A Consciência Cósmica
Quando
Descobrimos que Não Estamos em Deus, Mas Somos Nele
Por Hiran de Melo
Há
um instante na caminhada humana em que a pergunta deixa de ser "onde está
Deus?" e passa a ser "como deixei de percebê-Lo?".
Durante
muito tempo imaginamos Deus como um objeto distante, uma presença localizada em
algum lugar do universo, um soberano assentado acima das estrelas observando
silenciosamente a criação. Essa imagem conforta a razão, porque a razão
compreende aquilo que pode separar. Mas a experiência espiritual dissolve as
distâncias. Ela não encontra um Deus diante de si; descobre uma realidade na
qual tudo já está mergulhado.
Talvez
o maior equívoco da linguagem seja dizer que Deus existe.
Existir
é ocupar um espaço, possuir limites, ser percebido pelos sentidos, ser
analisado pelas categorias do pensamento. Tudo aquilo que existe participa do
tempo, nasce, transforma-se e, de algum modo, está sujeito às condições da
própria existência.
Mas
Deus não participa dessas categorias.
Ele
não existe como existem as montanhas, as galáxias ou os seres humanos. Deus é o
próprio fundamento pelo qual montanhas, galáxias e seres humanos podem existir.
Não
é um ser entre outros seres.
É
o próprio Ser.
Quando
Moisés pergunta pelo nome daquele que o envia, a resposta não aponta para uma
definição. Ela rompe todas as definições: "Eu Sou". Não um conceito.
Não uma descrição. Não uma identidade limitada. Apenas o Ser absoluto, do qual
todo o restante recebe continuamente a possibilidade de ser.
Essa
percepção modifica completamente a maneira como olhamos para nós mesmos.
Não
somos criaturas abandonadas em um universo indiferente tentando alcançar Deus
através do esforço religioso. Somos existências sustentadas, instante após
instante, por uma presença que nunca deixou de nos habitar.
O
antigo livro de Jó expressa essa intuição com uma beleza impressionante: se o
Espírito fosse retirado da criação, toda a vida retornaria ao pó. Não se trata
apenas de um ato inicial da criação. Trata-se de uma criação permanente. A cada
respiração, a existência continua sendo pronunciada pelo Amor que a sustenta.
A
vida não é um acontecimento ocorrido no passado.
É
um verbo que Deus continua conjugando.
A
consciência cósmica nasce exatamente quando percebemos isso.
Ela
não é uma fuga da realidade, nem uma experiência mística reservada a poucos
iluminados. É o despertar para a unidade profunda da existência. É compreender
que nenhuma árvore vive isoladamente da floresta, que nenhum rio existe
separado do oceano e que nenhum ser humano é verdadeiramente separado da Fonte
que continuamente o sustenta.
Nossa
maior ilusão talvez seja acreditar na separação.
Separados
da natureza, exploramos.
Separados
dos outros, competimos.
Separados
de nós mesmos, adoecemos.
Separados
de Deus, construímos religiões que muitas vezes substituem a experiência pelo
medo.
Mas
a realidade continua silenciosamente afirmando outra verdade.
Tudo
permanece unido.
Cada
estrela, cada folha, cada átomo e cada consciência participam do mesmo sopro
invisível que atravessa o universo inteiro.
Por
isso Jesus não veio apenas ensinar uma moral mais elevada.
Veio
revelar uma identidade esquecida.
Nele,
Deus deixa de ser apenas objeto de adoração para tornar-se referência de
transformação. Não basta saber quem Deus é. É preciso descobrir quem somos
quando vivemos conscientes dessa presença.
Cristo
não apenas revela Deus ao homem.
Revela
o homem ao próprio homem.
A
verdadeira espiritualidade não consiste em escapar do mundo, mas em habitá-lo
com outra consciência. O trabalho torna-se oração. O cuidado torna-se liturgia.
A justiça torna-se expressão da própria natureza divina. Amar deixa de ser um
mandamento externo para tornar-se a manifestação mais autêntica daquilo que
somos.
Quando
essa consciência desperta, o universo inteiro muda de significado.
As
pessoas deixam de ser obstáculos e tornam-se companheiras de jornada.
A
natureza deixa de ser recurso e torna-se comunhão.
O
tempo deixa de ser inimigo e transforma-se em oportunidade de florescimento.
A
morte perde sua aparência de ruptura absoluta, porque aquilo que
verdadeiramente participa do Ser jamais pode ser reduzido ao nada.
Talvez
seja essa a maior revolução espiritual: compreender que Deus não precisa ser
encontrado como quem encontra um objeto perdido.
Ele
apenas precisa ser reconhecido.
Pois
nunca estivemos fora d'Ele.
Vivemos,
respiramos e existimos porque somos continuamente sustentados pelo Mistério que
não pode ser aprisionado por conceitos, mas pode ser experimentado pelo coração
desperto.
A
consciência cósmica é exatamente esse despertar.
O
momento em que deixamos de perguntar onde Deus está e começamos, finalmente, a
perceber que toda a criação, desde o primeiro sopro até a última estrela,
continua acontecendo dentro do eterno "Eu Sou".
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