SOMBRAS E MEDOS


LEALDADE, SEGURANÇA E ABERTURA AO NOVO

Entre a fidelidade ao caminho conhecido e a coragem de descobrir outros horizontes

Por Hiran de Melo

Há coisas na vida que não precisam ser novas para continuarem valiosas. Uma velha picape, por exemplo, pode guardar mais sabedoria sobre estradas do que muitos modelos recém-saídos da fábrica. Conhece os buracos, enfrenta as trilhas, responde aos comandos e, depois de tantos anos de convivência, parece compreender até o silêncio de quem a conduz.

Existe, nessa relação, algo que ultrapassa o valor material. Existe uma história compartilhada, uma confiança construída pelo tempo e uma espécie de lealdade que não precisa ser anunciada para se fazer presente.

Talvez seja assim também com as pessoas, as ideias e as instituições às quais dedicamos parte da vida.

A lealdade não é simplesmente permanecer. É reconhecer o valor daquilo que caminhou conosco, sem transformar a gratidão pelo passado em obrigação de permanecer para sempre.

O problema começa quando confundimos fidelidade com imobilidade. Há quem troque de caminho ao primeiro sinal de dificuldade, seduzido pela promessa de uma experiência melhor. Há também quem permaneça onde já não encontra sentido, apenas porque tem medo de reaprender a caminhar.

Nos dois casos, o medo pode se disfarçar de escolha.

Às vezes, chamamos de prudência aquilo que é receio de mudar. Em outras ocasiões, chamamos de coragem a simples incapacidade de reconhecer o valor do que já conquistamos.

A segurança tem seus encantos. Conhecer o caminho diminui a incerteza, poupa esforços e nos permite avançar sem precisar questionar cada passo. Mas existe uma diferença entre encontrar segurança na experiência e transformar o conhecido em abrigo contra todas as possibilidades.

A estrada conhecida pode nos levar longe. Também pode nos fazer esquecer que existem outras estradas.

Na Maçonaria, essa reflexão ganha um significado particular. Os graus, os paramentos e os ornamentos podem marcar etapas de uma jornada, mas não substituem o trabalho que cada obreiro precisa realizar sobre si mesmo. Não é a quantidade de insígnias que revela a profundidade do iniciado, assim como não é o modelo mais moderno que garante a melhor viagem.

O essencial não está em acumular sinais de progresso, mas em compreender o que cada etapa nos ensina.

A verdadeira evolução não se mede pela pressa de chegar ao próximo degrau, mas pela consciência com que pisamos naquele em que estamos.

Isso não significa desprezar o novo. Há momentos em que a mudança deixa de ser uma possibilidade e se torna uma necessidade. A vida nos convoca a rever certezas, abandonar hábitos e reconhecer que aquilo que ontem nos serviu talvez já não responda às exigências de hoje.

A sabedoria consiste em distinguir a novidade que amplia nossos horizontes daquela que apenas alimenta nossa insatisfação.

Nem tudo o que é antigo merece ser preservado. Nem tudo o que é novo merece ser acolhido.

Entre a lealdade e a mudança, existe o discernimento. Entre a segurança e a aventura, existe a responsabilidade de escolher. E entre a experiência acumulada e o desejo de descobrir, existe uma consciência que precisa permanecer desperta.

Talvez amadurecer seja aprender a viajar sem precisar trocar de veículo a cada nova estrada, mas também sem imaginar que a velha picape, por mais fiel que tenha sido, poderá nos levar a todos os lugares.

Afinal, ser leal ao que nos trouxe até aqui não significa fechar os olhos para aquilo que ainda podemos descobrir.

O passado merece respeito, o presente exige consciência e o futuro pede abertura.

Que saibamos conservar o que tem valor, abandonar o que perdeu seu sentido e acolher o novo sem a ingenuidade de quem acredita que toda mudança representa progresso.

Porque a verdadeira segurança não está em nunca mudar de caminho. Está em conhecer suficientemente a nós mesmos para saber quando permanecer, quando partir e por que continuar caminhando.

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