SOMBRAS E MEDOS
A Diferença entre Vencer e Conseguir
Sobre as travessias da existência, o silêncio e a necessidade de
reconhecimento
Por Hiran de Melo
Há
rios que não aparecem nos mapas. Correm por dentro de nós, atravessando os
dias, impondo correntezas que não escolhemos e margens que, às vezes, parecem
distantes demais. São as perdas, os medos, as decepções, as mudanças
inesperadas e os conflitos que nos colocam diante de nós mesmos, sem a
possibilidade de desviar o caminho.
Diante
de uma correnteza, cada um descobre não apenas a força que possui, mas também a
maneira como se relaciona com as próprias dificuldades. Uns entram na água
pensando na vitória que anunciarão ao chegar à outra margem. Outros concentram
suas forças em atravessar, sem imaginar que a experiência precise de
testemunhas para adquirir significado.
Talvez
seja essa a diferença sugerida pelo adágio: uma coisa é alcançar a margem e
gritar “Eu venci”. Outra é chegar, respirar fundo e apenas murmurar: “Eu
consegui”.
As
palavras parecem próximas, mas guardam maneiras distintas de compreender a
existência.
Vencer
pressupõe, muitas vezes, uma disputa. Conseguir reconhece a realização de uma travessia.
Quem
grita que venceu talvez precise afirmar ao mundo que a correnteza não o
derrotou. Seu grito pode ser legítimo, expressão de alegria depois de uma luta
difícil, celebração de uma conquista que exigiu coragem. Não há necessariamente
vaidade em comemorar. Há momentos em que a vida merece ser celebrada em voz
alta.
O
problema começa quando a vitória precisa ser reconhecida pelos outros para que
nos pareça verdadeira. Quando a travessia deixa de representar uma conquista
pessoal e se transforma em demonstração de superioridade. Quando já não basta
chegar à margem: é preciso que alguém, do outro lado, reconheça que fomos mais
fortes, mais capazes, mais dignos do que aqueles que permaneceram na água ou
escolheram outro caminho.
Nesse
instante, o rio deixa de ser apenas um obstáculo. Transforma-se em palco. E a
existência, que deveria nos ensinar alguma coisa sobre nossos limites e
possibilidades, passa a servir à necessidade de provar o nosso valor.
Há
quem atravesse rios inteiros sem conseguir se afastar dessa necessidade.
Conquista, mas não descansa. Supera uma dificuldade e logo procura outra
oportunidade de demonstrar que é capaz. Recebe aplausos, mas continua à espera
de uma confirmação que nunca chega por inteiro. Afinal, quem depende do olhar
alheio para reconhecer o próprio valor vive submetido à incerteza desse olhar.
A
correnteza mais difícil de vencer talvez seja aquela que nos arrasta para a
necessidade de provar quem somos.
Mas
existe outra maneira de atravessar.
Há
quem entre na água sem alarde, reconhecendo o perigo, medindo as próprias
forças e aceitando que não controla o movimento da correnteza. Não ignora o
medo, tampouco confunde coragem com ausência de receio. Apenas compreende que
certas passagens exigem mais do que bravura: exigem prudência, paciência e a
disposição de continuar mesmo quando o caminho não oferece garantias.
Essa
pessoa não atravessa necessariamente com menos sofrimento. Talvez tenha
enfrentado águas mais profundas, noites mais longas e momentos em que pensou
não conseguir chegar. A diferença não está na dimensão da dificuldade, mas na
relação que estabelece com ela.
Ao
alcançar a outra margem, não precisa transformar o esforço em espetáculo.
Respira. Reconhece o que viveu. Talvez olhe para trás, não para exibir a
distância percorrida, mas para compreender o quanto aquela passagem lhe custou
e o que nela aprendeu.
E
então murmura: “Eu consegui”.
Não
há nessa frase uma negação da luta. Há o reconhecimento de que a luta existiu,
de que o medo esteve presente e de que, apesar de tudo, foi possível continuar.
O
silêncio, nesse caso, não é modéstia ensaiada, nem desprezo por quem celebra
suas conquistas. É uma forma de intimidade com a própria experiência. A pessoa
não precisa diminuir os outros para reconhecer a própria força, nem transformar
a dificuldade superada em medida do valor humano.
Ela
sabe que atravessar um rio não a torna superior a quem ainda está na margem.
Cada existência tem sua correnteza, seu tempo e suas circunstâncias. Há quem
não atravesse porque não encontrou forças; há quem espere uma condição mais
segura; há quem descubra que seguir por outro caminho também constitui uma
escolha legítima.
Nem
toda permanência representa covardia. Nem toda travessia significa sabedoria.
Às vezes, a coragem consiste em entrar na água. Em outras ocasiões, consiste em
reconhecer que a correnteza é forte demais e que insistir, naquele momento,
seria apenas confundir determinação com imprudência.
A
existência não distribui dificuldades em condições iguais. Por isso, medir a
força de alguém pela velocidade com que atravessa seus rios é desconhecer a
profundidade das águas em que cada pessoa precisa caminhar.
Talvez
a maturidade comece quando deixamos de perguntar quem venceu e passamos a
compreender o que cada um precisou enfrentar para continuar vivendo.
Há,
ainda, uma diferença mais sutil entre as duas atitudes. Quem grita “Eu venci”
pode estar celebrando o fim de uma dificuldade. Quem murmura “Eu consegui”
talvez esteja reconhecendo algo que vai além do resultado: a descoberta de que,
mesmo sem garantias, foi capaz de atravessar uma experiência que antes parecia
impossível.
O
primeiro enunciado pode encerrar uma disputa. O segundo pode inaugurar uma
compreensão.
Porque
não somos exatamente os mesmos depois de atravessar determinadas águas. Alguma
coisa se modifica em nós. Aprendemos que a força tem limites, que o medo não
precisa decidir todos os nossos passos e que a fragilidade, longe de nos
desqualificar, também faz parte da condição humana.
Descobrimos,
sobretudo, que a margem alcançada não é o destino definitivo. Depois dela,
outros rios aparecerão. Algumas correntezas serão mais brandas; outras nos
obrigarão a rever as certezas que trouxemos da travessia anterior. A vida não
nos concede uma última margem onde possamos descansar para sempre. Continuamos
sendo seres inacabados, aprendendo a existir enquanto existimos.
Por
isso, talvez não seja necessário transformar cada obstáculo superado em troféu.
Há conquistas que perdem parte de seu sentido quando precisam ser exibidas. Há
dores que amadurecem no silêncio. Há experiências cujo maior valor não está
naquilo que podemos contar aos outros, mas naquilo que passamos a compreender
sobre nós mesmos.
E
há momentos em que a única celebração possível consiste em permanecer algum
tempo à margem, sentindo a respiração recuperar seu ritmo, sem precisar
explicar a ninguém o que aconteceu dentro de nós.
Não
se trata de escolher o silêncio como virtude absoluta, nem de condenar a
alegria de quem ergue os braços e comemora. Cada pessoa encontra sua maneira de
dar expressão ao que viveu. O essencial talvez esteja em não confundir o
reconhecimento público com a realização íntima, nem a aprovação dos outros com
a consciência do próprio caminho.
Afinal,
não precisamos de plateia para que uma conquista seja verdadeira. Tampouco
precisamos silenciar para demonstrar profundidade.
Precisamos,
antes, aprender a reconhecer o sentido de nossas próprias travessias.
Talvez
a grande questão não seja se gritamos “Eu venci” ou se apenas murmuramos “Eu
consegui”. Talvez seja descobrir o que procurávamos ao atravessar o rio: a
satisfação de superar uma dificuldade ou a necessidade de provar que somos
melhores do que alguém.
Quando
a travessia serve apenas para alimentar o orgulho, chegamos à margem carregando
a mesma inquietação que nos acompanhava antes de entrar na água. Mas, quando
nos permite compreender nossos limites, reconhecer nossa capacidade de
continuar e respeitar a caminhada alheia, alguma coisa verdadeiramente se
transforma.
O
rio, então, deixa de ser apenas aquilo que precisamos superar. Torna-se parte
daquilo que nos ensina a existir.
E
talvez seja essa a conquista que merece ser guardada: não a certeza de que
somos invencíveis, mas a consciência de que podemos atravessar certas águas sem
perder a humanidade; de que podemos chegar à outra margem sem precisar declarar
derrota para os que ficaram, nem vitória sobre aqueles que caminham ao nosso
lado.
No
fim, a existência não nos pede que sejamos vencedores de todos os rios. Pede
apenas que, diante das águas que nos cabem, aprendamos a atravessar sem
transformar a vida numa competição e sem esquecer quem somos enquanto tentamos
chegar.
E,
quando os pés finalmente tocarem a outra margem, talvez um murmúrio seja
suficiente.
Eu
consegui.
Não
porque tenha sido fácil. Não porque tenha sido melhor do que os outros. Mas
porque, apesar do medo, das incertezas e das forças contrárias, consegui
continuar.
E,
às vezes, continuar já é uma maneira profunda de vencer.

Comentários
Postar um comentário