Conjunção
Celeste e o Contraste dos Mundos
Por
Hiran de Melo
Há
encontros que duram apenas alguns instantes, mas permanecem na memória como se
tivessem acontecido dentro da alma.
Naquela
tarde, quando o céu ainda hesitava entre o azul do dia e o azul da noite, a Lua
crescente aproximou-se de Vênus. Aos nossos olhos, pareciam caminhar lado a
lado, como dois viajantes silenciosos que decidiram compartilhar o mesmo
horizonte.
A
astronomia chama esse fenômeno de conjunção planetária.
A
poesia chama de lembrança.
Lembrança
de que o universo continua realizando sua dança majestosa, mesmo quando estamos
ocupados demais para levantar os olhos.
A
ciência nos explica que aquela proximidade é apenas aparente. A Lua encontra-se
a cerca de trezentos e oitenta mil quilômetros da Terra. Vênus, dependendo de
sua posição orbital, pode estar a dezenas de milhões de quilômetros de
distância. O que parece um encontro é, na verdade, uma coincidência de
perspectivas.
Curiosamente,
o mesmo acontece entre nós.
Quantas
pessoas parecem próximas, mas vivem separadas por abismos invisíveis?
E
quantas permanecem fisicamente distantes, mas habitam o mesmo espaço afetivo
dentro do coração?
O
universo conhece bem esse mistério.
As
fotografias revelam algo ainda mais profundo.
Na
parte inferior da imagem estão as casas simples, os muros altos, as cercas
elétricas, os postes, os fios que cortam o bairro. É o território onde
organizamos nossa sobrevivência. Construímos paredes para proteger o que
possuímos, delimitamos propriedades, fechamos portões, instalamos alarmes e
seguimos a rotina diária acreditando que ali se resume nossa realidade.
Mas
basta erguer um pouco o olhar.
Logo
acima dos telhados começa outro mundo.
Um
mundo sem muros.
Sem
fronteiras.
Sem
escrituras.
Sem
cercas.
O
céu não conhece propriedade privada.
Nenhuma
estrela reivindica posse sobre outra.
Nenhum
planeta disputa espaço com arrogância.
Cada
corpo celeste realiza silenciosamente a missão para a qual foi criado.
Talvez
por isso o cosmos transmita tanta paz.
Ele
não compete.
Ele
simplesmente existe.
Há
um detalhe discreto na fotografia que parece quase uma parábola.
Uma
delicada linha luminosa atravessa exatamente a base da Lua crescente. Talvez
seja apenas o reflexo da lente. Talvez o rastro de um avião. Talvez um satélite
cruzando o céu.
Pouco
importa.
Na
imagem, ela assume outro significado.
Parece
unir os dois mundos.
Como
se dissesse que o cotidiano e o eterno nunca estiveram realmente separados.
Somos
nós que insistimos em dividi-los.
Vivemos
convencidos de que Deus habita apenas os templos enquanto atravessa
silenciosamente nossas ruas.
Procuramos
o extraordinário, mas Ele continua escondido no ordinário.
No
céu que contemplamos da calçada.
Na
brisa do entardecer.
Na
criança que aponta para a Lua.
Na
pausa inesperada de quem interrompe o caminho apenas para admirar a beleza.
Existe
uma pobreza que não nasce da falta de bens.
Nasce
da incapacidade de contemplar.
Quem
perde a capacidade de admirar o céu começa, aos poucos, a reduzir o universo ao
tamanho das próprias preocupações.
A
agenda torna-se maior que a eternidade.
Os
boletos tornam-se mais importantes que o nascer da Lua.
As
notificações do celular passam a ocupar o espaço que antes pertencia ao
silêncio.
Talvez
uma das maiores tragédias do nosso tempo não seja a falta de tecnologia, mas a
ausência de assombro.
Sabemos
medir galáxias.
Calculamos
órbitas.
Fotografamos
nebulosas distantes.
Mas
já quase não sabemos permanecer cinco minutos olhando para o céu.
Entretanto,
sempre que o fazemos, algo muda dentro de nós.
Não
porque o universo tenha mudado.
Mas
porque recuperamos nossa verdadeira escala.
Descobrimos
que nossos problemas continuam reais, porém deixam de ser absolutos.
O
infinito relativiza nossas urgências.
A
eternidade reorganiza nossas prioridades.
É
impossível contemplar um céu como esse sem recordar as palavras do salmista:
"Quando
contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que
estabeleceste, quem é o homem para que dele te lembres?"
Essa
pergunta não diminui o ser humano.
Ao
contrário.
Ela
o coloca exatamente onde deveria estar.
Nem
no centro do universo.
Nem
perdido dentro dele.
Mas
amado por Aquele que sustenta ambos.
Talvez
seja esta a maior mensagem escondida naquela conjunção celeste.
Enquanto
nós levantávamos muros, Deus continuava desenhando encontros no céu.
Enquanto
dividíamos territórios, o universo permanecia unido pela mesma harmonia
invisível.
Enquanto
nossos olhos permaneciam presos ao chão, a beleza seguia paciente, aguardando
apenas um instante de contemplação.
No
fim, a Lua voltará a seguir seu caminho.
Vênus
continuará sua órbita.
A
conjunção desaparecerá.
Mas
algo pode permanecer.
A
lembrança de que vivemos entre dois mundos.
Um
construído por nossas mãos.
Outro
sustentado pelas mãos de Deus.
A
sabedoria talvez consista justamente em habitar o primeiro sem jamais perder de
vista o segundo.
Porque
quem aprende a olhar para o alto volta à terra diferente.
E
descobre que, mesmo cercado pelos muros da cidade, continua morando debaixo do
mesmo céu infinito.
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