Buscando Sentido na Vida


Viver não é importante; jogar é importante

Sobre o estranho desejo de adiar a vida em nome da próxima tentativa

Por Hiran de Melo

Existe uma frase que parece absurda à primeira leitura: viver não é importante; jogar é importante.

Talvez porque tenhamos aprendido exatamente o contrário.

Desde cedo nos dizem que precisamos construir uma vida. Estudar, trabalhar, conquistar, amar, constituir família, acumular alguma segurança, deixar alguma marca. Como se viver fosse uma obra e cada dia trouxesse uma pedra para acrescentar ao edifício.

Mas existe uma espécie de homem que não deseja exatamente chegar.

Ele deseja continuar tentando.

Não está necessariamente interessado no prêmio. O que o prende é a possibilidade do prêmio. Não é a chegada que o alimenta, mas o movimento entre a perda e a esperança, entre o quase e o talvez, entre o fracasso de ontem e a promessa de amanhã.

É aí que Dostoiévski continua nos inquietando.

Em O Jogador, o cassino não aparece apenas como lugar onde se perde dinheiro. Ele se transforma em uma espécie de laboratório da alma humana. Ali, o homem revela algo que normalmente consegue esconder de si mesmo: muitas vezes não queremos aquilo que dizemos querer.

Dizemos que queremos dinheiro.

Mas talvez desejemos reconhecimento.

Dizemos que queremos liberdade.

Talvez desejemos provar que somos capazes.

Dizemos que queremos amor.

Talvez desejemos a confirmação de que somos importantes para alguém.

E assim a roleta deixa de girar apenas sobre a mesa. Ela começa a girar dentro de nós.

A vida como aposta

O mais perturbador no jogador não é a perda.

É a esperança.

Quem perdeu tudo ainda pode abandonar o jogo. Mas quem perdeu e acredita que está a uma jogada de recuperar tudo permanece preso à mesa.

A derrota absoluta encerra uma história.

A possibilidade de vitória prolonga-a indefinidamente.

Por isso, talvez a frase mais perigosa não seja:

Vou fazer mais uma aposta.”

Mas:

Depois desta, eu paro.”

Existe uma promessa escondida nessa frase.

A promessa de que a próxima tentativa finalmente colocará a vida no lugar.

E talvez seja justamente aí que começa uma das grandes ilusões humanas: transformar o futuro em credor do presente.

“Quando eu conseguir aquele emprego, começarei a viver.”

“Quando comprar minha casa, serei feliz.”

“Quando for reconhecido, encontrarei meu lugar.”

“Quando resolver esse problema, descansarei.”

“Quando ganhar, paro.”

E a vida vai passando.

Não porque esteja sendo vivida, mas porque permanece suspensa à espera de alguma coisa.

O Cassino cabe no bolso

No tempo de Dostoiévski, era necessário atravessar estradas para chegar ao cassino.

Hoje, muitas vezes, basta estender a mão.

A roleta pode caber no telefone. A aposta pode estar misturada às notícias, aos vídeos, às conversas, às imagens de pessoas exibindo vitórias cuidadosamente selecionadas.

Mas talvez a maior mudança não esteja na tecnologia.

Está na intimidade.

O cassino deixou de ser apenas um lugar para onde vamos.

Pode ser um estado de espírito.

A pessoa não precisa estar diante de uma mesa verde para apostar.

Pode apostar na própria imagem.

No relacionamento.

Na carreira.

Na aprovação dos outros.

Na próxima oportunidade.

Na esperança de que alguma coisa exterior finalmente resolva aquilo que permanece inconcluso dentro dela.

E então descobrimos uma coisa desconfortável: o jogador não é necessariamente aquele que aposta dinheiro. É aquele que entrega o presente ao futuro em troca da promessa de uma compensação.

O quase

Talvez exista algo particularmente sedutor no quase.

Quase ganhei.

Quase fui amado.

Quase consegui.

Quase fui reconhecido.

Quase deu certo.

O quase mantém a porta aberta.

A derrota definitiva obriga a aceitar a realidade. O quase permite continuar sonhando.

Por isso, algumas pessoas permanecem durante anos diante de portas que nunca se abrem. Não porque não percebam a ausência de passagem, mas porque continuam enxergando, na fresta, a possibilidade de que amanhã seja diferente.

Dostoiévski percebeu esse mecanismo de uma maneira quase dolorosa porque conhecia, por experiência própria, a tensão entre o risco e a necessidade.

Enquanto escrevia O Jogador, sua própria vida parecia submetida a uma espécie de roleta. Dívidas, prazos, credores, urgência. O romance nasceu dessa proximidade entre a literatura e a própria existência.

Talvez por isso sua compreensão do jogador seja tão profunda.

Ele não observa o homem de fora.

Ele conhece o lugar da mesa.

Quando jogar substitui viver

Existe um momento em que o jogo deixa de ser instrumento para alcançar alguma coisa e passa a ser a própria finalidade.

É quando já não importa tanto ganhar.

Importa continuar.

A emoção está na próxima carta.

Na próxima mensagem.

Na próxima oportunidade.

Na próxima aposta.

Na próxima tentativa.

E talvez essa seja a dimensão mais trágica da existência do jogador: ele já não joga para mudar a vida; joga para não precisar encontrá-la.

Porque viver é diferente.

Viver exige permanência.

O jogo oferece interrupção.

Viver exige aceitar o que somos.

O jogo oferece a possibilidade de sermos outro na próxima rodada.

Viver nos coloca diante dos nossos limites.

O jogo promete que ainda podemos escapar deles.

Talvez por isso seja tão sedutor.

A vida adiada

Há pessoas que passam a vida preparando-se para começar a viver.

Guardam o melhor vinho.

Esperam a ocasião certa.

Adiam o encontro.

Adiam o abraço.

Adiam a palavra.

Adiam o sonho.

Adiam a coragem.

Como se a existência fosse uma espécie de reserva que pudesse ser utilizada mais tarde.

Mas a vida não permanece guardada.

Ela passa enquanto esperamos.

E talvez a grande tragédia não seja perder uma aposta.

Seja descobrir, tarde demais, que fizemos da própria vida uma aposta.

Apostamos que amanhã seria melhor.

Apostamos que alguém mudaria.

Apostamos que seríamos reconhecidos.

Apostamos que teríamos tempo.

Apostamos que depois cuidaríamos de nós.

Apostamos que, em algum momento, finalmente começaria aquilo que chamamos de vida.

O que está girando?

Talvez seja essa a pergunta que Dostoiévski ainda nos entrega.

Não simplesmente:

“Você joga?”

Mas:

“O que está girando dentro de você?”

Pode ser dinheiro.

Pode ser poder.

Pode ser amor.

Pode ser reconhecimento.

Pode ser ressentimento.

Pode ser a necessidade de provar alguma coisa a alguém.

Pode ser a esperança de que uma próxima oportunidade transforme tudo.

A roleta é apenas o símbolo.

O verdadeiro jogo acontece quando entregamos ao acaso aquilo que deveríamos assumir como responsabilidade.

Porque viver é, em grande medida, aceitar que não existe uma rodada capaz de nos devolver aquilo que deixamos de viver.

Não existe aposta que recupere o abraço não dado.

Não existe prêmio que devolva o tempo desperdiçado.

Não existe vitória capaz de transformar o passado.

E talvez seja justamente por isso que viver seja tão difícil.

No jogo, sempre existe uma próxima rodada.

Na vida, não sabemos quantas restam.

Talvez a sabedoria esteja em perceber que não precisamos ganhar para começar a viver.

Precisamos apenas parar de adiar a vida esperando a próxima jogada.

Porque, no fim, talvez o maior engano do jogador seja imaginar que está apostando para ganhar a vida.

Quando, silenciosamente, pode estar apostando a própria vida para continuar jogando.

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