Espiritualidade e Existencialismo


CAMINHAR JUNTOS

Por Hiran de Melo

Os anos passam.

E talvez a maior transformação não esteja no rosto que o espelho devolve, mas naquilo que aprendemos a compreender sobre nós mesmos e sobre o outro.

Já não somos aqueles que um dia se encontraram.

O tempo levou algumas ilusões, acrescentou algumas rugas e deixou cicatrizes onde antes havia apenas desejo. Aprendemos, pouco a pouco, que amar não é apenas sentir. É permanecer.

No começo, o amor tem pressa.

Procura o beijo, deseja o abraço, quer a presença inteira do outro. Tudo parece urgente, porque ainda não sabemos quanto tempo teremos.

Depois, a vida ensina outra linguagem.

O amor amadurece quando descobrimos que caminhar juntos não significa seguir no mesmo ritmo, nem pensar com as mesmas palavras.

Significa não transformar a diferença em distância.

Há dias em que um caminha mais depressa.

Há outros em que precisa parar. E então o outro espera.

Porque, numa vida compartilhada, algumas vezes carregamos o peso; outras vezes somos nós que precisamos ser carregados.

Talvez seja essa a verdadeira intimidade: saber que nem sempre teremos forças iguais, mas ainda assim escolheremos permanecer no mesmo caminho.

Com o tempo, chegam também os medos.

O medo de perder. O medo de já não despertar o mesmo desejo. O medo de descobrir que aquilo que um dia foi novidade tornou-se cotidiano.

Mas o cotidiano não é necessariamente o fim do encantamento.

Às vezes, é onde o amor encontra sua forma mais silenciosa e verdadeira.

O primeiro beijo pertence à descoberta.

A mão que continua procurando outra mão depois de tantos anos pertence à escolha.

E talvez exista uma maneira mais profunda de dizer “eu te amo”: “Ainda quero caminhar com você.”

Não porque o caminho tenha sido fácil. Não porque nunca tenhamos errado. Não porque nossos passos sejam iguais.

Mas porque, apesar de tudo, ainda reconhecemos no outro alguém com quem vale a pena continuar.

A vida não nos promete caminhos retos.

Ela nos oferece curvas, descidas, cansaços e algumas paisagens que só aparecem depois de longa caminhada.

E envelhecer talvez seja descobrir que permanecer ao lado de alguém não é conservar o passado.

É reinventar o presente.

O corpo muda. Os desejos mudam. As certezas diminuem.

Mas pode permanecer aquilo que não depende da juventude: a presença, a cumplicidade, o cuidado, e essa silenciosa decisão de não deixar o outro caminhar sozinho.

No fim, talvez amar não seja encontrar alguém que caminhe exatamente como nós.

Talvez seja encontrar alguém que, mesmo quando nossos passos se desencontram, ainda escolha esperar.

E, quando for preciso, voltar.

Porque há caminhos que só fazem sentido quando percorridos a dois.

Caminhar juntos.

Talvez seja isso: não ter a mesma passada, mas ter o mesmo desejo de continuar.

E, enquanto uma mão ainda procurar outra, o caminho não terá terminado.

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