SOMBRAS E MEDOS


COM ESSAS COISAS NÃO SE BRINCA

Entre o medo que inventamos e aquele que nos transforma

Por Hiran de Melo

Há brincadeiras que terminam quando cessam as risadas. Outras continuam vivendo dentro de nós, muito depois de o tempo apagar os detalhes do acontecimento. Não porque tenhamos compreendido o que aconteceu, mas porque alguma coisa, naquele instante, rompeu a fronteira entre aquilo em que acreditávamos e aquilo que julgávamos impossível.

Na casa de Dona Arida, aprendi que o medo também se alimenta da imaginação.

As tardes de sábado tinham um ritual próprio: bolachas, margarina, café bem doce e histórias de assombração. Dona Arida sabia conduzir os ouvintes pelos caminhos da inquietação. Sua voz desenhava sombras, suas palavras davam movimento ao que não podíamos ver, e a casa, com suas portas fechadas e o banheiro no quintal, parecia participar da narrativa.

Éramos adolescentes, ainda quase crianças, mas já conhecíamos uma verdade que os adultos nem sempre admitem: nem tudo o que nos assusta precisa estar diante dos nossos olhos. Às vezes, basta que alguém nos ensine a imaginar.

O medo fazia parte da brincadeira. Ríamos com certo constrangimento, fingíamos coragem e, quando a necessidade apertava, preferíamos suportá-la a enfrentar a escuridão do quintal. A razão nos dizia que estávamos seguros. A imaginação, porém, tinha argumentos mais convincentes.

Até que Seu Pintinho resolveu nos advertir:

— Com essas coisas não se brinca!

A frase, repetida com uma seriedade que contrastava com o ambiente, mudou o sentido daquela tarde. Logo depois, aconteceu o inesperado: ele se levantou de repente, e a mesa pareceu erguer-se com ele, como se, por um instante, tivesse perdido o peso que a mantinha presa ao chão.

Não sei hoje explicar aquele episódio. Sei apenas que o presenciei e que assim permaneceu registrado na minha memória. Há acontecimentos cuja força não depende de uma explicação definitiva. Basta que atravessem a nossa experiência para deixarem marcas.

Naquele instante, as histórias de Dona Arida perderam a condição de simples entretenimento. O que antes provocava medo e curiosidade passou a representar algo que já não sabíamos controlar. Seu Pintinho, até então um amigo alto e forte, pareceu ter sido alcançado por uma experiência para a qual nenhum de nós estava preparado.

A casa continuava a mesma. As bolachas eram as mesmas. Dona Arida permanecia a contadora de histórias. Mas nós já não éramos os mesmos.

Talvez resida aí um dos aspectos mais inquietantes da experiência humana: nem sempre é o mundo que muda diante de nós. Às vezes, é a maneira como passamos a habitá-lo que já não permite que as coisas sejam vistas como antes.

Com essas coisas não se brinca.

A frase pode ser entendida como uma advertência diante daquilo que desconhecemos, mas também merece uma reflexão mais profunda. Afinal, o que são essas coisas com as quais não se deve brincar? O sobrenatural? O sagrado? Os mistérios que escapam à nossa compreensão? Ou os limites que precisamos reconhecer para não transformar a curiosidade em irresponsabilidade?

Não precisamos aceitar todas as explicações que o medo nos oferece. Tampouco devemos confundir o desconhecido com o sobrenatural. Entre acreditar em tudo e negar tudo existe um espaço importante: aquele em que a razão reconhece seus limites sem renunciar ao direito de investigar.

A maturidade talvez comece justamente aí: na capacidade de conviver com o que não compreendemos sem nos entregar cegamente ao medo nem transformar nossas dúvidas em certezas.

Brincar com o medo dos outros, explorar suas crenças ou desafiar seus limites pode parecer uma demonstração de coragem. Mas a coragem que precisa humilhar alguém para se afirmar talvez seja apenas uma forma disfarçada de arrogância. Há experiências que merecem respeito, mesmo quando não compartilhamos a interpretação que lhes é atribuída.

Isso vale também para os sentimentos e as palavras. Há quem brinque com a confiança alheia sem perceber que, uma vez ferida, ela nem sempre pode ser recuperada. Há quem trate o amor como jogo, a amizade como conveniência e a dignidade como algo que pode ser ofendido sem consequências.

Depois, diante do estrago, pergunta por que as coisas mudaram.

Mudaram porque certas experiências transformam a nossa maneira de olhar. O que antes parecia seguro pode deixar de ser. O que provocava riso pode despertar desconforto. E aquilo que julgávamos conhecer pode adquirir uma dimensão que já não conseguimos ignorar.

Foi assim com as tardes na casa de Dona Arida. A magia terminou, não porque as histórias tivessem perdido o poder de assustar, mas porque alguma coisa havia mudado entre nós e elas. A brincadeira já não parecia inocente. O medo deixara de ser apenas imaginado e passara a fazer parte da lembrança.

Não sei se Seu Pintinho encontrou naquele episódio uma explicação que lhe devolvesse a tranquilidade. Sei que nunca mais foi o mesmo, ao menos aos meus olhos. Talvez essa seja uma das marcas mais profundas de certos acontecimentos: não apenas aquilo que conseguimos explicar sobre eles, mas aquilo que já não conseguimos perceber da mesma maneira depois que passam.

O tempo nos ensina a desconfiar das certezas precipitadas. Também nos mostra que nem todo mistério precisa ser convertido em crença, assim como nem toda dúvida deve terminar em negação. Podemos continuar procurando respostas sem desprezar aquilo que ainda não compreendemos.

A vida não nos pede que tenhamos medo de tudo. Pede-nos discernimento para reconhecer que a liberdade não consiste em ignorar os limites, mas em compreender as consequências de ultrapassá-los.

Hoje, ao recordar a casa de Dona Arida, percebo que aquela frase ultrapassou os limites da adolescência. Com essas coisas não se brinca pode ser menos uma sentença sobre o sobrenatural do que um convite à responsabilidade diante dos mistérios da existência.

Há portas que abrimos por curiosidade e não sabemos como fechar. Há palavras que pronunciamos sem medir seu alcance. Há gestos que julgamos passageiros, mas que permanecem na memória de alguém por muitos anos.

Talvez a sabedoria não esteja em viver assustado diante do desconhecido, mas em conservar a humildade necessária para reconhecer que não somos donos de todas as respostas.

Nem tudo o que não compreendemos deve ser temido. Mas tudo aquilo que pode ferir alguém — inclusive a nossa própria consciência — merece ser tratado com seriedade.

Quando o medo deixa de ser brincadeira, a primeira tarefa não é encontrar um culpado nem inventar uma explicação. É recuperar a capacidade de pensar, acolher quem foi atingido e aprender com o que aconteceu.

Há coisas com as quais não se brinca. E há experiências que, mesmo sem revelar todos os seus segredos, nos ensinam que a humildade diante do desconhecido é uma forma de sabedoria.

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