Jesus Foi Enviado Para a Terra Com Qual Objetivo?

O Reino que Nasce Dentro

Por Hiran de Melo

Existe uma pergunta que atravessa os séculos e continua ecoando no coração de milhões de pessoas:

Por que Jesus veio?

A resposta parece simples para muitos. Outros dirão que ele veio para morrer pelos pecados da humanidade. Alguns afirmarão que veio fundar uma nova religião. Há ainda aqueles que acreditam que sua missão era restaurar Israel como potência política e religiosa.

Mas quando observamos atentamente suas palavras, seus gestos e seus confrontos, percebemos algo surpreendente:

Jesus não dedicou sua vida à construção de um império.

Não organizou exércitos.

Não ocupou tronos.

Não escreveu leis civis.

Não disputou eleições.

Não tentou restaurar o reino de Davi.

Ao contrário.

Tudo aquilo que os homens esperavam de um Messias, ele parecia desconstruir.

Enquanto muitos aguardavam um libertador político, Jesus falava de sementes.

Enquanto esperavam um guerreiro, ele falava de crianças.

Enquanto desejavam a derrota de Roma, ele falava do amor aos inimigos.

Enquanto sonhavam com um reino externo, ele apontava para um reino interior.

Talvez seja justamente aí que esteja o centro de sua missão.

A Grande Ruptura

Jesus nasceu dentro da tradição judaica.

Foi circuncidado.

Frequentou sinagogas.

Conhecia profundamente a Lei de Moisés.

Mas, em determinado momento de sua trajetória, especialmente após seu encontro com João Batista nas águas do Jordão, algo se revela com intensidade.

Ele começa a ensinar com uma autoridade que não dependia das interpretações dos antigos mestres.

Repetidas vezes afirma:

"Ouvistes o que foi dito aos antigos... Eu, porém, vos digo."

Não era apenas uma correção moral.

Era uma mudança de eixo.

A espiritualidade deixava de girar em torno da obediência exterior para encontrar seu centro na transformação interior.

O coração tornava-se mais importante que o ritual.

A consciência mais importante que a regra.

O amor mais importante que a letra.

Não porque a Lei fosse má.

Mas porque ela havia se tornado um fim em si mesma.

Jesus parece convidar o ser humano a ultrapassar a dependência da norma para descobrir a fonte viva da presença divina.

O Reino Que Não Vem de Fora

Poucas frases são tão revolucionárias quanto esta:

"O Reino de Deus está dentro de vós."

Essa declaração desmonta séculos de expectativas políticas.

O Reino anunciado por Jesus não possuía fronteiras.

Não exigia bandeiras.

Não precisava de palácios.

Não dependia de sacerdotes autorizando seu acesso.

Era uma realidade espiritual.

Um estado de consciência.

Uma percepção da presença divina habitando o próprio ser.

Quando ensinou a oração do Pai Nosso, Jesus não apontou para um Deus distante escondido nas nuvens.

Apontou para uma relação.

Uma intimidade.

Uma filiação.

O Pai Nosso não começa com uma doutrina.

Começa com um vínculo.

"Pai nosso."

Não "Senhor dos exércitos".

Não "Imperador celeste".

Não "Juiz distante".

Pai.

A palavra mais próxima do afeto.

A mais próxima da origem.

A mais próxima da vida.

Os Que Tinham Ouvidos Para Ouvir

Jesus frequentemente repetia:

"Quem tem ouvidos para ouvir, ouça."

É uma frase curiosa.

Todos ao seu redor possuíam ouvidos.

Mas nem todos conseguiam ouvir.

Porque ele não falava apenas para a mente.

Falava para aquilo que existe além da mente.

Falava para a consciência desperta.

Falava para aqueles que conseguiam sentir o invisível.

Por isso seus discípulos nem sempre eram os mais instruídos.

Pescadores.

Mulheres marginalizadas.

Pobres.

Doentes.

Estrangeiros.

Pessoas que carregavam feridas, mas mantinham o coração aberto.

Entre elas estava Maria de Magdala, que parece ter compreendido algo que muitos religiosos jamais perceberam: que Deus não habita exclusivamente nos templos.

Habita também na alma humana.

O Escândalo da Presença Divina

Talvez a mensagem mais revolucionária de Jesus seja esta:

A distância entre Deus e o homem não é tão grande quanto imaginamos.

Os sistemas religiosos frequentemente construíram pontes, escadas, hierarquias e intermediários.

Jesus, porém, parece revelar algo diferente.

Que a centelha divina já está presente.

Que o Reino não precisa ser conquistado.

Precisa ser percebido.

Que a porta não está fechada.

Está esquecida.

Que Deus não está ausente.

Está silenciosamente aguardando ser reconhecido.

Não em montanhas sagradas.

Não em palácios.

Não em estruturas de poder.

Mas no interior de cada ser humano.

Conclusão

Então, afinal, por que Jesus foi enviado à Terra?

Talvez sua missão tenha sido despertar a humanidade para uma verdade esquecida.

Não para fundar um império.

Não para restaurar um reino político.

Não para fortalecer instituições.

Mas para revelar que o Reino de Deus é uma realidade viva que pulsa dentro de cada pessoa.

Seu chamado continua o mesmo de dois mil anos atrás.

Olhar para dentro.

Silenciar o ruído.

Reconhecer a presença.

Perceber que o Pai que procuramos nos céus também habita os recantos mais profundos da alma.

E talvez o verdadeiro milagre não seja caminhar sobre as águas.

Talvez seja atravessar o oceano de distrações, medos e certezas que nos separa de nós mesmos.

Porque foi justamente ali, no interior do ser, que Jesus insistiu em apontar.

E é ali que o Reino continua esperando ser encontrado.


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