Espiritualidade e Existencialismo


A Porta Aberta Diante do Abismo

Sobre o medo, a fé, a liberdade de pensar e aquilo que fazemos quando o céu se cala

Por Hiran de Melo

Existe um momento na vida de todo ser humano em que a resposta recebida deixa de ser suficiente.

Não necessariamente porque seja falsa. Às vezes, apenas porque a pergunta cresceu.

Enquanto somos pequenos, aceitamos as palavras que nos oferecem. Elas chegam prontas, acompanhadas de gestos, símbolos, histórias e certezas. Dizem-nos de onde viemos, por que sofremos, para onde iremos. E talvez precisemos dessas respostas para atravessar os primeiros desertos da existência.

Mas chega o dia em que alguma coisa dentro de nós pergunta novamente.

E dessa vez a pergunta não cabe mais na resposta.

É nesse lugar estreito que começa o pensamento.

Não o pensamento que procura apenas confirmar aquilo em que já acreditamos, mas aquele que aceita permanecer algum tempo diante do desconhecido sem precisar preenchê-lo imediatamente.

Talvez seja essa a maior ameaça que uma ideia pode representar para qualquer poder que tenha transformado suas próprias respostas em autoridade: a pergunta.

Porque uma pergunta verdadeira não pede licença.

Ela atravessa muralhas.

Ao longo da história, muitas muralhas foram construídas para proteger certezas. Algumas foram feitas de pedra. Outras, de dogmas. Outras ainda, de medo. E quando uma ideia ameaçava penetrar nesses territórios protegidos, nem sempre surgia um argumento em resposta. Às vezes surgia a censura. Outras vezes, a fogueira.

Queimar um livro parece um gesto dirigido contra o papel.

Mas, no fundo, é um gesto de medo diante daquilo que o papel pode despertar.

Porque o fogo destrói páginas, mas não consegue destruir a pergunta que já nasceu em quem as leu.

O pensamento, quando realmente desperta, não volta facilmente para a cela de onde saiu.

Foi assim que muitos livros foram perseguidos: não porque fossem capazes de ferir fisicamente alguém, mas porque poderiam retirar das pessoas o medo de perguntar.

E talvez seja essa a diferença entre uma fé amadurecida e uma fé acuada.

A primeira suporta a pergunta.

A segunda precisa silenciá-la.

Uma crença que depende da proibição para permanecer de pé já não está apenas defendendo uma verdade. Está defendendo uma posição de poder.

Mas existe uma questão ainda mais profunda.

Por que o ser humano precisa tanto de respostas?

Talvez porque a existência seja difícil demais para ser suportada em estado bruto.

A doença chega sem pedir autorização.

A morte não negocia.

A fome não espera uma explicação metafísica.

A tempestade não pergunta em que acreditamos antes de destruir uma casa.

E diante daquilo que não conseguimos compreender ou controlar, inventamos sentidos.

Não necessariamente por fraude. Nem sempre por ignorância.

Às vezes, por necessidade.

Quando a medicina não consegue curar, a esperança procura outro caminho. Quando a ciência ainda não consegue explicar o trovão, o homem imagina uma vontade por trás dele. Quando a morte leva alguém que amamos, procuramos uma continuidade que devolva alguma forma de presença àquilo que desapareceu.

Talvez o ser humano não suporte facilmente o vazio.

E, quando não consegue encontrar uma resposta, constrói uma.

Pode chamá-la de Deus.

Pode chamá-la de destino.

Pode chamá-la de providência.

Pode até chamá-la de acaso.

Mas continuamos procurando uma palavra que nos permita permanecer de pé diante do abismo.

Há, porém, uma inversão perturbadora nessa percepção.

E se algumas das nossas imagens do divino não tiverem descido do céu, mas subido da terra?

E se algumas delas nasceram do medo?

Da doença?

Da fome?

Da solidão?

Da necessidade desesperada de acreditar que a dor possui algum significado?

Essa hipótese incomoda porque desloca Deus de seu lugar tradicional.

Em vez de causa, torna-se consequência.

Em vez de origem, torna-se resposta.

Em vez de princípio do mundo, torna-se uma tentativa humana de sobreviver ao mundo.

É uma ideia dura.

Mas talvez justamente por isso mereça ser examinada.

Não para destruir a fé de ninguém, mas para perguntar de que matéria é feita a nossa própria fé.

Porque também existe uma forma de religiosidade que transforma o sofrimento dos outros em instrumento de poder.

Promete recompensa futura, enquanto aceita a injustiça presente.

Pede resignação a quem nada possui, enquanto preserva privilégios daqueles que possuem quase tudo.

Oferece consolo, mas não necessariamente transformação.

E então a religião deixa de ser abrigo e transforma-se em muralha.

Uma muralha protege.

Mas também separa.

Existe, entretanto, outra possibilidade.

A de uma mesa.

Uma mesa simples, onde pessoas diferentes possam sentar-se sem precisar apresentar certificado de crença.

Onde alguém possa dizer “creio” e outro possa responder “não creio”, sem que um precise expulsar o outro da sala.

Onde a solidariedade não dependa de uma promessa de recompensa futura.

Onde ajudar alguém não seja uma negociação com o céu.

Talvez essa seja uma das experiências mais desconcertantes para quem acredita que a moral necessita obrigatoriamente de uma autoridade sobrenatural: descobrir que seres humanos podem cuidar uns dos outros simplesmente porque reconhecem no outro uma existência tão vulnerável quanto a sua.

Podemos repartir o pão sem perguntar em qual templo o outro entrou.

Podemos amparar alguém sem exigir uma profissão de fé.

Podemos oferecer companhia sem esperar recompensa.

E talvez exista nisso uma forma silenciosa de transcendência.

Não aquela que leva o homem para fora do mundo, mas aquela que o faz ultrapassar o limite estreito do próprio ego.

É possível que o verdadeiro teste daquilo em que acreditamos não esteja na força com que defendemos nossas convicções, mas na maneira como tratamos quem não as compartilha.

Porque é fácil ser fraterno entre iguais.

Difícil é permanecer humano diante da diferença.

A liberdade de pensamento não significa possuir respostas melhores.

Significa aceitar que algumas perguntas continuarão abertas.

Talvez seja esse o ponto em que a razão e a fé deixam de ser inimigas obrigatórias.

A razão pergunta:

“Como você sabe?”

A fé pergunta:

“E se houver algo além do que posso saber?”

E a existência, silenciosamente, talvez responda:

“Continue caminhando.”

Não precisamos transformar o desconhecido em inimigo.

Nem precisamos preencher cada silêncio com uma certeza.

Há uma dignidade particular em dizer:

“Eu não sei.”

Essa pequena frase pode ser uma das formas mais honestas de liberdade.

Porque quem admite não saber abre espaço para aprender.

Quem acredita saber tudo fecha a porta.

E talvez seja justamente aí que a velha imagem da muralha volte a nos visitar.

De um lado, a muralha que protege uma certeza tão frágil que precisa impedir o exame.

Do outro, a porta.

A porta não promete segurança.

Pelo contrário.

Ela deixa entrar o vento.

Deixa entrar a dúvida.

Deixa entrar a possibilidade de estarmos errados.

Mas deixa entrar também aquilo que não conhecíamos.

Talvez pensar seja isso: abrir a porta sem saber exatamente o que entrará.

Não significa abandonar a fé.

Nem abraçar a descrença.

Significa não entregar a ninguém o direito de pensar em nosso lugar.

Porque há uma diferença profunda entre receber uma resposta e possuir uma consciência.

A primeira pode ser herdada.

A segunda precisa ser construída.

E talvez o grande trabalho de uma vida não seja descobrir uma verdade definitiva, mas aprender a caminhar entre certezas provisórias sem transformar nenhuma delas em prisão.

Quando o céu parece silencioso, podemos sentir medo.

Podemos inventar uma voz.

Podemos procurar uma explicação.

Ou podemos permanecer algum tempo em silêncio.

Talvez descubramos então que o silêncio não é necessariamente ausência.

Às vezes, é apenas o espaço onde a pergunta finalmente consegue nascer.

E uma pergunta que nasce livre vale mais do que uma resposta imposta pelo medo.

Por isso, talvez a imagem que devêssemos guardar não seja a do livro queimando.

Mas a da porta aberta.

A porta que não promete que existe alguém do outro lado.

A porta que não garante consolo.

A porta que não elimina a dor.

Apenas nos permite atravessar.

E talvez seja isso que chamamos de liberdade:

não ter certeza de que o caminho terminará em algum lugar,

mas ainda assim possuir coragem suficiente para dar o próximo passo.

Com o céu aberto.

Com a dúvida ao lado.

E, sobretudo, sem permitir que ninguém feche a porta por nós.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog