Desejo
e Silêncio
Entre
a Mordaça da Repressão e a Sabedoria da Contemplação
Por
Hiran de Melo
“Talvez o Verdadeiro Controle dos Nossos Desejos
Consista em Deixá-los em Silêncio”. - José Alênio
Costumamos
imaginar o controle dos desejos como uma luta.
Uma
batalha interna na qual a razão tenta dominar os impulsos, a disciplina procura
vencer as tentações e a consciência busca impor ordem ao tumulto das paixões.
Desde
a Antiguidade, filósofos e mestres espirituais procuraram responder à mesma
pergunta: como governar aquilo que deseja
governar-nos?
Talvez,
porém, exista uma resposta mais sutil.
Talvez
o verdadeiro controle dos nossos desejos não consista em combatê-los nem em
satisfazê-los, mas simplesmente em deixá-los em silêncio.
À
primeira vista, essa afirmação parece contraditória.
Afinal,
não seria o silêncio uma forma de repressão?
Não
seria apenas outra maneira de empurrar para as sombras aquilo que continua vivo
dentro de nós?
A
resposta depende do tipo de silêncio que estamos construindo.
Porque
existem silêncios que adoecem e silêncios que libertam.
Existem
silêncios que aprisionam a alma e silêncios que a tornam soberana.
Jacques
Lacan nos ensinou que o desejo é uma das estruturas fundamentais da existência
humana.
Não
desejamos apenas objetos.
Desejamos
reconhecimento.
Desejamos
pertencimento.
Desejamos
amor.
Desejamos
ocupar um lugar significativo no olhar do outro.
Por
isso, o desejo raramente se satisfaz por completo.
Quando
alcançamos aquilo que acreditávamos querer, frequentemente descobrimos que a
inquietação permanece.
O
objeto muda.
A
falta continua.
A
busca recomeça.
Nesse
sentido, o desejo possui uma natureza ruidosa.
Ele
fala alto.
Ele
exige.
Ele
promete.
Ele
cria a sensação permanente de que a felicidade está sempre logo adiante, no
próximo objetivo, na próxima conquista ou na próxima aprovação.
Vivemos,
talvez, na época mais barulhenta da história dos desejos.
As
redes sociais amplificam comparações.
A
publicidade fabrica carências.
Os
algoritmos aprendem aquilo que queremos antes mesmo que nós o saibamos.
O
mercado não vende apenas produtos.
Vende
identidades.
Vende
pertencimentos.
Vende
promessas.
Nesse
cenário, muitos dos nossos desejos já não são inteiramente nossos.
São
ecos.
São
vozes emprestadas.
São
expectativas que absorvemos sem perceber.
Talvez
seja exatamente por isso que o silêncio se torna tão importante.
Não o silêncio da negação.
Mas o silêncio da observação.
O
silêncio que interrompe a urgência.
O
silêncio que permite distinguir entre aquilo que realmente desejamos e aquilo
que fomos ensinados a desejar.
Os
estoicos compreendiam essa sabedoria.
Eles
sabiam que entre o impulso e a ação existe um espaço.
E
que nesse espaço nasce a liberdade.
Quando
um desejo surge e imediatamente o obedecemos, não estamos escolhendo.
Estamos
reagindo.
Mas
quando o observamos em silêncio, algo extraordinário acontece.
Ele
perde parte de seu poder.
Aquilo
que parecia uma ordem revela-se apenas uma sugestão.
Aquilo
que parecia inevitável torna-se opcional.
O
silêncio, nesse caso, não destrói o desejo.
Apenas
o devolve ao seu tamanho real.
Contudo,
existe uma armadilha.
Nem
todo silêncio é libertador.
A
psicanálise nos alerta para isso.
Freud
mostrou que aquilo que é reprimido não desaparece.
Retorna.
Às
vezes como sintoma.
Às
vezes como ansiedade.
Às
vezes como angústia sem nome.
Às
vezes como explosões emocionais que parecem surgir do nada.
O
desejo que é amordaçado continua falando.
Apenas
muda de linguagem.
O
corpo passa a dizer aquilo que a consciência se recusa a ouvir.
Por
isso, silenciar um desejo não significa fingir que ele não existe.
Não
significa negar a sua presença.
Não
significa construir uma prisão interior.
O
silêncio da repressão é um silêncio autoritário.
Ele
diz:
“Não
sinta.”
“Não
queira.”
“Não
sonhe.”
Mas
o silêncio da contemplação é diferente.
Ele
olha para o desejo com honestidade.
Reconhece
sua existência.
Escuta
sua mensagem.
E
então responde:
“Eu vejo você, mas você não
decidirá sozinho os rumos da minha vida.”
Essa
é uma diferença decisiva.
Num
caso, o desejo é inimigo.
No
outro, é interlocutor.
Num
caso, ele é expulso.
No
outro, é compreendido.
Kant
talvez chamasse isso de autonomia.
A
capacidade de agir não apenas segundo aquilo que queremos, mas segundo aquilo
que reconhecemos como bom, justo e verdadeiro.
A
maturidade humana não consiste em eliminar os desejos.
Sem
eles não haveria amor, criatividade, curiosidade ou crescimento.
A
maturidade consiste em impedir que cada desejo se transforme em soberano.
Nem
toda vontade merece um trono.
Nem
todo impulso merece obediência.
Nem
toda falta precisa ser preenchida.
Talvez
a liberdade não esteja em satisfazer todos os desejos.
Nem
em sufocá-los.
Talvez
esteja em contemplá-los até que o ruído cesse.
Até
que a urgência desapareça.
Até
que possamos ouvir algo mais profundo do que eles.
Porque,
quando o desejo finalmente se aquieta, a consciência consegue falar.
E
talvez seja justamente nesse instante de serenidade que descobrimos quem
realmente somos.
O
verdadeiro controle dos desejos não nasce da força.
Nasce
da lucidez.
Não
nasce da repressão.
Nasce
da compreensão.
E
talvez o mais elevado exercício de liberdade seja este:
Permitir
que o desejo fale sem permitir que ele grite.
Escutá-lo
sem servi-lo.
Reconhecê-lo
sem se tornar seu escravo.
Pois
há desejos que pedem satisfação.
Mas
há outros que pedem apenas silêncio para revelar o que realmente escondem.
E,
muitas vezes, é nesse silêncio que a alma encontra sua voz mais autêntica.
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