Debaixo do Sol nada se perde, tudo se transforma

Por Hiran de Melo

Há um instante do dia em que a luz parece desacelerar. O céu abandona lentamente o azul e se entrega aos tons dourados, alaranjados e rubros. É o momento em que o sol se despede sem fazer alarde. Não luta contra a noite. Apenas cumpre seu ciclo.

Talvez seja por isso que o pôr do sol desperte tanta nostalgia. Nele, percebemos que tudo passa. Não apenas o dia. Também os encontros, os afetos, as certezas, a juventude, os sonhos que um dia pareciam eternos e as pessoas que acreditávamos jamais perder.

É diante do horizonte que muitas ausências voltam a conversar conosco.

Mas será que realmente perdemos?

Costumamos imaginar a perda como um desaparecimento absoluto, como se algo fosse arrancado da existência e lançado ao vazio. Entretanto, a natureza jamais confirma essa crença. Debaixo do sol, nada desaparece por completo. Tudo muda de forma.

A folha que cai da árvore torna-se húmus. A chuva que evapora regressa em nuvens. A madeira consumida pelo fogo transforma-se em calor, fumaça e cinzas. A criança não deixa de existir quando se torna adulta. Apenas abandona uma forma para assumir outra.

O universo inteiro parece ensinar a mesma lição: existir é transformar-se.

Talvez sejamos nós os únicos a insistir que algumas coisas deveriam permanecer exatamente como eram.

É dessa insistência que nasce boa parte do sofrimento.

Não sofremos apenas porque algo terminou. Sofremos porque desejávamos que aquilo fosse permanente, quando desde o princípio estava submetido à mesma lei que governa as estrelas, os rios e as estações do ano.

O apego tenta congelar o tempo.

A vida, porém, continua correndo.

Quando alguém parte, acreditamos que levamos conosco apenas o vazio. Mas a ausência não chega sozinha. Ela traz consigo as lembranças, os aprendizados, as palavras que permanecem ecoando, os gestos que incorporamos sem perceber, a forma como passamos a enxergar o mundo depois daquele encontro.

Quem amamos nunca permanece apenas na fotografia.

Permanece também naquilo que nos tornamos.

Há pessoas que continuam vivendo em nossas escolhas, em nossa maneira de cuidar dos outros, na coragem que encontramos diante das dificuldades ou até mesmo na delicadeza com que contemplamos um fim de tarde.

A presença mudou de lugar.

Mas não deixou de existir.

O mesmo acontece com aquilo que chamamos de conquista.

Recebemos um cargo, alcançamos um objetivo, adquirimos um bem, celebramos uma vitória. Sentimo-nos proprietários daquilo que, na verdade, apenas atravessa nossa história por algum tempo.

Tudo o que chega também prepara sua partida.

E isso não diminui seu valor.

Ao contrário.

É justamente a impermanência que torna cada instante precioso.

Uma conversa teria o mesmo significado se pudesse durar para sempre?

Um abraço emocionaria tanto se nunca precisasse terminar?

O próprio pôr do sol seria admirado se permanecesse imóvel no horizonte durante toda a eternidade?

A beleza nasce porque o tempo passa.

Talvez seja esse o grande equívoco humano: pensar a vida em termos de ganhos e perdas, quando ela se organiza em movimentos de transformação.

O agricultor não perde a semente quando ela desaparece sob a terra. Ele a vê renascer como espiga.

A lagarta não perde sua existência ao entrar no casulo. Apenas prepara o voo.

Nem mesmo o sol desaparece quando mergulha atrás do horizonte. Apenas continua iluminando outros lugares que nossos olhos já não alcançam.

Assim também acontece conosco.

Cada despedida leva alguma coisa.

Mas também deixa outra.

Cada fim encerra uma forma de existir e inaugura outra, ainda invisível.

Talvez seja essa a mensagem silenciosa que a vida escreve diariamente no horizonte.

Enquanto contemplamos o pôr do sol com os olhos marejados, acreditamos assistir ao fim da luz. No entanto, o próprio crepúsculo anuncia que a noite dará lugar à madrugada e que um novo amanhecer já começou, embora ainda esteja oculto.

Debaixo do sol, nada se perde.

Tudo se transforma.

E talvez fosse exatamente isso que estivesse escrito naquele pequeno bilhete deixado ao lado das duas garrafas vazias:

"Aquilo que o amor tocou jamais desaparece. Apenas aprende uma nova maneira de permanecer."

Assista:

https://www.instagram.com/reel/DYrYGFUMC1M/?igsh=aGwwbGk1OG9jdGRp

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