Buscando Sentido na Vida


Caminhos, Gratidão e Sentido da Vida

Entre os sonhos que realizamos e a vida que simplesmente acontece

Por Hiran de Melo

Meu amigo e mestre Marçal costumava contar uma história que guardo na memória. Aos dezessete anos, calçando apenas uma sandália japonesa, começou a trabalhar espalhando piche quente sobre o chão, preparando o caminho para que outros viessem lançar o asfalto. O calor era tão intenso que ele se sentia caminhando sobre uma chapa de fogão.

Foi naquele desconforto, com as mãos sujas de piche, que olhou para o céu e fez seus pedidos à vida. Um dia teria uma casa, uma mulher a quem pudesse amar, escreveria um livro e conseguiria um bom emprego.

Os anos passaram. Já aposentado, Mestre Marçal gostava de recordar aqueles sonhos. Havia construído sua casa, escrito seu livro, encontrado uma mulher a quem amava e conquistado o emprego que desejava. Tinha também uma bela motocicleta, daquelas que pareciam feitas à medida de seu porte. Talvez possuísse um carro, mas gostava mesmo era de percorrer seus caminhos sobre duas rodas.

Até o último dia de sua vida, falava daqueles sonhos realizados. Havia uma história que podia contar a si mesmo: a de um jovem que, diante das dificuldades, imaginou uma vida diferente e, passo a passo, conseguiu alcançá-la.

Talvez fosse essa a fonte de sua gratidão: olhar para trás e reconhecer o quanto havia caminhado desde aquele chão quente de sua juventude.

Eu também conheci minhas chapas quentes. Não uma, mas muitas. Embora não tenha vivido exatamente a experiência de Mestre Marçal, precisei encontrar saídas, superar obstáculos e dar um passo adiante quando as circunstâncias pareciam limitar minhas possibilidades.

A diferença é que nunca formulei grandes sonhos capazes de servir como faróis para toda a minha existência. Minha caminhada era movida por tarefas, compromissos e missões. Algumas eu assumia por vontade própria; outras me eram atribuídas pelas circunstâncias.

Procurava ser um bom profissional, fazer o melhor que podia com os recursos de que dispunha, cumprir minhas obrigações e ser útil.

Na escola, por exemplo, nunca me preocupei em ser o melhor aluno, o mais brilhante ou aquele que recebia as notas mais altas. Bastava-me alcançar a aprovação. Cumprida aquela etapa, estava satisfeito. Havia vencido mais uma tarefa.

E assim, de tarefa em tarefa, fui atravessando a vida.

Curiosamente, ao chegar à aposentadoria, encontrei em minhas mãos boa parte daquilo que havia feito parte dos sonhos de Mestre Marçal. Construí minha casa, tive meu carro e minhas motocicletas, escrevi mais de um livro, exerci uma profissão e me aposentei. Também amei uma mulher, sem que isso tivesse sido estabelecido como uma grande meta a conquistar.

Mas havia uma diferença fundamental entre nós: aquilo que Mestre Marçal reconhecia como parte do sentido de sua vida, para mim eram consequências da própria caminhada.

Não vivia para possuir uma casa, ter um carro, escrever livros ou alcançar determinado lugar na profissão. Essas coisas aconteceram enquanto eu cumpria minhas tarefas e seguia adiante. Não eram o destino que justificava a viagem, mas conquistas que encontrei pelo caminho.

E aqui surge uma questão: precisamos de grandes sonhos para dar sentido à vida ou podemos encontrá-lo no próprio ato de viver?

Não tenho a pretensão de responder por todos. Para Mestre Marçal, aqueles sonhos representavam uma promessa feita a si mesmo, uma declaração de esperança diante das dificuldades. Realizá-los deve ter sido uma forma profunda de reconhecer que seu esforço não havia sido em vão.

Para mim, entretanto, o sentido nunca esteve tão ligado à chegada. Estava no movimento, no cumprimento de cada tarefa, na possibilidade de continuar vivendo e fazendo aquilo que considerava correto.

Também não estabeleci como objetivo ser amado. Minha disposição era amar quem estivesse ao meu lado, oferecer afeto e cuidar das relações que a vida me proporcionava. Se fui amado na mesma medida, não sei. Talvez nem sempre. Mas nunca fiz da reciprocidade uma condição para continuar amando.

Amo meus amigos e minhas amigas. Amo meus filhos. Isso não significa que eles sejam responsáveis pelo sentido da minha existência ou que precisem me devolver o afeto que lhes ofereço para que eu me sinta inteiro.

É claro que gosto de carinho e de saber que sou querido. Quem não gosta? De vez em quando, até reclamo da falta de afeto, faço-me de vítima e digo que ninguém me ama. Mas há uma distância entre desejar o carinho dos outros e depender dele para justificar a própria vida.

Não quero transformar o amor numa cobrança, nem fazer do afeto uma dívida a ser paga mais tarde.

O mesmo acontece com a gratidão.

Se ajudo alguém, procuro fazê-lo porque considero correto ajudar. Se posso oferecer apoio a quem me procura, tento não me omitir. Se abraço uma causa, é porque reconheço nela alguma razão que merece meu compromisso.

Não faço isso para construir uma imagem de homem generoso, conquistar admiradores ou acumular créditos morais que possam ser cobrados mais tarde. Tampouco espero gratidão como pagamento pelo que faço.

Naturalmente, a gratidão de quem recebe uma ajuda pode ser bonita e reconfortante. Ela reconhece o valor de um gesto e fortalece os vínculos humanos. Mas há uma diferença entre acolher a gratidão espontânea e exigi-la.

Quando condicionamos nossa bondade ao reconhecimento, corremos o risco de transformar o bem em negócio. Ajudamos esperando retorno, oferecemos afeto aguardando recompensa e, quando ela não chega, sentimos que fomos enganados.

Então, vale perguntar: fizemos o bem porque acreditávamos nele ou porque esperávamos receber alguma coisa em troca?

Não ignoro que precisamos de afeto, companhia e reconhecimento. Somos seres de relações, e ninguém atravessa a vida inteiramente sozinho. Mas uma coisa é reconhecer essa necessidade; outra é entregar aos outros a responsabilidade de determinar o valor daquilo que somos.

A gratidão que me interessa não é aquela que espero receber de alguém. É a capacidade de reconhecer a vida que me foi possível viver, com suas dificuldades, seus encontros, suas perdas e suas oportunidades.

Isso não significa agradecer por tudo, como se o sofrimento fosse necessário ou como se as injustiças devessem ser aceitas em silêncio. Há situações que exigem resistência e dores que não precisam ser disfarçadas com palavras bonitas.

Ser grato não é negar as dificuldades. É não permitir que elas apaguem tudo o que também existiu de bom em nossa caminhada.

Posso reconhecer as oportunidades que tive sem esquecer os obstáculos que enfrentei. Posso agradecer a quem me ajudou sem transformar minha vida numa dívida interminável. Posso reconhecer meus méritos sem ignorar as pessoas e as circunstâncias que contribuíram para minhas conquistas.

E posso continuar fazendo o que considero certo, mesmo quando ninguém percebe, elogia ou agradece.

Ao recordar Mestre Marçal, reconheço a beleza de sua história. Ele encontrou nos sonhos realizados uma forma de compreender sua existência. Há algo profundamente humano em olhar para trás e perceber que aquele jovem que caminhava sobre o piche quente conseguiu construir a vida que desejava.

Mas também há beleza em chegar ao entardecer da existência sem precisar apresentar um inventário de grandes conquistas para justificar os anos vividos.

Não sei se deixarei saudades. Não tenho como saber quantas pessoas se lembrarão de mim ou o que dirão quando minha presença já não puder ser encontrada. Talvez alguém se recorde de um livro, de uma conversa ou de algum gesto de ajuda. Talvez eu seja lembrado simplesmente como alguém que não costumava negar apoio a quem o procurava.

Isso me basta.

Não porque despreze a memória, o amor ou o reconhecimento, mas porque não quero fazer deles a medida do valor da minha passagem pelo mundo.

Qual é, então, o sentido da minha vida?

Acredito que seja viver.

Viver com o coração capaz de se emocionar, abraçar causas, ajudar quando posso e continuar caminhando enquanto houver caminho. Não preciso de uma grande promessa a cumprir, de uma obra monumental a deixar ou de uma multidão que reconheça meus méritos.

Quero apenas fazer parte da vida enquanto a vida fizer parte de mim.

Quando chegar a hora de partir, não espero que alguém se sinta obrigado a agradecer pelo que fiz. Se meus gestos tiverem sido úteis, se alguma pessoa tiver encontrado apoio em minha presença, isso terá seu próprio valor, independentemente de eu vir a saber o que significou para ela.

A gratidão dos outros será sempre bem-vinda, mas não precisa ser a razão da minha bondade. O reconhecimento pode acompanhar o caminho, mas não precisa indicar a direção.

Talvez a vida não exija de todos nós uma resposta grandiosa. Alguns encontram seu sentido na realização de grandes sonhos; outros, no amor que constroem; outros ainda, no serviço silencioso que prestam às pessoas e às causas em que acreditam.

Quanto a mim, continuo satisfeito em transformar minha existência naquilo que consigo fazer dela, sem exigir que o mundo me devolva, em reconhecimento, tudo o que ofereço.

Afinal, não preciso ser lembrado como alguém extraordinário. Basta-me ter vivido como alguém que procurou ser útil.

E, se há alguma gratidão a cultivar nessa caminhada, que ela não nos torne devedores do passado nem cobradores do futuro. Que nos ajude a reconhecer o valor da vida que acontece agora, enquanto ainda estamos aqui para vivê-la.


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