Não Tem Mais Jeito
O Desejo, a Falta e o Adeus ao "E
Se"
Por Hiran de Melo
Existe uma frase que soa como uma sentença:
"Não tem mais jeito. Acabou. Boa sorte."
Ouvimos essas palavras e imediatamente algo dentro de
nós se rebela.
Porque o ser humano possui uma dificuldade profunda em
aceitar os finais.
Não apenas os finais dos relacionamentos.
Não apenas os finais das oportunidades.
Mas, sobretudo, o fim das fantasias.
E talvez seja justamente isso que mais nos faz sofrer.
A psicanálise de Jacques Lacan nos oferece uma chave
importante para compreender esse fenômeno.
Segundo Lacan, não vivemos apenas na realidade dos
fatos.
Vivemos também na realidade dos significados que
construímos sobre os fatos.
Quando algo termina, nem sempre sofremos pelo que
aconteceu.
Muitas vezes sofremos pelo que poderia ter acontecido.
Não é a perda da pessoa.
É a perda da história imaginária que escreveríamos com
ela.
Não é a perda do trabalho.
É a perda do futuro que sonhávamos naquele trabalho.
Não é a perda da oportunidade.
É a perda da versão ideal de nós mesmos que
acreditávamos encontrar ali.
Por isso o sofrimento frequentemente continua muito
depois do acontecimento.
Porque o que morreu na realidade continua vivo na
fantasia.
E a fantasia não aceita funerais.
Ela continua repetindo a mesma pergunta:
"E se?"
"E se eu tivesse esperado?"
"E se eu tivesse dito?"
"E se eu tivesse ficado?"
"E se eu tivesse partido antes?"
O "e se" é uma das formas mais sofisticadas
de resistência à realidade.
Ele cria uma espécie de universo paralelo onde ainda
existe retorno.
Onde ainda existe correção.
Onde ainda existe uma segunda chance para aquilo que
já terminou.
Mas a vida não acontece nesse universo.
A vida acontece aqui.
No único lugar onde não existe botão de desfazer.
Lacan dizia que o sujeito humano é constituído pela
falta.
Existe em nós uma incompletude estrutural.
Uma ausência que nenhuma pessoa, nenhuma conquista e
nenhuma experiência consegue preencher definitivamente.
Entretanto, passamos grande parte da existência
acreditando no contrário.
Acreditamos que existe uma escolha perfeita.
Uma relação perfeita.
Uma decisão perfeita.
Um caminho capaz de eliminar toda falta.
E é justamente aí que nasce uma das maiores ilusões da
alma.
Porque quando uma decisão produz dor, imaginamos que
outra decisão teria produzido felicidade absoluta.
Quando um amor termina, imaginamos que ele poderia ter
sido eterno.
Quando erramos, imaginamos que existia uma alternativa
sem sofrimento.
Mas essa alternativa quase nunca existiu.
Era apenas uma construção do desejo.
Era apenas a fantasia tentando escapar da condição
humana.
A maturidade começa quando percebemos algo
desconfortável:
Não escolhemos entre o perfeito e o imperfeito.
Escolhemos entre diferentes formas de imperfeição.
Toda escolha fecha portas.
Toda decisão produz perdas.
Toda travessia exige despedidas.
Não existe existência sem renúncia.
O sujeito neurótico, porém, luta contra essa verdade.
Ele permanece parado diante da encruzilhada da vida
tentando encontrar uma escolha sem perda.
E enquanto procura a decisão perfeita, perde a única
coisa que realmente possui:
o presente.
Por isso tantas pessoas permanecem anos habitando
corredores mentais.
Revisitando conversas.
Reescrevendo cenas.
Corrigindo diálogos imaginários.
Produzindo finais alternativos para histórias
encerradas.
Mas o passado não está esperando revisão.
O passado já foi incorporado à estrutura daquilo que
somos.
A questão nunca foi voltar.
A questão sempre foi integrar.
Existe uma diferença enorme entre culpa e
responsabilidade.
A culpa olha para trás.
A responsabilidade olha para frente.
A culpa pergunta:
"Como pude fazer isso?"
A responsabilidade pergunta:
"O que aprendi com isso?"
A culpa deseja punição.
A responsabilidade deseja transformação.
E talvez seja exatamente isso que significa atravessar
o irreversível.
Não é negar o erro.
Não é romantizar a perda.
Não é fingir que nada aconteceu.
É reconhecer que aconteceu.
É olhar para a própria história sem tentar apagá-la.
É abandonar a fantasia de que existe uma máquina capaz
de devolver os dias perdidos.
Porque não existe.
O tempo não negocia.
O desejo negocia.
A fantasia negocia.
A ansiedade negocia.
Mas a realidade permanece silenciosamente firme.
E, paradoxalmente, é nesse encontro com a realidade
que nasce a liberdade.
Quando deixamos morrer os infinitos "e se",
algo começa a respirar dentro de nós.
A energia que sustentava mundos imaginários retorna.
Retorna para o agora.
Retorna para aquilo que ainda pode florescer.
Retorna para a vida.
Talvez seja isso que Lacan chamava de atravessar a
fantasia.
Não destruir os sonhos.
Mas deixar de viver prisioneiro deles.
Aceitar que a falta continuará existindo.
Aceitar que nem tudo será resolvido.
Aceitar que algumas perguntas nunca terão resposta.
E, ainda assim, continuar caminhando.
Porque existe uma sabedoria silenciosa escondida nas
coisas que não têm mais jeito.
Elas nos obrigam a abandonar a ilusão de controle.
Elas nos obrigam a crescer.
Elas nos obrigam a encontrar um lugar onde o passado
já não precisa ser corrigido para que o futuro possa existir.
No fim, a cura talvez não seja recuperar aquilo que
foi perdido.
A cura talvez seja descobrir que a vida continua
possível mesmo depois da perda.
E quando finalmente compreendemos isso, a frase que
antes parecia uma condenação revela um significado inesperado.
"Não tem mais jeito."
Sim.
Não tem.
E exatamente por isso existe apenas um caminho.
Seguir.
Não como quem esquece.
Mas como quem integra.
Não como quem apaga.
Mas como quem compreende.
Não como quem vence o passado.
Mas como quem aprende a caminhar carregando, com
dignidade e verdade, a própria história.
Assista
https://youtube.com/shorts/5EKcHKWrqf4?si=xKcsMzPu2IA2VMNL
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