O
Caminho do Nazareno Modificado pela Ideologia Imperialista
O
conflito dos propósitos
Por
Hiran de Melo
O
caminho do Nazareno foi marcado pela compaixão, pelo cuidado e pela mesa
compartilhada.
Mas,
ao ser apropriado pelos impérios, transformou-se em bandeira de poder. O Cristo
glorificado eclipsou o Jesus histórico, e a cruz passou a viver um conflito:
símbolo de amor sacrificial de um lado, estandarte de conquistas e guerras do
outro.
O império busca domínio,
fronteiras e vencedores.
Jesus busca humanidade, encontros e feridos.
O império pergunta quem ameaça o poder.
Jesus pergunta quem está sofrendo.
Essa
tensão atravessa séculos: interesses políticos revestidos de linguagem sagrada,
narrativas que legitimam conquistas em nome de Deus. Mas o Nazareno escapa
sempre das tentativas de aprisioná-lo — não cabe em ideologias, não cabe em
nacionalismos, não cabe em projetos de dominação.
O
desafio do nosso tempo não é defender uma civilização cristã, mas redescobrir
o caminho: o Reino que se revela em um copo de água ao sedento, em um
pedaço de pão repartido, em um abraço ao estrangeiro, em um gesto de
misericórdia.
Enquanto
o império continuar perguntando quem merece governar, o Nazareno continuará
perguntando quem precisa de amor. E a humanidade terá que escolher entre seguir
o poder que usa Deus ou o Deus que renunciou ao poder.
Versão aprofundada
O
Caminho do Nazareno Modificado pela Ideologia Imperialista
O
conflito dos propósitos
Por
Hiran de Melo
Existe uma pergunta que
atravessa os séculos como uma espada silenciosa:
O que aconteceu com o
caminho do Nazareno?
Como
o homem que caminhava entre pescadores, viúvas, estrangeiros, leprosos e
excluídos tornou-se o símbolo estampado nas bandeiras dos impérios?
Como o crucificado foi
transformado em conquistador?
Como
aquele que morreu vítima do poder passou a ser utilizado para justificar o
próprio poder que o matou?
Talvez esta seja uma das
maiores ironias da história humana.
Jesus de Nazaré não
fundou exércitos.
Não organizou campanhas
militares.
Não acumulou riquezas.
Não disputou eleições.
Não escreveu leis para
controlar multidões.
Seu reino não possuía
fronteiras, moedas ou soldados.
Seu caminho era outro.
Era o caminho da
compaixão.
Era o caminho do cuidado.
Era o caminho da mesa
compartilhada.
Era o caminho do abraço
aos que a religião oficial considerava indignos.
Mas
os impérios possuem uma dificuldade quase incurável: eles não conseguem
compreender a força da fragilidade.
O império entende a
espada.
Entende a hierarquia.
Entende a obediência.
Entende o medo.
Mas não compreende o amor
como força transformadora.
Por
isso, quando o cristianismo se tornou religião imperial, algo profundo começou
a mudar.
O
Cristo ressuscitado passou gradualmente a ocupar mais espaço que o Jesus
histórico.
O Senhor glorificado
eclipsou o carpinteiro da Galileia.
O
Pantocrator — o soberano do universo, o governante absoluto — tornou-se mais
útil para os projetos de dominação do que o homem que lavava os pés dos
discípulos.
A lógica era simples.
Um império não necessita
de um Deus crucificado.
Necessita de um Deus que
legitime sua autoridade.
Necessita de um Deus que
abençoe suas fronteiras.
Necessita de um Deus que
caminhe ao lado dos generais.
Necessita
de um Deus que transforme interesses geopolíticos em missões sagradas.
Desde então, a cruz
passou a viver um estranho conflito.
De um lado, ela
continuava sendo o símbolo do amor sacrificial.
Do outro, tornava-se
estandarte de conquistas, colonizações e guerras.
O instrumento da execução
passou a ser usado para justificar novos executores.
E a história repetiu-se
inúmeras vezes.
Mudaram-se as bandeiras.
Mudaram-se os idiomas.
Mudaram-se os
continentes.
Mas a lógica permaneceu.
Primeiro vem o interesse.
Depois vem a
justificativa religiosa.
Primeiro vem a disputa
pelo território.
Depois vem a narrativa da
vontade divina.
Primeiro vem o desejo de
dominar.
Depois vem a bênção dos
sacerdotes.
Porque
é mais fácil convencer alguém a morrer por Deus do que por petróleo.
É
mais fácil mobilizar multidões em defesa da fé do que em defesa dos lucros de
uma corporação.
A linguagem religiosa
alcança regiões profundas da alma humana.
Ela toca os medos.
Toca as esperanças.
Toca os símbolos que
habitam o inconsciente coletivo.
Por isso ela pode
libertar.
Mas também pode
aprisionar.
Pode curar.
Mas também pode
manipular.
Pode aproximar o ser
humano de Deus.
Mas também pode afastá-lo
de sua própria consciência.
E aqui surge o grande
conflito dos propósitos.
Existe o propósito do
império.
E existe o propósito do
Nazareno.
O império pergunta:
— Quem ameaça o nosso
domínio?
Jesus pergunta:
— Quem está sofrendo?
O império pergunta:
— Como manter o controle?
Jesus pergunta:
— Quem precisa ser
acolhido?
O império pergunta:
— Quem devemos combater?
Jesus pergunta:
— Quem foi deixado à
margem?
O império busca poder.
Jesus busca humanidade.
O império constrói muros.
Jesus constrói mesas.
O império cria inimigos.
Jesus cria encontros.
O império necessita de
vencedores.
Jesus procura os feridos.
Por
isso o Evangelho autêntico sempre causa desconforto aos sistemas de dominação.
Porque Jesus não pode ser
facilmente transformado em bandeira ideológica.
Quando tentam
aprisioná-lo à direita, ele aparece entre os pobres.
Quando
tentam aprisioná-lo à esquerda, ele aparece falando de transcendência.
Quando tentam
transformá-lo em nacionalista, ele acolhe estrangeiros.
Quando tentam
transformá-lo em juiz, ele perdoa.
Quando
tentam transformá-lo em guerreiro, ele cura a orelha do soldado inimigo.
O Nazareno escapa.
Sempre escapa.
Ele não cabe nas
estruturas que tentam domesticá-lo.
Talvez
seja por isso que tantos jovens estejam abandonando instituições religiosas,
mas não necessariamente abandonando a busca espiritual.
Eles percebem a distância
entre o discurso e a prática.
Entre o altar e a rua.
Entre a pregação e a
compaixão.
Entre
o Cristo utilizado para conquistar poder e o Jesus que renunciou ao poder.
Não estão rejeitando
Deus.
Muitas
vezes estão rejeitando a caricatura de Deus construída pelos interesses
humanos.
E talvez este seja o
grande desafio do nosso tempo.
Não defender uma
civilização cristã.
Não defender uma
hegemonia religiosa.
Não defender um projeto
político revestido de linguagem sagrada.
Mas redescobrir o
caminho.
Voltar ao caminho.
O
caminho daquele que afirmou que o Reino de Deus podia ser encontrado em um copo
de água oferecido ao sedento.
Em um pedaço de pão
repartido com quem tem fome.
Em um abraço dado ao
estrangeiro.
Em uma visita ao enfermo.
Em um gesto de
misericórdia.
Porque o império continua
perguntando quem merece governar o mundo.
Mas o Nazareno continua
perguntando quem precisa de amor.
E
enquanto essas duas perguntas permanecerem em conflito, a humanidade continuará
tendo que escolher entre seguir o poder que usa Deus ou seguir o Deus que
renunciou ao poder.
São caminhos parecidos
apenas à distância.
Mas conduzem a destinos completamente diferentes.
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