SOMBRAS E MEDOS
O Medo é o Contrário do Amor
Sobre a porta sem tranca do sertão e o tempo
que aprendeu a trancá-la
Por Hiran de Melo
Existe, na memória do sertão, uma
casa cuja porta nunca teve chave.
Não por ingenuidade. Quem vive onde a
seca ensina a medir cada gota sabe o valor do que guarda. Mas aquela casa
guardava outra coisa: a certeza de que, do lado de fora, havia gente, e não
ameaça.
Talvez seja isso o que o livro Histórias
do meu Avô nos devolve, sem pretender. A lembrança de um tempo em que o
medo ainda não governava a casa.
O irmão que assumiu o
nome
Um filho nasce de um momento de
paixão que não cabia no casamento. O verdadeiro pai se cala. E um irmão
solteiro dá um passo à frente e diz: é meu.
Ninguém exige exame. Ninguém abre
processo. A criança é acolhida pela família do pai legal, o casamento se
preserva, e o segredo dorme décadas, até que todos os que poderiam ser feridos
por ele já repousam.
Hoje, chamaríamos isso de hipocrisia.
Talvez fosse. Talvez fosse também
outra coisa: um amor que, diante de uma ferida inevitável, escolhe o menor dano
para todos. Um amor que prefere proteger a expor.
A diferença parece pequena.
Mas muda tudo.
O medo que se veste de
prudência
O medo não chega gritando. Chega com
boas razões.
Chega dizendo que é preciso
proteger-se. Que é preciso saber de tudo. Que é preciso nomear culpados, fixar
regras, vigiar de perto. E a cada razão acrescenta uma tranca.
No começo, uma só, na porta da
frente. Depois, a janela. Depois, o quintal. Um dia, descobrimos que a casa
está inteira protegida e que ninguém mais entra. Nem o vizinho, nem o
diferente, nem o que errou e voltou arrependido.
Já testemunhava o apóstolo João que o
medo é o contrário do amor. Não o seu adversário distante, mas o seu avesso.
Onde um abre, o outro fecha. Onde um acolhe, o outro suspeita. Onde um busca a
conciliação, o outro exige a sentença.
A verdade que precisa
de força
Quem ama aceita caminhar devagar.
Aceita a reforma possível, o ajuste gradual, o costume que se corrige sem ser
demolido.
Quem teme tem pressa.
Teme a dúvida, e por isso quer um
padrão único de verdade. Teme o conflito, e por isso quer impor. E como a força
é a única linguagem que o medo domina, acaba usando-a em nome de tudo o que é
belo.
Em nome da liberdade, da igualdade e
da fraternidade, a França conheceu o terror. Os que o decretaram contra os
outros foram, depois, alcançados por ele. O medo não poupa nem o seu autor.
A norma sem coração
Há, no mundo do sertão, uma intuição
que a nossa época esqueceu: só deve julgar quem tem um coração amoroso.
Não porque o amor absolva tudo. Mas
porque, sem ele, a norma vira máquina. E a máquina aplica a regra sem ver o
rosto, sem ouvir a história, sem perguntar o que se perderia caso a regra fosse
cumprida à risca.
Uma norma aplicada por quem teme é
sempre mais dura do que a norma escrita.
Uma norma aplicada por quem ama é
sempre mais justa do que a norma lida.
Da oposição à
integração
Seria fácil concluir que o medo é um
inimigo a ser expulso.
Talvez não seja.
O medo é um guardião antigo. Foi ele
que ensinou o homem a se afastar do precipício, a respeitar o fogo, a medir o
rio antes de atravessar. Um coração sem nenhum medo não é amoroso. É distraído.
O problema nunca foi o guardião. O
problema começa quando ele se torna o dono da casa.
O amor não derruba o medo.
Acompanha-o até a porta, agradece o aviso e pergunta: quem está lá fora?
Antes de trancar, abre uma fresta e olha. E, muitas vezes, descobre uma criança
que precisa de nome, um irmão que precisa de perdão, um vizinho que só queria
pedir um pouco de sal.
A porta, de novo
A casa do sertão não foi apenas uma
casa de outro tempo.
Está dentro de cada um de nós. Em
cada conversa que poderíamos reconciliar e preferimos encerrar. Em cada erro
alheio que poderíamos acolher e preferimos denunciar. Em cada vez que
escolhemos ter razão em vez de ter irmão.
Você conhece a sua tranca. Sabe de
que lado da porta tem vivido.
O medo guarda a casa.
Só o amor a faz lar.

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