Nem a Razão Explica, nem o Sentimento Basta
Sobre o lugar estreito onde o sentido da vida realmente nasce
Por Hiran de Melo
Um
velho médico entrou num consultório em Viena carregando dois anos de silêncio.
Não
procurava um remédio. Conhecia os remédios. Conhecia a anatomia da dor, seus
sintomas, seus nomes e, talvez, até os caminhos por onde ela costuma se
esconder. Procurava outra coisa: uma palavra que pudesse alcançar aquilo que
nenhum conhecimento conseguia tocar.
Sua
esposa havia morrido.
E
ele permanecera vivo.
Às
vezes, essa é a forma mais difícil de permanecer.
O
homem que o recebeu não lhe ofereceu uma explicação. Não tentou convencê-lo de
que a morte fazia parte da vida, nem lhe pediu que aceitasse o inevitável. Fez
apenas uma pergunta:
E
se tivesse sido você a morrer primeiro?
A
pergunta atravessou o consultório como uma pequena lâmina.
Por
um instante, o velho médico deixou de olhar apenas para a própria ausência.
Imaginou a mulher sobrevivendo a ele. Imaginou sua dor, sua solidão, o peso de
continuar respirando depois de perdê-lo.
Nada
havia mudado.
A
esposa continuava morta.
A
casa continuava vazia.
O
passado continuava irremediavelmente passado.
Mas
alguma coisa havia mudado dentro dele.
Talvez
o sentido da vida comece justamente assim: não quando a dor desaparece, mas
quando ela encontra para onde caminhar.
A razão diante do abismo
A
razão possui uma antiga tentação: acreditar que aquilo que compreendemos deixa
de nos ferir.
Nomeamos
as coisas para não sermos devorados por elas.
Explicamos
a morte. Classificamos o luto. Procuramos causas, mecanismos, etapas,
diagnósticos. Construímos mapas para atravessar territórios que, no fundo,
continuam desconhecidos.
E
isso é necessário.
A
razão é uma boa companheira de viagem.
Mas
não é a própria viagem.
Podemos
compreender perfeitamente uma tempestade e continuar molhados.
Podemos
conhecer a anatomia do coração e ainda assim não saber o que fazer quando ele
se parte.
Há
dores que não pedem explicação.
Pedem
passagem.
A
razão consegue dizer como alguma coisa aconteceu. Às vezes consegue até
dizer por que aconteceu. Mas existe uma pergunta que resiste à lógica:
O
que farei com aquilo que aconteceu comigo?
Talvez
seja justamente aí que o conhecimento termina e começa a responsabilidade de
existir.
Quando sentir também não basta
Mas
existe outro engano.
Depois
de descobrir os limites da razão, podemos imaginar que basta sentir.
Então
choramos.
Revivemos.
Recordamos.
Permitimos
que a tristeza ocupe todos os cômodos interiores.
E
esperamos que o tempo faça aquilo que nós não conseguimos fazer.
Mas
o tempo, sozinho, nem sempre transforma.
Às
vezes apenas envelhece a ferida.
O
sentimento é verdadeiro, mas verdade não significa direção.
Uma
dor pode ser absolutamente legítima e, ainda assim, permanecer prisioneira de
si mesma.
Sentir
profundamente não significa compreender o que fazer com aquilo que sentimos.
O
rio possui força.
Mas
não conhece a ponte.
Por
isso, também não basta sentir.
A
razão pode transformar a vida em um problema.
O
sentimento pode transformá-la em uma ferida.
E
talvez a existência humana peça algo que não pertence inteiramente a nenhum dos
dois.
O lugar estreito
Entre
o que compreendemos e aquilo que sentimos existe um pequeno território.
É
estreito.
Quase
invisível.
Ali
mora a escolha.
Não
escolhemos tudo aquilo que nos acontece. Não escolhemos a perda, o abandono, a
doença, a morte, a ausência ou determinadas marcas que a vida grava em nós.
Mas
existe um instante — às vezes breve, às vezes dolorosamente longo — em que
podemos perguntar:
O
que farei com isso que a vida fez de mim?
Essa
pergunta não elimina a dor.
Ela
muda a relação com a dor.
O
velho médico não recuperou a esposa.
Não
recebeu uma explicação capaz de desfazer a morte.
Não
saiu daquele consultório menos humano.
Saiu,
talvez, mais responsável por quilo que faria com a própria humanidade.
A
perda continuou sendo perda.
Mas
deixou de ser apenas um acontecimento que o destruía.
Transformou-se
em uma forma de permanecer fiel ao amor que havia existido.
E
existe uma diferença imensa entre sofrer por nada e sofrer por alguém.
No
primeiro caso, a dor parece apenas um peso.
No
segundo, pode tornar-se uma espécie de testemunho.
Não é escolher a dor
Isso
não significa romantizar o sofrimento.
Nenhuma
perda precisa ser chamada de necessária para tornar-se suportável. Nenhuma
tragédia se torna boa apenas porque conseguimos retirar dela uma lição.
A
vida não nos deve uma explicação.
E
nem toda ferida possui uma mensagem escondida.
Às
vezes, simplesmente dói.
O
sentido não está necessariamente naquilo que aconteceu.
Pode
estar naquilo que fazemos depois que aconteceu.
Essa
talvez seja uma das liberdades mais difíceis do ser humano: não escolher o
passado, mas escolher a posição que assumiremos diante dele.
Não
podemos devolver os mortos.
Mas
podemos decidir o que faremos com o amor que permaneceu.
Não
podemos apagar determinadas cicatrizes.
Mas
podemos impedir que elas determinem sozinhas o caminho que ainda resta.
Não
podemos mudar a pergunta que a vida nos fez.
Podemos,
entretanto, escolher a resposta.
A terceira margem
Talvez
razão e sentimento não sejam adversários.
Talvez
ambos sejam instrumentos incompletos esperando uma direção.
A
razão pergunta:
“O
que aconteceu?”
O
sentimento responde:
“Isso
me atravessou.”
Mas
existe uma terceira pergunta, mais silenciosa:
“E
agora, o que farei com aquilo que me atravessou?”
É
nessa terceira margem que a existência se torna propriamente humana.
Pensar
sem deixar de sentir.
Sentir
sem abandonar o pensamento.
E,
entre os dois, assumir uma direção.
Porque
o sentido não costuma chegar como uma revelação grandiosa.
Às
vezes chega como uma pequena decisão.
Levantar
da cama.
Perdoar.
Continuar.
Cuidar
de alguém.
Transformar
uma perda em presença.
Fazer
do que recebemos uma responsabilidade.
Carregar
uma memória sem permitir que ela nos impeça de viver.
Talvez
seja isso que distingue simplesmente sobreviver de continuar existindo.
O sentido não estava no consultório
Quando
o velho médico saiu daquele consultório, a morte não havia sido explicada.
A
tristeza não havia sido negada.
O
passado não havia sido corrigido.
O
que mudou foi outra coisa.
Ele
encontrou uma direção para aquilo que não podia mudar.
E
talvez o sentido da vida seja menos parecido com uma resposta e mais parecido
com uma direção.
A
razão pode iluminar o caminho.
O
sentimento pode dizer que estamos vivos.
Mas
nenhum dos dois, sozinho, sabe para onde ir.
Existe
um momento em que precisamos deixar de perguntar apenas “por que isso
aconteceu?” e começar a perguntar:
“Diante
disso, quem escolho ser?”
É
uma pergunta pequena.
Mas
pode mudar uma vida inteira.
Porque
talvez o sentido não esteja escondido atrás da dor, esperando ser descoberto.
Talvez
ele nasça no instante em que, mesmo feridos, decidimos para onde levar
aquilo que a vida colocou dentro de nós.
Nem
a razão explica tudo.
Nem
o sentimento basta.
Entre
ambos permanece um espaço estreito.
E
talvez seja justamente ali — entre aquilo que conseguimos compreender e aquilo
que ainda precisamos suportar — que começa a nossa liberdade.
E
onde a vida, silenciosamente, começa outra vez.

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