A Luz de Jesus na Contemporaneidade

Por Hiran de Melo

Existe uma pergunta que atravessa os séculos e chega intacta ao nosso tempo:

Onde está a luz de Jesus?

Não a luz dourada das pinturas renascentistas.
Não a luz dos templos iluminados por refletores.
Não a luz transformada em logotipo religioso, slogan eleitoral ou estratégia de marketing espiritual.

Falo da outra luz.

Aquela que caminhava pelas estradas poeirentas da Galileia.
Aquela que sentava à mesa com quem ninguém queria sentar.
Aquela que tocava os corpos considerados impuros.
Aquela que enxergava seres humanos onde a sociedade via apenas rótulos.

Talvez o maior equívoco da história tenha sido transformar Jesus em um ser tão distante que ninguém mais consiga segui-lo.

Construíram um Cristo inalcançável.

Mas os Evangelhos mostram algo muito diferente.

Mostram um homem que chorou diante da morte de um amigo.
Que sentiu fome.
Que sentiu cansaço.
Que experimentou abandono.
Que conheceu o medo.

Quando, no Getsêmani, ele pede que o cálice seja afastado, não estamos diante de um super-herói celestial. Estamos diante de alguém que conhece profundamente a fragilidade humana.

E talvez seja exatamente por isso que sua luz continua viva.

Porque ela não nasce da perfeição.

Ela nasce da coragem.

A coragem de permanecer fiel ao amor mesmo quando tudo convida ao medo.

Vivemos numa época curiosa.

Nunca falamos tanto sobre espiritualidade.
Nunca consumimos tantos conteúdos religiosos.
Nunca tivemos tantas formas de exibir a fé.

E, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar a essência daquilo que Jesus ensinou.

Há discursos sobre amor que não suportam a diferença.

Há sermões sobre misericórdia carregados de condenação.

Há pregações sobre humildade construídas sobre palcos de vaidade.

A luz de Jesus não se encontra necessariamente onde seu nome é mais repetido.

Muitas vezes ela aparece justamente onde seu nome nem é pronunciado.

Ela está na enfermeira exausta que continua cuidando de quem sofre.

Está no professor que insiste em ensinar em meio ao abandono.

Está no voluntário que distribui alimento sem perguntar a ideologia de quem tem fome.

Está na mulher que recomeça depois de ter sido julgada por todos.

Está no homem que pede perdão quando poderia justificar seus erros.

Porque a luz de Jesus nunca foi uma teoria.

Foi uma prática.

Nunca foi um espetáculo.

Foi uma presença.

Nunca foi uma performance de santidade.

Foi uma manifestação de humanidade.

Por isso ele incomodava tanto.

Os pecadores se sentiam acolhidos.

Os hipócritas se sentiam ameaçados.

Os marginalizados encontravam esperança.

Os donos do poder encontravam resistência.

Jesus não confrontava a fragilidade humana.

Confrontava a falsa superioridade humana.

Seu problema nunca foi com quem caía.

Seu problema era com quem fingia não cair.

E talvez seja exatamente essa mensagem que a contemporaneidade mais precisa ouvir.

Vivemos a era das aparências.

Das identidades cuidadosamente editadas.

Dos personagens construídos para receber aprovação.

Mas a luz do Nazareno continua atravessando as máscaras.

Ela continua perguntando quem somos quando ninguém está olhando.

Ela continua perguntando se nossa fé produz compaixão ou apenas pertencimento.

Se nossas crenças geram amor ou apenas tribos.

Se nossa espiritualidade nos torna mais humanos ou apenas mais convencidos.

Porque a verdadeira luz não serve para destacar quem somos.

Serve para revelar quem ainda podemos nos tornar.

Talvez Jesus não tenha vindo para fundar uma religião de admiradores.

Talvez tenha vindo para despertar consciências.

Talvez não tenha vindo para criar multidões dependentes.

Talvez tenha vindo para libertar pessoas.

E talvez o maior desafio da contemporaneidade não seja acreditar em Jesus.

Seja permitir que sua luz atravesse nossas certezas.

Porque acreditar nele é relativamente fácil.

Difícil é amar como ele amou.

Difícil é acolher sem possuir.

Difícil é servir sem dominar.

Difícil é perdoar sem humilhar.

Difícil é permanecer humano em um mundo que recompensa personagens.

A luz de Jesus continua acesa.

Não nas estruturas de poder.

Não nos impérios religiosos.

Não nas vitrines da espiritualidade.

Mas em cada gesto que escolhe o amor quando o ódio parece mais conveniente.

E enquanto existir um único ser humano capaz de enxergar outro ser humano como irmão, essa luz continuará iluminando o mundo.

Silenciosa.

Incômoda.

Transformadora.

Como sempre foi.

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