A Porta e a Travessia

Por Hiran de Melo

Existem duas frases no Evangelho que, à primeira vista, parecem pertencer a caminhos diferentes.

Uma fala da fé.

A outra fala da prática.

Uma fala de crer.

A outra fala de viver.

A primeira é conhecida por quase todo cristão:

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João, 3)

A segunda costuma causar mais desconforto:

"Nem todo aquele que diz a mim: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus, mas somente o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." (Mateus, 7)

Durante séculos, multidões tentaram escolher entre uma e outra.

Alguns abraçaram a fé e esqueceram a transformação.

Outros enfatizaram as obras e esqueceram a experiência interior.

Mas talvez Jesus jamais tenha pretendido criar essa separação.

Talvez ele estivesse descrevendo duas etapas de uma mesma jornada.

A porta e a travessia.

Existe uma diferença profunda entre encontrar uma porta e atravessá-la.

Muitos encontram a porta.

Poucos atravessam.

Encontrar a porta produz entusiasmo.

Atravessar produz transformação.

A porta desperta esperança.

A travessia exige coragem.

Quando João afirma que Deus amou o mundo e enviou seu Filho para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna, Jesus está revelando a porta.

Ele anuncia que o ser humano não está abandonado.

Que existe uma luz.

Que existe um caminho.

Que existe uma presença divina chamando cada consciência para além de suas trevas.

Mas acreditar que existe uma porta não significa caminhar por ela.

É apenas o começo.

A fé abre os olhos.

Mas ainda não movimenta os pés.

Talvez uma das evidências mais visíveis da diferença entre encontrar a porta e realizar a travessia esteja na maneira como escolhemos nos relacionar.

Vivemos uma época que fala muito de liberdade.

Mas raramente fala de responsabilidade.

Fala muito de desejo.

Mas pouco de compromisso.

Fala muito de conexão.

Mas quase nada de comunhão.

Muitos procuram alguém para compartilhar a cama.

Poucos procuram alguém para compartilhar a jornada.

Buscam corpos.

Mas não almas.

Buscam companhia para a noite.

Mas não para a travessia.

E, sem perceber, transformam pessoas em objetos de consumo emocional.

Quando o encanto termina, substituem.

Quando o desejo diminui, descartam.

Quando surgem dificuldades, procuram outra vitrine.

É a lógica do mercado infiltrando-se no amor.

Mas o Evangelho aponta para outra direção.

Jesus jamais tratou seres humanos como instrumentos para satisfazer necessidades pessoais.

Ele via pessoas.

Via histórias.

Via dores.

Via mistérios.

Via filhos de Deus.

Talvez amar alguém seja justamente isso: reconhecer que o outro não foi colocado em nossa vida para servir aos nossos desejos, mas para caminhar conosco no processo de transformação mútua.

A verdadeira companheira ou o verdadeiro companheiro não é apenas quem participa dos momentos de prazer.

É quem permanece durante as tempestades.

É quem testemunha nossas quedas sem transformar nossas fragilidades em condenação.

É quem nos ajuda a enxergar aquilo que sozinhos não conseguimos ver.

É quem nos recorda da luz quando atravessamos períodos de escuridão.

Porque toda relação profunda é também uma iniciação.

Dois seres humanos caminhando juntos rumo a uma consciência maior do que aquela que possuíam quando estavam sozinhos.

Por isso, a pergunta não é apenas:

"Eu amo esta pessoa?"

Talvez a pergunta mais profunda seja:

"Estamos ajudando um ao outro a atravessar?"

Porque existem relacionamentos que alimentam apenas o ego.

E existem relacionamentos que alimentam a alma.

Existem encontros que servem apenas ao desejo.

E existem encontros que se tornam caminhos.

A fé que permanece apenas nos lábios pergunta:

"O que esta pessoa pode me oferecer?"

A fé que começou a realizar a travessia pergunta:

"O que podemos nos tornar juntos?"

E talvez seja exatamente aí que o amor deixa de ser posse e começa a transformar-se em Reino.

Talvez por isso Jesus tenha feito uma advertência tão severa.

Nem todo aquele que diz:

"Senhor, Senhor."

Entrará no Reino.

Porque pronunciar um nome não é o mesmo que viver um ensinamento.

Existe uma espiritualidade que se satisfaz com declarações.

Com fórmulas.

Com pertencimentos.

Com rótulos.

Uma espiritualidade que acredita que repetir certas palavras é suficiente para produzir transformação.

Mas o Reino nunca foi uma questão de discurso.

Sempre foi uma questão de consciência.

Jesus não perguntava apenas no que as pessoas acreditavam.

Perguntava quem elas estavam se tornando.

Porque a fé autêntica não produz apenas convicções.

Produz metamorfoses.

Os Evangelhos estão repletos de pessoas que acreditavam em Deus.

Os sacerdotes acreditavam.

Os escribas acreditavam.

Os fariseus acreditavam.

Conheciam as Escrituras.

Decoravam versículos.

Dominavam doutrinas.

Mas foram incapazes de reconhecer a Verdade quando ela caminhou diante deles.

Possuíam informação.

Faltava-lhes transformação.

Possuíam visão.

Faltava-lhes enxergar.

E talvez esse continue sendo o maior desafio espiritual da humanidade.

Não a falta de crença.

Mas a ausência de travessia.

Porque é possível acreditar em Jesus sem permitir que sua luz atravesse nossas certezas.

É possível defender seus ensinamentos sem praticá-los.

É possível proclamar seu nome sem carregar seu espírito.

A mesma realidade aparece no trabalho.

Na política.

Na religião.

Nas redes sociais.

Falamos de honestidade enquanto negociamos pequenas corrupções.

Falamos de amor enquanto alimentamos divisões.

Falamos de humildade enquanto construímos personagens para receber admiração.

Falamos de Deus enquanto ignoramos o próximo.

A travessia é exatamente o lugar onde as palavras deixam de ser discurso e se tornam carne.

Onde a verdade abandona os livros e passa a habitar as escolhas.

Onde a espiritualidade deixa de ser identidade e passa a ser transformação.

Porque ninguém atravessa permanecendo igual.

O Reino que Jesus anunciava não era um território distante.

Era uma realidade interior.

Uma semente.

Uma consciência desperta.

Uma revolução silenciosa acontecendo dentro do coração humano.

Por isso ele dizia que a vontade do Pai precisava ser realizada.

Não por exigência.

Mas por coerência.

Quem encontra a luz naturalmente começa a iluminar.

Quem recebe misericórdia aprende a ser misericordioso.

Quem descobre o amor aprende a amar.

Quem experimenta o perdão aprende a perdoar.

A travessia não é um pagamento pela porta.

É sua consequência natural.

A árvore não produz frutos para tornar-se árvore.

Produz frutos porque já está viva.

Talvez o grande equívoco religioso de todos os tempos tenha sido transformar a porta em destino.

Admiramos a entrada.

Fotografamos a entrada.

Discutimos a entrada.

Defendemos a entrada.

Mas permanecemos do lado de fora.

Jesus, porém, nunca convidou ninguém para contemplar uma porta.

Convidou para atravessá-la.

Convidou para abandonar velhas certezas.

Convidou para morrer para o ego.

Convidou para nascer de novo.

Convidou para permitir que a luz se tornasse vida.

Porque acreditar nele é relativamente simples.

Difícil é amar como ele amou.

Difícil é servir sem dominar.

Difícil é perdoar sem humilhar.

Difícil é enxergar o próximo como irmão.

Difícil é fazer da compaixão uma prática cotidiana.

É aí que a travessia acontece.

Talvez a vida eterna de que Jesus falava nunca tenha sido apenas uma promessa futura.

Talvez seja uma qualidade de existência que começa quando a consciência desperta para a presença divina.

Quando o medo deixa de governar.

Quando o amor deixa de ser teoria.

Quando o Reino deixa de ser uma expectativa distante e passa a nascer dentro de nós.

Nesse sentido, João fala da porta.

Mateus fala da travessia.

João revela o convite.

Mateus revela a resposta.

João apresenta a luz.

Mateus mostra o caminho iluminado.

E Jesus parece sussurrar através dos séculos que não basta admirar a entrada.

É preciso caminhar.

Porque a fé abre a porta.

Mas é a transformação que nos faz atravessá-la.

E somente quem atravessa descobre que o Reino que procurava sempre esteve mais próximo do que imaginava.

Tão próximo quanto o próprio coração.


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