Espiritualidade e Existencialismo


A Ingratidão e a escolha de ser

Por Hiran de Melo

“O ser humano é ingrato por natureza?” Talvez não.

Talvez a ingratidão não seja nossa natureza, mas uma das sombras que podem crescer quando deixamos de trabalhar a própria pedra.

O homem nasce incompleto. Recebe a pedra bruta e, ao longo da vida, escolhe o que fará dela.

Pode transformá-la em templo. Pode deixá-la permanecer pedra. Por isso, a ingratidão não é destino. É escolha.

E existe algo ainda mais perigoso: permitir que a ingratidão dos outros nos torne semelhantes a eles.

Alguém nos decepciona, e passamos a desconfiar de todos. Alguém não agradece, e deixamos de servir. Alguém não reconhece nosso gesto, e abandonamos a fraternidade.

Nesse instante, a pedra do outro começa a ser levantada dentro de nós.

O verdadeiro trabalho está em não permitir isso.

O bem que fazemos não pode depender da gratidão que recebemos.

A semente não pergunta à terra se será lembrada quando florescer.

O maçom também não deveria fazer do reconhecimento a medida de sua virtude.

Que o esquadro corrija nossas inclinações.
Que o compasso limite nossos excessos.
Que o malho quebre nossas durezas.
E que o cinzel revele, pouco a pouco, o homem que ainda podemos ser.

Porque talvez a grande pergunta não seja:

“Por que os outros são ingratos?”

Mas:

“Depois de tantas decepções, ainda somos capazes de permanecer bons?”

E talvez seja justamente aí que começa a verdadeira iniciação.

Não permitir que a ingratidão que encontramos no mundo destrua a fraternidade que decidimos construir dentro de nós.

 

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