Quem somos nós
O Relógio e a Advertência do Irmão
Por Hiran de Melo
Há
uma luz específica que só existe nas telas de celular às vésperas de um
encontro importante. Não é a luz do dia, nem a do sono. É a luz de quem, mesmo aposentado,
ainda se organiza para servir.
Foi
nessa luz que os dois se encontraram.
Não
presencialmente — o corpo já não corre com a pressa de antes —, mas na tela
pequena onde cabem, ainda assim, décadas de irmandade. Dois homens que
atravessaram o tempo lado a lado, um caminho de aventais e colunas, de
silêncios ensinados e palavras pesadas na medida certa. Dois velhos amigos
maçons, tratando, como tantas vezes trataram, do que parece pequeno: o horário
de uma reunião.
Mas
nada, entre eles, era pequeno de verdade.
Um
escrevia como quem prepara o terreno para uma cerimônia dupla — de um lado, a
justa homenagem a um irmão querido; do outro, a sessão magna, onde os mistérios
antigos se repetem como se fossem a primeira vez.
—
Quem irá lhe saudar é um irmão que muito lhe admira, Hermes.
A
frase chegou simples. Mas quem conhece a Ordem sabe que ali não havia apenas um
nome sendo anunciado — havia um destino sendo revelado, um encontro sendo
costurado antes mesmo de acontecer.
E
o homenageado respondeu como quem já não precisa se impor para ser ouvido.
—
A reunião não pode terminar de meia-noite, temos iniciação. Eu falarei muito
pouco. Gosto muito de Hermes. Faz jus ao nome.
Repetiu-se,
sem perceber, ou talvez percebendo bem demais.
—
A reunião não pode terminar de meia-noite, temos iniciação.
Duas
vezes a mesma frase. Não por esquecimento — os mais antigos que carregam grau
não esquecem o que é essencial. Repetiu porque algumas verdades só se firmam
quando ditas de novo, como quem bate o malhete uma segunda vez para que ninguém
duvide de que a sessão está, de fato, aberta.
Falarei
muito pouco, disse ele.
Como
se falar pouco fosse, também, uma forma de rito.
Do
outro lado da tela, o organizador não corrigiu, não insistiu, não impôs o
manual como quem impõe uma lei fria.
—
O manual ensina que termina à meia-noite. Mas sua advertência é justa, e sua
modéstia, como sempre, imensa — não cabe em nenhum tempo.
Ali
estava a diferença entre saber a regra e saber o que a regra serve.
O
manual mede o relógio. A modéstia de um idoso irmão não cabe em relógio nenhum.
E
então veio a virada — não de quem impõe solução, mas de quem escuta e,
escutando, descobre um caminho:
—
Na tentativa de atender ao seu pedido, poderemos terminar antes das vinte e
quatro horas do relógio. Talvez eu saiba como fazer isso. Basta eu mesmo ser
menos analítico e mais sintético.
Talvez.
A
palavra de sempre, a que abre a porta sem arrombá-la. Não "eu sei",
não "eu decido" — talvez. Como se, mesmo depois de tantos anos de
vida e de Ordem, ainda restasse a um homem maduro a elegância de duvidar de si
antes de afirmar.
E
a frase final, essa, já não falava mais só do horário da reunião.
—
Claro, coisa de quem se aproxima da maturidade, que revela que há mais
sabedoria em ouvir do que na urgência em anunciar o que se imagina saber.
Dois
velhos amigos e irmãos, uma tela, um relógio que ameaçava governar um mistério
maior do que ele.
E,
no fim, venceu não o ponteiro — venceu o silêncio disposto a ser breve para que
o essencial pudesse durar.
O Instante Que Não Cabe no Relógio
Sobre viver agora, sem se prender à hora
Por Hiran de Melo
Existe
uma pergunta que todo relógio finge responder e nunca responde de fato: que
horas são, realmente, para uma alma?
O
ponteiro sabe dizer meia-noite. Não sabe dizer quando um encontro entre dois
amigos termina de verdade — se é quando o último se despede, ou se é muito
antes, no instante em que um deles, calado, já disse tudo o que precisava.
Vivemos
cercados de relógios que só sabem contar. Nenhum deles sabe pesar.
O tempo do manual e o tempo da presença
Todo
ofício tem seu manual. Toda cerimônia, sua hora marcada. E é bom que seja assim
— sem regra, não há rito; sem rito, a experiência escorre pelos dedos como água
que ninguém colheu a tempo.
Mas
há um perigo antigo, quase tão antigo quanto o próprio relógio: o de confundir
a regra com o motivo da regra. De guardar a meia-noite como se ela fosse
sagrada, esquecendo que sagrado, ali, nunca foi o horário — era o que acontecia
dentro dele.
Dois
velhos amigos discutindo minutos de uma reunião parecem, à primeira vista,
tratar de logística. Não tratam. Tratam de saber o que, entre duas pessoas que
se respeitam, deve durar: o gesto, ou o cronômetro que o mede.
A urgência de anunciar e a coragem de ouvir
Há
uma frase que atravessa a vida de quem envelhece com lucidez: há mais sabedoria
em ouvir do que na urgência em anunciar o que se imagina saber.
Não
é frase de quem desistiu de falar. É frase de quem já falou o bastante para
saber o peso de cada palavra que ainda falta dizer.
O
jovem tem pressa de anunciar-se. Precisa provar que sabe, que existe, que
merece a cadeira em que se senta. O maduro, esse, descobriu algo mais perigoso
e mais bonito: que o silêncio, bem colocado, ensina mais do que o discurso mais
bem construído.
Talvez
seja por isso que envelhecer, quando feito com consciência, pareça uma
iniciação contínua — não a que se recebe uma vez, num templo, sob luzes e
juramentos, mas a que se recebe todos os dias, na vida comum, todas as vezes em
que a pessoa escolhe ouvir antes de falar.
Viver o instante não é viver sem regra — é não confundir a régua
com a vida
Há
quem pense que viver o instante é abandonar o manual, recusar o relógio,
dissolver-se numa espontaneidade sem forma. Não é isso. O instante verdadeiro
não nega o tempo — ele o atravessa sem se deixar governar por ele.
O
velho maçom da nossa cena não pediu para abolir a meia-noite. Pediu para que
ela não decidisse sozinha o valor do que ali seria vivido. E o amigo, ao
responder, não rasgou o manual — apenas encontrou, dentro da própria regra, o
espaço estreito onde cabe a alma.
É
assim, ainda hoje, com quem quer que viva com os pés no relógio e o coração
fora dele: o expediente tem hora. O compromisso tem hora. O luto, dizem, também
tem hora — embora ninguém consiga provar isso.
Mas
o instante em que alguém escolhe ser menos analítico e mais sintético, menos
apressado e mais presente — esse não está escrito em nenhum manual. Esse, cada humano
precisa descobrir sozinho, geralmente tarde, geralmente depois de já ter
perdido muitos relógios inteiros com pressa de coisa nenhuma.
A meia-noite que não é o fim
Talvez
a meia-noite não seja, nunca, o verdadeiro limite. Talvez seja apenas o nome
que damos ao momento em que teremos de escolher: continuar contando os minutos,
ou finalmente habitar o que eles continham.
Dois
velhos fraternos amigos, uma tela pequena, um relógio prestes a bater a última
hora do dia — e, no meio disso tudo, a decisão silenciosa de que o essencial
não se mede em ponteiros, mas em presença.
O
relógio marca a hora de terminar. Só o instante vivido decide se algo, de fato,
começou.
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