre si mesmo.
Existe
uma diferença imensa entre Deus conhecer nossa dor e nós reconhecermos nossa
dor.
A consciência transforma.
A verbalização cura.
Enquanto a dor permanece
sem nome, ela nos domina.
Quando recebe um nome,
começa a perder seu poder.
Por isso o Cristo
pergunta.
Não porque ignore.
Mas porque deseja
despertar.
Quem precisa ouvir a
resposta não é Deus.
Somos nós.
E
talvez a pergunta continue ecoando até hoje, atravessando séculos e alcançando
cada um de nós:
— O que queres que eu te
faça?
Porque nem sempre
queremos aquilo que dizemos querer.
Há quem peça paz, mas
alimente conflitos.
Há quem peça amor, mas
preserve os muros.
Há quem peça luz, mas se
recuse a abrir os olhos.
No
simbolismo maçônico, o candidato pede luz. Mas pedir luz não significa
recebê-la passivamente. Significa assumir a responsabilidade de enxergar aquilo
que antes preferia ignorar. A luz revela, mas também exige.
Jesus
sabe que existe uma distância enorme entre enxergar e ver.
Enxergar é uma função dos
olhos.
Ver é uma experiência da
consciência.
Enxergar é captar
imagens.
Ver é compreender
significados.
Enxergar é perceber o
mundo.
Ver é perceber a si
mesmo.
Talvez
seja por isso que tantas pessoas caminham pela vida com a visão perfeita e
continuam perdidas.
Elas enxergam tudo.
Mas não veem nada.
A
iniciação autêntica — seja ela espiritual, filosófica ou existencial — acontece
exatamente nesse ponto: quando os olhos deixam de ser apenas instrumentos da
visão e se tornam portas para a compreensão.
E a centralidade de Jesus
está exatamente aí.
Não na exibição do poder.
Não na demonstração do
sobrenatural.
Não no espetáculo
religioso.
Mas
na transformação interior que acontece quando finalmente aprendemos a ver.
Porque o Cristo não veio
apenas abrir olhos.
Veio despertar
consciências.
E
talvez o maior milagre dos Evangelhos nunca tenha sido fazer um cego enxergar.
Talvez tenha sido
conduzir um ser humano das trevas da inconsciência para a luz do despertar.
O
mesmo caminho que toda iniciação verdadeira, em sua essência mais profunda,
procura apontar.
Um
caminho que, para o cristão, encontra em Jesus não apenas um guia, mas o
próprio Oriente de onde nasce toda luz.

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