Poema da Transformação —
Entre o Ser e o Retorno
Por Hiran de Melo
Tenho em minha casa quatro pés de jasmins.
E, no entanto, não são apenas flores que habitam o jardim,
mas lições silenciosas que a vida repete
para quem se dispõe a escutar.
À noite, abrem-se —
como almas que, por um breve instante,
lembram-se de sua origem luminosa
e se oferecem ao mundo em forma de perfume.
Exalam ternura, mas não se demoram.
Há nelas uma pressa serena, quase sagrada,
como se soubessem que existir
é um gesto que não se prolonga, apenas se cumpre.
Pela manhã, já não são as mesmas.
As pétalas cedem, o branco se recolhe,
e o chão recebe, em silêncio,
aquilo que antes se erguia em graça.
O jardim não entristece — transforma-se.
A grama, mesmo sob o peso do que caiu,
continua a crescer, como quem compreende
que viver é acolher também o que termina.
E então percebo:
não é das flores que falo,
nem de suas cores ou perfumes —
é do mistério que as atravessa.
Chamamos de morte aquilo que não entendemos,
mas talvez seja apenas o retorno
da forma ao seu princípio invisível.
Antes da flor, o botão sonhava em silêncio.
Antes do pão, o grão aceitava dissolver-se.
Antes de cada presença, uma ausência consentida
preparava o espaço do existir.
Nada se perde — tudo se entrega.
E se há dor,
é porque ainda confundimos permanência com sentido.
Pergunto, então, não ao tempo, mas ao íntimo:
para onde vai aquilo que fui,
quando já não sou como antes?
Para onde seguem os átomos que me vestem,
e os pensamentos que me revelam?
Talvez os átomos retornem ao grande ciclo,
mas o que amou, o que buscou, o que se elevou —
isso não cabe na matéria.
Há, no fundo de tudo,
uma travessia que não se mede,
um retorno que não é fim,
mas reconhecimento.
E assim, entre o abrir-se do jasmim e sua queda,
aprendo, sem pressa,
que existir não é resistir ao tempo,
mas atravessá-lo com sentido.
Análise — depoimento
Por Hiran de Melo
Há poemas que não se leem — se
atravessam. Este é um deles. “Poema da Transformação” não fala apenas das
flores, mas do instante em que o ser se reconhece parte do ciclo que o contém.
O jasmim, com sua abertura noturna e sua queda silenciosa pela manhã, torna-se
espelho da condição humana: o gesto de existir como cumprimento, não como
permanência.
Ao dizer “tenho em minha casa quatro
pés de jasmins”, o eu poético inaugura uma intimidade que é também um altar. A
casa torna-se metáfora do corpo, o jardim, da consciência. E as flores, que se
abrem e se recolhem, são as lições que a vida oferece a quem se dispõe a
escutar — não com os ouvidos, mas com o silêncio.
O poema testemunha uma revelação: a
morte não é fim, mas retorno. O que se desfaz não se perde; entrega-se. O chão
que acolhe as pétalas é o mesmo que sustenta a grama que cresce — há uma
continuidade que não se vê, mas se sente. É o mistério que atravessa todas as
formas, o princípio invisível que sustenta o visível.
Quando o poeta pergunta “para onde
vai aquilo que fui, quando já não sou como antes?”, ele não busca resposta, mas
reconhecimento. É o instante em que o humano se percebe parte de uma travessia
maior — aquela que não se mede em tempo, mas em sentido.
O tom é de quem fala depois de ter
compreendido algo essencial: que existir não é resistir ao tempo, mas
atravessá-lo com consciência. O testemunho nasce da contemplação — não da
certeza, mas da entrega.
Assim, o poema se torna confissão e aprendizado. O jasmim é o mestre silencioso; o perfume, a lembrança da origem luminosa; e o chão, o lugar do retorno. Tudo o que vive, vive para transformar-se. Tudo o que parte, parte para continuar.
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