Espiritualidade e Existencialismo


Silêncio e Morte em Vida

Quando o Eu encontra o silêncio

Por Hiran de Melo

O testemunho de Jean-Yves Leloup abre uma passagem muito fértil para pensar a experiência de morte em vida não apenas como um acontecimento extraordinário, mas como uma ruptura na maneira habitual de compreender quem somos.

Há momentos em que a vida nos coloca diante daquilo que passamos a vida inteira tentando evitar.

Não é necessariamente a morte do corpo.

Às vezes, é a morte de uma certeza.

A morte de uma imagem.

A morte de um nome que acreditávamos ser nosso.

A morte daquele pequeno “eu” ao qual entregamos tantos desejos, medos, ambições e justificativas.

Talvez seja por isso que algumas experiências de quase morte sejam tão perturbadoras. Elas não parecem apenas aproximar o ser humano da morte. Elas parecem aproximá-lo de uma pergunta muito mais antiga:

quem somos quando já não podemos nos apoiar naquilo que pensamos ser?

Jean-Yves Leloup conta que, durante uma viagem, em Istambul, foi encontrado aparentemente morto após um episódio de intoxicação. Levado ao hospital, seu eletroencefalograma teria apresentado uma condição que, naquele contexto, foi interpretada como morte clínica. Ele não morreu. Mas alguma coisa aconteceu.

E talvez seja justamente aí que começa o acontecimento mais profundo.

Porque voltar da morte não significa necessariamente voltar igual.

Há experiências que não precisam nos matar para nos transformar.

Leloup descreve sua experiência através de uma imagem delicada: um pássaro que sai da gaiola.

A gaiola era o corpo.

O pássaro era aquilo que, nele, parecia não estar completamente aprisionado à matéria.

E então surge uma experiência difícil de colocar em palavras: permanecer consciente enquanto se percebe o próprio corpo como algo que pode ser observado de fora.

Não precisamos decidir aqui se aquilo foi uma experiência neurológica, espiritual, metafísica ou uma combinação de todas essas possibilidades.

Talvez a questão mais interessante seja outra.

O que acontece conosco quando a realidade deixa de coincidir com aquilo que acreditávamos ser real?

Vivemos como se o corpo fosse nossa fronteira definitiva.

Temos um nome, uma história, uma profissão, uma família, uma posição social, crenças, desejos, lembranças.

Construímos cuidadosamente uma narrativa sobre nós mesmos.

E depois passamos a habitar essa narrativa como se ela fosse o próprio ser.

Mas talvez sejamos maiores que a história que contamos sobre nós.

Talvez exista em nós alguma coisa que começa justamente quando nossas explicações terminam.

Há algo, porém, que tenho percebido de maneira muito pessoal: certas mortes não acontecem de uma vez. Elas vão se insinuando silenciosamente dentro daquilo que fomos.

Quando olho para minha própria infância, por exemplo, percebo o quanto dela se perdeu. Já não consigo reconstruir a escola primária, os espaços, os detalhes daquele menino. Restam pequenos fragmentos: a palmatória, o medo do erro, a pedagogia de um tempo em que o castigo vinha antes mesmo de qualquer possibilidade de compreender.

Às vezes tenho a impressão de que aquele menino morreu sem ter deixado uma biografia.

Restaram marcas.

Mas não restou tudo.

E talvez seja assim com grande parte daquilo que chamamos de passado. Não desaparece completamente. Também não permanece inteiro. Fica entre a presença e a ausência, como uma fotografia que o tempo foi apagando.

Há um silêncio também nisso.

Um silêncio que não é vazio.

É a presença daquilo que já não conseguimos alcançar.

E isso não acontece apenas com o passado distante.

Às vezes retorno a caminhos que percorri há pouco tempo e já não os reconheço.

A paisagem mudou.

Os sinais mudaram.

A direção que antes apontava para a frente agora aponta para trás.

Estou no mesmo lugar, mas o lugar já não é o mesmo.

E surge uma sensação estranha: por alguns instantes, não sei se ainda estou no caminho que conhecia.

Foi assim quando retornei a João Pessoa, anos depois. O caminho que guardava na memória havia sido transformado. Aquilo que antes era familiar já não oferecia a mesma segurança.

Precisei confiar no Waze, nos satélites, no olhar do Outro.

A memória, que antes me conduzia, já não bastava.

Talvez porque a memória também envelheça.

Talvez porque os lugares, assim como nós, não tenham obrigação de permanecer os mesmos.

E existe aí uma pequena morte.

Não a morte do lugar, mas a morte da relação que tínhamos com ele.

A estrada continua.

Mas aquele que sabia percorrê-la já não está inteiramente ali.

É curioso como isso também acontece com os afetos.

Há antigos amores dos quais já não consigo lembrar o gosto do beijo, o calor do abraço, a intensidade do desejo. E, quando um encontro breve acontece, pode surgir uma estranha dificuldade de reconhecer, naquele corpo diante de mim, o mesmo corpo que um dia provocou tantos desejos.

Alguma coisa morreu.

Não necessariamente a lembrança.

Talvez tenha morrido o modo como aquela lembrança habitava o corpo.

E, às vezes, de tudo aquilo, resta apenas um sorriso acolhedor.

Um sorriso que já não pede nada.

Não deseja possuir.

Não procura recuperar o que passou.

Apenas reconhece.

Talvez seja uma das formas mais delicadas de despedida: quando o afeto já não nos prende, mas ainda consegue nos tocar.

Há algo difícil de explicar nessa oscilação entre a morte e a vida.

Não é apenas elaboração da mente.

É também aquilo que o afeto faz com o tempo.

O que um dia foi alegria pode tornar-se indiferença.

O que um dia doeu pode deixar de doer.

E talvez isso não signifique que aquilo não tenha sido verdadeiro.

Talvez signifique apenas que nós já não somos os mesmos.

Leloup fala de um espaço sem palavras.

Um silêncio.

Uma espécie de infinito no qual as distinções habituais parecem desaparecer.

Não há mais a oposição entre dentro e fora.

Entre matéria e espírito.

Entre corpo e consciência.

Entre o que somos e aquilo que buscamos.

E é curioso que, diante desse espaço, a linguagem se torne insuficiente.

Tentamos dizer “luz”, mas descobrimos que não é exatamente luz.

Tentamos dizer “nada”, mas percebemos que também não é exatamente nada.

Tentamos dizer “silêncio”, embora esse silêncio pareça conter mais realidade do que muitas das palavras com as quais construímos nossas certezas.

Talvez o silêncio seja aquilo que permanece quando todas as nossas definições já morreram.

Existe uma pequena morte que podemos experimentar ainda vivos.

Ela acontece quando uma antiga maneira de existir já não consegue continuar.

É quando percebemos que o sucesso não basta.

Que o dinheiro não responde às perguntas fundamentais.

Que o poder não consegue preencher o vazio.

Que acumular experiências não significa necessariamente viver.

Que possuir muitas coisas não significa possuir uma existência.

Leloup conta que cresceu em um ambiente marcado pelo ateísmo e pelos valores do sucesso, do dinheiro e do poder. Havia, porém, uma insatisfação que não desaparecia. A partir dela vieram a filosofia, a ciência, a psicologia, as viagens e a busca por pessoas que não apenas falassem sobre espiritualidade, mas que procurassem vivê-la.

Talvez toda busca espiritual verdadeira comece assim:

com uma insatisfação que não conseguimos mais calar.

Não é necessariamente falta de fé.

Pode ser excesso de realidade.

É perceber que aquilo que nos disseram ser suficiente não é suficiente.

É descobrir que existe uma pergunta atrás de cada resposta.

E outra pergunta atrás dela.

Até chegarmos a um lugar onde já não sabemos perguntar.

E então começa o silêncio.

Há uma imagem particularmente bela no testemunho de Leloup.

Depois da experiência, ele diz sentir-se novamente dentro da “gaiola”.

O corpo continua ali.

A vida continua.

As tarefas continuam.

As pessoas continuam chamando pelo nosso nome.

O mundo continua exigindo respostas.

Mas alguma coisa mudou.

Porque quem experimentou, ainda que por instantes, a possibilidade de existir além das antigas fronteiras já não consegue voltar completamente à inocência anterior.

A gaiola continua sendo gaiola.

Mas agora sabemos que existe céu.

E talvez seja essa uma das formas mais profundas da experiência de morte em vida.

Não morrer fisicamente.

Mas morrer para a ilusão de que somos apenas aquilo que podemos medir.

Morrer para a ideia de que nossa identidade está completamente contida em nosso currículo, em nosso corpo, em nossa história, em nossos papéis sociais.

Morrer para a necessidade de possuir uma resposta definitiva sobre nós mesmos.

E, sobretudo, morrer para o pequeno “eu” que deseja controlar o mistério.

Em determinado momento de seu caminho, Leloup encontra o rosto de Cristo em um mosaico de Santa Sofia.

Antes, havia visto imagens de Buddhas com os olhos baixos, voltados para uma profunda interioridade.

Também havia contemplado as imagens dos atletas gregos, corpos perfeitos, músculos belos, mas com olhos que pareciam vazios.

E então encontra o Cristo com os olhos abertos.

Serenidade interior.

Mas também presença no mundo.

Silêncio.

Mas também olhar.

Interioridade.

Mas também encontro.

É aí que ele percebe uma síntese.

Talvez porque o verdadeiro espiritual não seja fuga do humano.

Talvez seja justamente a descoberta de uma profundidade dentro do humano.

O que está dentro não precisa negar o que está fora.

O corpo não precisa ser inimigo do espírito.

A matéria não precisa ser adversária da consciência.

A vida não precisa ser o contrário da transcendência.

O mistério pode estar justamente na união dessas coisas.

Talvez seja isso que significa descobrir que o humano e o divino não estão necessariamente separados.

Quando cavamos suficientemente fundo dentro de nós, talvez não encontremos uma resposta.

Encontramos profundidade.

E a profundidade não é uma resposta.

É um espaço.

Há algo de muito existencial nessa experiência.

Porque existir é, de certo modo, viver entre aquilo que somos e aquilo que ainda não conseguimos ser.

Somos lançados no mundo sem termos escolhido nascer.

Recebemos um corpo, uma história, uma língua, uma época, uma família, circunstâncias que não decidimos.

Depois começamos a construir aquilo que chamamos de “eu”.

Mas esse “eu” nunca está terminado.

Está sempre se fazendo.

Sempre se desfazendo.

Sempre morrendo um pouco.

Sempre nascendo novamente.

Por isso, talvez a experiência de morte em vida não seja tão distante da experiência cotidiana quanto imaginamos.

Todos nós conhecemos pequenas mortes.

A perda de alguém.

O fim de um amor.

A aposentadoria.

A doença.

A velhice.

A partida dos filhos.

A perda de um sonho.

A descoberta de que estávamos errados.

O momento em que olhamos para nossa própria vida e já não reconhecemos a pessoa que fomos.

Também conhecemos a morte silenciosa de uma infância que não conseguimos mais recuperar.

De um caminho que deixou de nos reconhecer.

De um amor cujo corpo já não conseguimos reencontrar na memória.

São pequenas mortes.

E cada uma delas pode ser apenas destruição.

Ou pode ser passagem.

Depende do que fazemos com o vazio que fica.

Talvez a morte nos ensine alguma coisa sobre a vida que a vida, sozinha, não consegue ensinar.

Porque enquanto acreditamos que temos todo o tempo do mundo, adiamos o essencial.

Depois, quando percebemos que o tempo é limitado, algumas coisas perdem importância.

O orgulho diminui.

A necessidade de vencer diminui.

A vontade de ter razão diminui.

E algumas coisas começam a crescer.

Um olhar.

Um abraço.

Uma presença.

Uma palavra verdadeira.

Um perdão.

Um gesto de compaixão.

Talvez até um sorriso.

Aquele sorriso que permanece quando já não precisamos recuperar o passado.

Talvez a consciência da morte seja uma maneira radical de devolver à vida o seu valor.

Não porque precisamos pensar permanentemente na morte.

Mas porque precisamos lembrar que estamos passando.

E aquilo que passa não pode ser possuído.

Só pode ser vivido.

No fim do testemunho de Leloup, a pergunta permanece aberta.

O que é a matéria?

Energia.

E a energia?

Informação.

E a informação?

Consciência.

E a consciência?

Nesse ponto, a resposta desaparece.

Resta o silêncio.

Talvez seja justamente aí que começa a verdadeira experiência espiritual.

Não quando encontramos uma explicação para o mistério.

Mas quando deixamos de exigir que o mistério seja explicado.

Talvez a consciência mais profunda não seja aquela que sabe mais.

Seja aquela que consegue permanecer diante do desconhecido sem precisar transformá-lo imediatamente em certeza.

A experiência de quase morte, nesse sentido, pode ser lida como uma experiência-limite.

Ela nos leva até a fronteira onde nossas palavras, nossas crenças e nossas categorias começam a falhar.

E, quando tudo falha, talvez alguma coisa permaneça.

Não necessariamente uma imagem.

Não necessariamente uma doutrina.

Não necessariamente um Deus definido pelos nossos conceitos.

Talvez permaneça apenas o “Eu Sou”.

Não o pequeno “eu” que possui nome, profissão, memória e história.

Mas aquele núcleo silencioso que não conseguimos capturar inteiramente.

Aquele espaço interior que, como a cavidade de uma concha, pode parecer pequeno e, ao mesmo tempo, conter o universo.

Talvez morrer em vida seja isso:

deixar morrer aquilo que em nós precisa morrer.

O personagem.

A máscara.

A certeza.

A arrogância.

A necessidade de possuir o outro.

A ilusão de controle.

E permanecer diante do que sobra.

Sem adornos.

Sem garantias.

Sem respostas prontas.

Apenas nós.

E o silêncio.

Talvez seja nesse silêncio que finalmente descubramos que a vida não é apenas aquilo que acontece conosco.

É também aquilo que, silenciosamente, acontece em nós.

E talvez o verdadeiro renascimento não aconteça quando escapamos da morte.

Aconteça quando, ainda vivos, deixamos de fugir dela.

Porque então compreendemos que a morte não está apenas no fim da vida.

Ela acompanha cada transformação.

Cada despedida.

Cada recomeço.

Cada versão de nós que precisa desaparecer para que outra possa nascer.

E talvez viver seja exatamente isso:

aprender a morrer antes de morrer, para que, quando a vida nos devolva a nós mesmos, possamos finalmente descobrir quem somos.

No fundo, talvez não seja a morte que nos assuste.

Talvez seja a possibilidade de descobrir que aquilo que chamávamos de “eu” nunca foi tudo aquilo que somos.

E, quando essa descoberta acontece, ainda que por um instante, a gaiola permanece.

Mas já não somos os mesmos.

Porque agora sabemos que há um voo.

E há um silêncio além das palavras.

E talvez, nesse silêncio, exista aquilo que permanece quando já não resta nada.

ASSISTA:  https://youtu.be/mKb_7IlgVVM?is=KhwPCDYyJhxt5R7N


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog