O Pai Nosso dos Céus e o Pai Todo-Poderoso dos Impérios
Por Hiran de Melo
Existe
uma diferença sutil, mas profunda, entre o Pai que Jesus chamava de "Nosso
Pai" e o Deus que, séculos depois, muitos passaram a apresentar como o
Senhor absoluto dos impérios religiosos.
Talvez
essa seja uma das maiores transformações ocorridas na história da
espiritualidade.
O
Nazareno ensinava:
"Pai
nosso que estás nos céus..."
Não
dizia:
"Meu
Pai."
Nem
dizia:
"Pai
dos sacerdotes."
Nem
dizia:
"Pai
dos escolhidos."
Nem
dizia:
"Pai
do império."
Dizia:
"Pai
nosso."
Uma
expressão simples.
Mas
revolucionária.
Porque
destrói imediatamente toda hierarquia espiritual baseada na exclusividade.
Se
Deus é nosso Pai, então somos irmãos.
Se
somos irmãos, ninguém é proprietário de Deus.
Se
ninguém é proprietário de Deus, nenhuma instituição pode reivindicar monopólio
sobre o sagrado.
Essa
era uma ideia perigosa.
Perigosa
ontem.
Perigosa
hoje.
Perigosa
sempre.
O Pai que habita os céus
Quando
o Nazareno falava dos céus, dificilmente estava descrevendo um endereço
cósmico.
Na
tradição hebraica, os céus eram frequentemente uma metáfora para a dimensão
divina da existência.
O
Reino dos Céus que Jesus anunciava não era um território geográfico.
Era
uma consciência.
Um
estado de ser.
Uma
realidade que podia nascer dentro do coração humano.
Por
isso ele dizia:
"O
Reino de Deus está dentro de vós."
O
Pai dos céus não era um monarca distante observando o mundo do alto.
Era
a Fonte da Vida presente em todas as coisas.
Próxima.
Íntima.
Acessível.
O
Deus que escuta uma criança.
O
Deus que vê o invisível.
O
Deus que faz nascer o sol sobre justos e injustos.
O
Pai do Nazareno não era o dono do universo.
Era
o sopro que sustenta o universo.
O Deus do império
Séculos
depois, a fé que nasceu nas estradas poeirentas da Galileia encontrou os
palácios do poder.
E
quando uma mensagem atravessa os corredores dos impérios, ela raramente
permanece intacta.
O
Cristo dos marginalizados tornou-se o Cristo das catedrais.
O
Reino interior tornou-se estrutura.
A
fraternidade tornou-se hierarquia.
O
caminho tornou-se instituição.
E
o Pai passou a ser descrito cada vez mais como um soberano absoluto.
Um
imperador celestial refletindo os próprios modelos políticos da época.
O
Deus que antes era Pai passou a ser frequentemente apresentado como Rei.
Juiz.
Governante.
Legislador
supremo.
Senhor
dos exércitos.
Não
que essas imagens fossem inexistentes nas Escrituras.
Mas
ganharam centralidade.
Enquanto
a intimidade foi sendo gradualmente substituída pela obediência.
O
amor pelo temor.
A
consciência pela submissão.
O Pai do Nazareno e o Deus do controle
O
Pai que Jesus revela convida.
O
Deus institucional muitas vezes ordena.
O
Pai do Nazareno abraça o filho pródigo antes de qualquer arrependimento formal.
O
Deus dos sistemas frequentemente exige condições.
O
Pai do Nazareno senta-se à mesa com pecadores.
O
Deus institucional frequentemente separa puros e impuros.
O
Pai do Nazareno procura a ovelha perdida.
O
Deus do poder preocupa-se primeiro com o rebanho obediente.
Não
se trata de afirmar que toda instituição seja má.
Nem
de negar a importância histórica das tradições religiosas.
Trata-se
apenas de perceber que existe uma tensão permanente entre experiência
espiritual e estrutura religiosa.
Entre
vida e sistema.
Entre
fonte e recipiente.
O escândalo do "Nosso"
Talvez
a palavra mais revolucionária da oração não seja "Pai".
Talvez
seja "Nosso".
Porque
o "nosso" dissolve fronteiras.
O
"nosso" inclui o estrangeiro.
O
inimigo.
O
diferente.
O
herege.
O
pecador.
O
rico.
O
pobre.
O
santo.
O
perdido.
O
"nosso" impede que Deus seja capturado por qualquer bandeira.
Por
qualquer religião.
Por
qualquer ideologia.
Por
qualquer império.
Quando
Jesus diz "Pai Nosso", ele devolve Deus à humanidade.
Quando
os sistemas dizem "Nosso Deus", frequentemente tentam devolver a
humanidade aos sistemas.
A
diferença parece pequena.
Mas
muda tudo.
O Reino que nasce dentro
Talvez
o maior desafio contemporâneo não seja escolher entre religião e irreligião.
Talvez
seja reencontrar o Pai que Jesus chamava de Pai.
Não
o soberano distante que governa por decretos.
Mas
a Presença que habita o mais profundo da consciência.
O
Pai que não exige passaporte espiritual.
Que
não pertence a nenhuma fronteira.
Que
não pode ser aprisionado em dogmas.
Que
não se ofende com perguntas.
Que
não teme a liberdade.
O
Pai que continua esperando silenciosamente atrás das construções humanas.
O
Pai que permanece nos céus porque os céus, para o Nazareno, nunca foram um
lugar acima das nuvens.
Eram
a dimensão mais elevada do próprio ser.
Talvez
por isso a oração comece com um Pai.
E
não com um Rei.
Porque
antes de qualquer teologia, antes de qualquer império e antes de qualquer
instituição, existe apenas a eterna possibilidade de reconhecer que somos
filhos da mesma Fonte e peregrinos do mesmo Mistério.
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