Seja o que você é

Por Hiran de Melo

Há uma das prisões mais silenciosas da existência humana que não possui grades, muros ou cadeados. Ela é construída por frases repetidas desde a infância:

"Isso não é para você."

"Não sonhe tão alto."

"Gente como nós não chega lá."

"Contente-se com o que tem."

Sem perceber, crescemos acreditando que essas vozes descrevem a realidade, quando, na verdade, descrevem apenas os limites daqueles que as pronunciaram.

É curioso como passamos anos tentando conquistar uma vida maior carregando uma identidade menor.

Imagine alguém sentado diante de um restaurante. O cardápio oferece centenas de possibilidades, mas a pessoa só consegue enxergar aquilo que sempre lhe disseram ser permitido. Ela pede batatas fritas porque acredita que massa é um luxo reservado aos outros.

Não é a cozinha que limita seu pedido.

É sua crença.

Assim também acontece conosco.

A vida nos apresenta infinitas possibilidades de crescimento, amor, conhecimento, espiritualidade, prosperidade e serviço. Entretanto, muitos caminham pela existência escolhendo sempre as mesmas experiências, porque acreditam que nasceram destinados apenas a elas.

Vivem um cardápio infinito com uma mentalidade de escassez.

Não porque Deus lhes negou abundância.

Mas porque nunca aprenderam a desejá-la sem culpa.

Há uma profunda diferença entre humildade e diminuição.

A humildade reconhece que tudo é dom.

A diminuição acredita que não merece os dons recebidos.

A primeira aproxima o homem de Deus.

A segunda o afasta de sua própria vocação.

Não fomos criados para caber nas expectativas alheias, mas para florescer segundo a semente que o Criador depositou em nós.

Toda árvore carrega, desde a origem, o projeto de si mesma.

Uma oliveira jamais tentará produzir mangas.

Um cedro não inveja a delicadeza das flores.

Cada ser realiza sua plenitude justamente quando aceita aquilo que verdadeiramente é.

Somente o homem insiste em querer viver a identidade de outro.

Existe, porém, um momento decisivo.

É quando a alma começa a desejar algo diferente.

Nesse instante, surgem as velhas resistências.

A pessoa decide mudar de profissão.

Aparece o medo.

Decide amar novamente.

Surge a lembrança da última decepção.

Resolve estudar.

Aparece a voz dizendo que já passou da idade.

Escolhe perdoar.

Ressurge o orgulho.

É como se a própria vida perguntasse:

"Você realmente quer isso ou voltará para o velho conforto?"

Esses momentos não são castigos.

São revelações.

Eles mostram qual voz governa nossa existência.

A da liberdade ou a do medo.

Muitos imaginam que a transformação acontece quando o mundo muda.

Na verdade, ela começa quando muda a imagem que fazemos de nós mesmos.

Enquanto alguém continua acreditando que nasceu para migalhas, qualquer abundância parecerá exagerada.

Enquanto acredita que não merece ser amado, desconfiará até do amor verdadeiro.

Enquanto pensa que não possui valor, interpretará cada oportunidade como um erro do destino.

A realidade exterior quase sempre encontra um jeito de confirmar aquilo que carregamos no interior.

Por isso, antes de mudar a vida, precisamos permitir que Deus transforme nosso olhar.

Não para alimentar orgulho.

Mas para restaurar a verdade.

Jesus nunca olhou para as pessoas apenas como elas eram.

Sempre enxergou aquilo que poderiam tornar-se.

Ao pescador impulsivo chamou de pedra.

Ao cobrador de impostos chamou de discípulo.

Ao perseguidor chamou de apóstolo.

Enquanto todos viam o passado, Cristo contemplava a vocação.

Talvez o maior pecado contra nós mesmos seja continuar acreditando nas versões antigas da nossa história quando Deus já escreveu um novo capítulo.

Ser quem se é não significa satisfazer todos os impulsos.

Também não significa fazer tudo o que se deseja.

Significa descobrir a própria essência e viver em coerência com ela.

Há quem passe a vida inteira representando personagens para ser aceito.

Troca autenticidade por aprovação.

Silencia a própria voz para receber aplausos.

Mas toda máscara cobra um preço.

Ela pode conquistar admiração.

Jamais concederá paz.

Porque ninguém descansa vivendo uma identidade emprestada.

Existe uma liberdade extraordinária quando deixamos de perguntar:

"O que esperam de mim?"

E começamos a perguntar:

"Para que fui criado?"

Essa pergunta muda completamente o rumo da existência.

Ela desloca o centro da vida da comparação para a missão.

Do desempenho para o propósito.

Da aparência para a verdade.

Quem descobre sua vocação deixa de competir.

Passa simplesmente a florescer.

Talvez seja essa a grande lição escondida no simples gesto de pedir um prato diferente.

A vida responde menos às palavras que pronunciamos e mais à identidade que assumimos.

Quem acredita que nasceu apenas para sobreviver continuará negociando seus sonhos.

Quem compreende que é filho do Amor começa a caminhar com outra firmeza.

Não por arrogância.

Mas porque finalmente deixou de pedir permissão para existir.

No fim das contas, Deus não nos perguntará por que não fomos semelhantes a outra pessoa.

Perguntará apenas o que fizemos com a pessoa que Ele sonhou quando nos chamou à vida.

E talvez a maior conversão de todas seja esta:

Parar de tentar ser aquilo que os medos construíram.

E ter a coragem de ser aquilo que Deus sempre soube que somos.

Porque a paz não nasce quando nos tornamos diferentes.

Ela nasce quando finalmente temos coragem de ser quem verdadeiramente somos.

Assista: https://www.instagram.com/reel/DWkJ1LIkULV/?igsh=d21sc2p0eXFiYjln

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