Os que carregam pedras ainda estão entre nós
Por Hiran de Melo
Existe algo profundamente
instigante na figura de Jesus.
Não no Cristo
transformado em símbolo religioso.
Não no Cristo domesticado
pelos templos.
Mas no homem que
atravessava ruas poeirentas sentando-se à mesa com aqueles que a moral
rejeitava.
Porque Jesus nunca
pareceu ameaçar os pecadores.
Ele ameaçava os que
acreditavam não ser um deles.
Talvez por isso a
pergunta continue tão perturbadora:
“Tu achas
que a humanidade mataria Jesus de novo?”
A resposta talvez seja
ainda mais perturbadora:
Certamente,
rapidamente seria condenado. Porque os que desejaram a morte de Jesus não eram
os marginalizados.
Não eram as prostitutas.
Não eram os famintos.
Não eram os impuros
sociais.
Eram os defensores da
ordem.
Os guardiões da moral.
Os religiosos.
O “povo de bem”.
Aqueles que acreditavam
possuir Deus com tanta certeza que já não conseguiam enxergar o humano diante
deles.
Existe uma passagem
silenciosamente revolucionária no Evangelho: a
mulher arrastada até Jesus para ser condenada.
Uma mulher surpreendida
em adultério.
Exposta.
Humilhada.
Descabelada.
Provavelmente ferida.
Transformada em
espetáculo público para satisfazer a crueldade coletiva disfarçada de zelo
espiritual.
Os homens que a levam não
procuram justiça.
Procuram autorização para
odiar.
A violência raramente se
apresenta como violência.
Ela quase sempre chega
vestida de virtude.
“Moisés
manda apedrejar.”
E é curioso perceber como
multidões continuam usando Deus exatamente assim: não
para curar, mas para legitimar suas pedras.
Jesus então se inclina e
escreve no chão.
O Evangelho não revela o
que foi escrito.
Talvez porque o mais
importante nunca tenha sido a frase.
Mas o silêncio.
Enquanto todos gritavam
condenação, Jesus escreve.
Enquanto todos desejavam
punição, Jesus desacelera o ódio.
Há uma diferença profunda
entre consciência e histeria coletiva.
Os acusadores querem
transformar aquela mulher em exemplo.
Jesus devolve humanidade a ela.
E então vem a frase que
atravessa séculos não como absolvição do erro, mas como desmascaramento da
hipocrisia:
“Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.”
A primeira pedra não era
simbólica.
Era enorme. Pesada. Brutal.
Porque toda condenação
coletiva precisa transformar o outro em algo menos humano. Caso contrário,
ninguém conseguiria esmagá-lo.
E talvez seja exatamente
isso que continua acontecendo até hoje.
Mudam-se as roupas.
Mudam-se os templos.
Mudam-se os discursos.
Mas as pedras permanecem.
Pedras
morais.
Pedras
ideológicas.
Pedras
religiosas.
Pedras
virtuais.
A humanidade continua
escolhendo vítimas para sacrificar em praça pública enquanto chama isso de
justiça.
Existe algo profundamente
assustador na necessidade humana de condenar.
Porque muitas vezes o julgamento não nasce do amor pela verdade, mas do prazer
inconsciente de sentir-se superior.
O “povo de bem” quase
sempre precisa de alguém para odiar coletivamente.
Alguém para carregar a sombra que ele se recusa a reconhecer em si mesmo.
Jesus rompe esse
mecanismo de maneira devastadora.
Ele não diz que o erro não existe.
Não romantiza a dor.
Não transforma destruição em virtude.
Mas também se recusa a
reduzir uma pessoa ao pior instante da sua vida.
Talvez esse seja o ponto
mais intolerável do Evangelho:
Jesus enxergava humanidade onde a multidão enxergava apenas culpa.
E isso continua sendo
ofensivo para consciências rígidas.
Porque
sistemas de poder sobrevivem da condenação.
A culpa coletiva organiza
estruturas religiosas, políticas e morais.
O medo mantém hierarquias intactas.
Jesus desorganiza tudo quando afirma, na prática, que o amor vale mais
que a punição.
Por isso ele continua
perigoso.
O Cristo histórico não
caberia facilmente em muitos espaços religiosos modernos.]
Seria
acusado de relativista.
De
subversivo.
De inimigo
da tradição.
Talvez fosse novamente
perseguido exatamente pelos que dizem defendê-lo.
Porque o problema nunca
foi apenas Jesus.
O problema sempre foi aquilo que ele revela sobre nós.
A facilidade com que nos
tornamos tribunal.
A rapidez com que
transformamos dor alheia em espetáculo.
A necessidade desesperada
de parecer puros enquanto escondemos nossas próprias sombras.
No fim da cena, resta
apenas uma mulher ferida diante de um homem que poderia condená-la — mas não
condena.
“Onde estão os que te acusavam?”
“Ninguém, Senhor.”
“Nem eu te condeno.”
Talvez somente quem não
precisa provar superioridade moral seja capaz de amar assim.
O único verdadeiramente
autorizado a julgar escolhe a compaixão.
E talvez aí exista uma das maiores revelações espirituais da história: a consciência desperta não sente prazer em destruir pessoas. Porque toda luz verdadeira dissolve pedras antes de dissolver pecados.
Os que carregam pedras ainda estão entre nós - breve comentário
Por Hiran de Melo
O texto "Os que
carregam pedras ainda estão entre nós", é um manifesto potente que
cruza a espiritualidade com o existencialismo. Ele desonera a figura de Jesus
do verniz dogmático e a devolve ao terreno da crueza e da profundidade humana.
Abaixo, analiso a obra
sob a ótica da espiritualidade livre (focada na transcendência pelo
amor) e do existencialismo (focada na responsabilidade, na angústia e na
autenticidade).
1. O Jesus Histórico vs. A Institucionalização da Fé
O texto inicia com uma
demarcação tipicamente existencialista: a separação entre a essência viva
e a instituição abstrata.
- Perspectiva
Existencialista:
Jean-Paul Sartre afirmava que "a existência precede a essência".
Ao domesticar Cristo nos templos, a religião institucionalizada inverteu
isso, criando uma "essência" conceitual e rígida (o Cristo dos
dogmas) para apagar a sua "existência" (o homem subversivo que
sentava à mesa com os rejeitados).
- Perspectiva
Espiritual:
A
verdadeira espiritualidade proposta por Jesus não é sistêmica, mas
relacional. O texto aponta que o perigo de Cristo para os "defensores
da ordem" reside no fato de que ele valida o indivíduo antes de
validar a norma. Ao ameaçar os que se autoproclamavam puros, Jesus ataca a
hipocrisia de quem usa o divino como um escudo para a própria vaidade.
2. A Histeria Coletiva e a Má-Fé (Sartreana)
A análise da cena da
mulher adúltera introduz o conceito sartreano de má-fé — o ato de mentir
para si mesmo para escapar da angústia da própria liberdade e responsabilidade.
"A violência
raramente se apresenta como violência. Ela quase sempre chega vestida de
virtude."
Os acusadores não buscam
a justiça de Deus; buscam uma "autorização para odiar". Ao se
diluírem na multidão furiosa, os indivíduos abrem mão de suas consciências
particulares para adotar a "histeria coletiva". No existencialismo,
isso é a fuga da responsabilidade: "Eu não estou pecando, estou apenas
cumprindo a lei de Moisés". A multidão desumaniza a mulher para que o
ato de a esmagar com pedras não gere culpa.
3. O Silêncio de Jesus: O Desacelerar da Existência
Um dos pontos mais
brilhantes do texto é a interpretação do ato de Jesus escrever no chão.
- Em um mundo de ruído, julgamento
imediato e linchamento (idêntico aos tribunais digitais de hoje), o
silêncio de Jesus é um ato de resistência existencial.
- Ao se inclinar e escrever, ele quebra
o automatismo do ódio. Ele força o bando histérico a sair do transe
coletivo e retornar para a solidão de suas próprias consciências.
- A frase "Quem não tiver
pecado, atire a primeira pedra" funciona como um espelho
existencial. Jesus destrói a projeção psicológica. Ele obriga cada homem
ali a encarar a sua própria sombra (no sentido analítico) e a sua
própria finitude e imperfeição.
4. A Sombra e o Prazer Oculto da Condenação
O texto toca em uma
ferida psicológica e espiritual profunda: a necessidade do "povo de
bem" de encontrar bodes expiatórios.
- A
Sombra Coletiva:
Para manter a ilusão de pureza, o ego moralista precisa projetar toda a
sua sujeira interna em alguém. A mulher adúltera torna-se o receptáculo do
pecado da comunidade. Ao apedrejá-la, a multidão sente que está destruindo
o próprio pecado, sem precisar passar pelo doloroso processo de conversão
íntima.
- O
Ego Espiritual:
O julgamento traz um prazer narcisista inconsciente. Sentir-se superior ao
"pecador" dá ao hipócrita uma falsa sensação de salvação.
5. A Redução do Ser ao "Pior Instante"
"Jesus enxergava
humanidade onde a multidão enxergava apenas culpa [...] se recusa a reduzir uma
pessoa ao pior instante da sua vida."
Aqui o existencialismo
atinge seu ápice. Para o existencialismo, o ser humano não é um objeto acabado;
ele é um projeto contínuo, um "vir-a-ser".
- A moral rígida define a mulher
permanentemente: "Ela é adúltera" (transforma o ato em
essência).
- Jesus a define dinamicamente: "Ela
cometeu um erro, mas sua existência é maior que o seu erro".
Ao dizer "Nem eu
te condeno; vá e não peques mais", Jesus devolve a ela o futuro, a
liberdade de escolher um novo caminho. Ele não anula o erro, mas remove o peso
do veredito que congelava a existência daquela mulher na dor.
Por fim: O Cristo que dissolve as Pedras
Concluo com uma
provocação atualíssima. Se Jesus caminhasse na Terra hoje, ele não seria
crucificado pelos ateus ou pelos marginalizados, mas sim cancelado, processado
e condenado pelos novos guardiões da moralidade — inclusive os que usam o Seu
nome.
A grande revelação
espiritual e existencial do texto é que a evolução da consciência não produz
juízes, produz terapeutas e pacificadores. O único que teria o direito de
julgar (por estar livre de pecado) escolhe a compaixão. Portanto, qualquer
espiritualidade que use como arma a fé para ferir o outro é uma farsa.
A luz verdadeira
não
é aquela que ilumina o pecado do vizinho para que possamos apedrejá-lo; é aquela que ilumina as pedras que
carregamos no próprio peito, derretendo-as antes que elas façam mais uma vítima
na praça pública da história.
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