Buscando Sentido na Vida
O AMOR NÃO É UMA PRISÃO
Entre o desejo de ser amado e o medo de deixar de existir no
outro
Por Hiran de Melo
Há
uma diferença entre amar alguém e precisar desse alguém para suportar a própria
existência. Nem sempre percebemos quando atravessamos essa fronteira. Começamos
desejando a companhia, descobrimos a alegria de compartilhar a vida e, sem
perceber, fazemos do outro a razão pela qual nossa vida parece ter sentido.
Então,
o amor começa a carregar um peso que não lhe pertence.
Já
não tememos apenas a partida de quem amamos. Tememos o que restará de nós
quando essa presença desaparecer. Como se, ao perder o outro, perdêssemos
também a pessoa que nos tornamos aos seus olhos.
Talvez
a dependência emocional seja isso: entregar a alguém o poder de confirmar nossa
existência e, depois, viver com medo de que essa confirmação nos seja retirada.
Não
há, entretanto, nada de errado em precisar de afeto. Somos feitos também dos
encontros que nos atravessam, das palavras que nos acolhem e dos olhares nos
quais descobrimos aspectos de nós mesmos que ainda não conhecíamos. Ninguém se
constrói inteiramente sozinho. Mas uma coisa é reconhecer que o outro participa
daquilo que somos; outra, bem diferente, é fazê-lo responsável por aquilo que
ainda não conseguimos ser.
É
nesse ponto que precisamos olhar para dentro, não para encontrar uma suposta
essência perfeita escondida em nós, mas para reconhecer a responsabilidade que
temos pela própria vida.
Somos
seres inacabados. Vivemos fazendo escolhas, revendo caminhos, procurando
sentidos que não nos são entregues prontos. Há perguntas que nos acompanham
porque pertencem à própria condição de existir. Nenhuma pessoa poderá
respondê-las definitivamente por nós, por mais profunda que seja a relação que
construamos com ela.
O
outro pode caminhar conosco, mas não pode existir em nosso lugar.
Quando
esquecemos isso, começamos a exigir do amor aquilo que ele não pode oferecer.
Queremos que o outro cure nossas inseguranças, preencha nossos vazios e nos
proteja da angústia de não saber o que será de nós amanhã. E, quando essa
tarefa impossível não se cumpre, surgem as cobranças, o ciúme e a necessidade
de controlar.
Aos
poucos, deixamos de acolher uma pessoa em sua liberdade e passamos a vigiar sua
liberdade por medo de perdê-la.
Eis
uma das contradições mais dolorosas dos relacionamentos: queremos ser amados
espontaneamente, mas tentamos produzir essa espontaneidade por meio de
exigências. Desejamos que o outro permaneça porque nos ama, mas fazemos de sua
permanência uma obrigação. Queremos a certeza de sermos escolhidos e, para
obtê-la, corremos o risco de retirar do outro a possibilidade de escolher.
Mas
que valor tem uma presença que já não pode partir?
O
amor não se torna mais verdadeiro porque duas pessoas se tornam incapazes de
viver separadas. Às vezes, essa incapacidade apenas revela o quanto o medo se
instalou entre elas. Confundimos a intensidade da dependência com a
profundidade do sentimento, como se sofrer mais para não perder fosse uma prova
de amar mais.
Não
é.
Amar
não significa encontrar alguém que nos complete, como se fôssemos metades de
uma unidade perdida. Talvez sejamos justamente essa procura que nunca termina,
esse movimento entre o que somos e o que ainda podemos nos tornar. O encontro
amoroso não elimina essa condição. Pode, no entanto, torná-la menos solitária e
mais fecunda.
Não
precisamos exigir que o outro nos complete. Podemos descobrir, juntos, outras
maneiras de lidar com aquilo que nos falta.
Isso
não significa transformar a liberdade em indiferença, nem defender uma
autossuficiência que nos torne impermeáveis aos afetos. Também podemos nos
perder, sofrer, sentir ciúme e temer uma despedida. Somos humanos,
contraditórios, nem sempre capazes de agir de acordo com aquilo que
compreendemos. A questão não é deixar de sentir, mas não fazer do sentimento
uma autorização para aprisionar alguém.
O
amor talvez se pareça com uma música que nasce do encontro de duas pessoas.
Cada uma traz sua história, seu ritmo, suas dissonâncias. Quando estão juntas,
algo acontece que não pertence inteiramente a nenhuma delas. Surge uma melodia
própria, feita de presença, escuta e descoberta.
Mas
nenhuma pode reivindicar a propriedade dessa música, nem exigir que ela
permaneça para sempre igual. A melodia existe enquanto se renova no encontro. E
sua beleza não depende de que os músicos percam a liberdade para continuar
tocando.
Se
um dia a música terminar, haverá dor. Talvez a ausência nos obrigue a rever
tudo aquilo que acreditávamos ser. Não precisamos fingir que uma despedida não
nos transforma. Há encontros que deixam marcas profundas, e há perdas diante
das quais precisamos reaprender até mesmo os gestos mais simples da vida.
Mas
sofrer a ausência não significa deixar de existir.
A
liberdade não nos poupa da dor; devolve-nos, pouco a pouco, a responsabilidade
de decidir o que faremos com ela. Mesmo quando não escolhemos a perda, ainda
podemos escolher como nos posicionaremos diante do que a vida fez de nós.
Não
somos livres porque não precisamos de ninguém. Somos livres quando, mesmo
precisando de amor, não fazemos do outro o prisioneiro das nossas necessidades.
Talvez
seja essa a aprendizagem mais difícil: estar com alguém sem transformar sua
presença em garantia contra todas as incertezas da existência. Oferecer amor
sem exigir que ele nos salve. Compartilhar o caminho sem impor ao companheiro a
obrigação de nos conduzir.
O
amor não promete permanência. Promete, quando verdadeiro, a possibilidade de um
encontro em que duas pessoas possam ser mais do que seriam isoladas, sem que
precisem deixar de ser quem são.
E
talvez a maturidade comece quando compreendemos que não amamos alguém para
impedir que vá embora. Amamos porque sua presença faz sentido em nossa vida,
enquanto a vida nos permite compartilhar esse caminho.
Se
a partida acontecer, perderemos uma presença, uma história compartilhada,
talvez até parte dos sonhos que imaginamos realizar juntos. Mas a existência
continuará diante de nós, não como uma consolação fácil, e sim como a pergunta
que nunca deixa de nos acompanhar: o que faremos, agora, com a vida que ainda
nos cabe viver?
Afinal,
amar alguém não deveria significar abandonar a si mesmo para garantir que o
outro permaneça. O amor pode ser o encontro de duas incompletudes, não para que
uma se apodere da outra, mas para que ambas descubram, na liberdade de estar
juntas, novas possibilidades de existir.
Porque
amar não é encontrar alguém que nos livre da tarefa de viver. É descobrir
alguém com quem essa tarefa, por algum tempo ou por toda uma vida, ganha novos
sentidos — sem que nenhum dos dois precise deixar de pertencer a si mesmo.

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