SOMBRAS E MEDOS
AS VOZES QUE VÊM DAS SOMBRAS
Quando confundimos as marcas do passado com aquilo que somos
Por Hiran de Melo
Há
vozes que não nasceram conosco, mas que, de tanto habitarem nossos pensamentos,
adquiriram a aparência da nossa própria voz. Não sabemos exatamente quando
chegaram, nem em que momento deixamos de reconhecê-las como palavras de outros
para aceitá-las como verdades sobre nós mesmos.
Elas
vêm das sombras da memória. Trazem consigo gestos esquecidos, olhares de
reprovação, risos que nos constrangeram e palavras que nos diminuíram. Algumas
nasceram numa infância em que ainda não sabíamos distinguir nosso valor do
julgamento alheio. Outras foram alimentadas ao longo da vida, cada vez que
procuramos aprovação e encontramos rejeição.
O
tempo passa. Crescemos, mudamos de endereço, de profissão, de amizades e de
maneira de compreender o mundo. Entretanto, certas experiências permanecem em
nós como se o calendário não tivesse autoridade sobre elas.
Eis
uma das contradições da existência: podemos ter deixado para trás o lugar onde
fomos feridos e, ainda assim, continuar vivendo de acordo com as regras que
aprendemos naquele lugar.
Imagine
uma criança diante da turma. Ela tenta falar, erra uma palavra, perde o fio do
pensamento. Alguém ri. Outros acompanham o riso. O constrangimento chega antes
que ela consiga compreender o que aconteceu. Naquele instante, talvez não pense
apenas que cometeu um erro. Pode começar a acreditar que há alguma coisa errada
com ela.
Uma
coisa é errar ao falar. Outra é concluir que não sabemos falar. Uma coisa é
experimentar a vergonha. Outra é passar a viver como alguém que precisa
esconder-se para não voltar a senti-la.
O
acontecimento termina, mas a conclusão permanece. Anos depois, diante de uma
nova oportunidade, uma voz se antecipa: “Não vai dar certo. Você não é
capaz. É melhor ficar calado.”
A
voz parece nossa. O medo também. Mas será que tudo o que sentimos como próprio
nasceu, de fato, em nós?
O estranho que fala dentro de nós
Talvez
uma das tarefas mais difíceis da existência seja descobrir quantas partes
daquilo que chamamos de identidade foram construídas a partir do olhar alheio.
Aprendemos
a nos reconhecer no espelho, mas também nos enxergamos nos olhos dos outros.
Quando esses olhos nos acolhem, encontramos espaço para crescer. Quando nos
rejeitam, humilham ou comparam, corremos o risco de transformar o julgamento
recebido numa medida do nosso valor.
A
criança ainda não dispõe de recursos para compreender que um adulto pode ser
injusto, que uma crítica pode ser desproporcional ou que o riso de alguém não
define a totalidade de quem ela é. Ela sente, interpreta como consegue e
guarda.
O
problema não está apenas na lembrança do que aconteceu, mas na interpretação
que se alojou dentro dela e continuou crescendo sem ser questionada.
A
psicanálise nos ajuda a compreender como determinadas experiências e figuras de
autoridade podem ser interiorizadas, participando da formação de uma instância
crítica que vigia nossos desejos e julga nossos comportamentos. Não precisamos
mais da presença de quem nos humilhou: aprendemos a antecipar sua reprovação e
a nos submeter a uma condenação que talvez ninguém esteja mais proferindo.
O
outro desaparece da cena, mas permanece como presença interior.
Quantas vezes somos nós mesmos que continuamos pronunciando as
palavras que um dia nos feriram?
A
voz que nos chama de incapazes pode ser o eco de uma antiga humilhação. A que
nos impede de tentar talvez procure evitar a repetição de uma dor. O que antes
foi defesa, porém, pode ter se transformado em prisão.
É
assim que confundimos medo com personalidade, fuga com prudência e destino com
repetição. A existência, que deveria permanecer aberta à descoberta, começa a
obedecer a conclusões formuladas quando ainda não tínhamos condições de
compreender o mundo nem de nos defender dele.
O passado não é o nosso nome
Existe
uma confusão silenciosa que atravessa a experiência humana: confundimos aquilo que nos aconteceu com aquilo que
somos.
Fomos
rejeitados e passamos a nos considerar indesejáveis. Fracassamos numa tentativa
e começamos a nos imaginar fracassados. Sentimos medo e concluímos que somos
covardes. Uma experiência particular converte-se, assim, numa definição
permanente.
É
como se uma página dolorosa recebesse o poder de resumir um livro que ainda
está sendo escrito.
Mas
quem somos nós, afinal? Seremos apenas o resultado das experiências que nos
constituíram? Ou podemos olhar para aquilo que nos formou e estabelecer uma
relação diferente com a própria história?
Não
podemos negar o passado sem negar parte de nós mesmos. Tampouco precisamos
transformá-lo numa sentença definitiva. Entre a negação e a submissão existe um
caminho mais humano: compreender.
Compreender
que aquela criança fez o que pôde com os recursos de que dispunha. Que a
vergonha sentida era real, mas a conclusão extraída talvez não fosse
verdadeira. Que o julgamento de alguém, por mais importante que essa pessoa
tenha sido, nunca poderia abarcar a complexidade da nossa existência.
A
dor pertence à nossa história. A incapacidade de que nos convenceram não
precisa pertencer ao nosso futuro.
Quantas
certezas sobre nós mesmos resistiriam se perguntássemos de onde vieram? Talvez
a identidade que defendemos com tanta insistência seja, em parte, uma narrativa
que aprendemos a contar e continuamos repetindo porque já não nos lembramos de
quando começamos a acreditar nela.
O
ser humano não se esgota nas definições que aprendeu a aceitar.
A distância entre pensar e ser
Existe
uma pequena mudança de linguagem que pode abrir uma fresta nesse
aprisionamento.
Em
vez de dizer “eu não sou capaz”, experimentar reconhecer: “estou
tendo o pensamento de que não sou capaz”.
A
diferença parece pequena, mas altera nossa posição diante de nós mesmos. Na
primeira afirmação, transformamos uma interpretação numa identidade. Na
segunda, reconhecemos que o pensamento é algo que acontece em nós, mas não
precisa determinar nossas escolhas.
Isso
não significa que basta pensar positivamente para vencer as dificuldades.
Existem limitações reais, circunstâncias injustas, desigualdades de
oportunidades e desafios que exigem preparo, apoio e tempo. Nem todo obstáculo
está dentro de nós, assim como nem toda dificuldade se resolve pela mudança de
atitude.
O
que precisamos evitar é que as limitações imaginadas se confundam com as reais;
que o medo do fracasso nos faça desistir antes de conhecer nossas
possibilidades.
Posso
não saber falar em público e aprender a fazê-lo. Posso sentir insegurança e
preparar melhor minhas palavras. Posso errar diante de outras pessoas sem
concluir que perdi o direito de me expressar.
A
coragem não consiste em desconhecer nossas fragilidades, mas em não lhes
conceder o poder de definir antecipadamente aquilo que podemos experimentar.
Talvez
a liberdade comece quando deixamos de perguntar apenas “o que há de errado
comigo?” e passamos a indagar: “o que aconteceu para que eu aprendesse a
olhar para mim dessa maneira?”
A
primeira pergunta pode nos aprisionar na culpa. A segunda abre espaço para a
compreensão. E compreender não significa encontrar desculpas para tudo, mas
reconhecer as raízes de determinados comportamentos para que possamos
transformá-los.
A vida que deixamos de viver
O
preço das vozes que vêm das sombras nem sempre aparece nos grandes dramas.
Muitas vezes, manifesta-se nas pequenas renúncias que ninguém percebe.
É
a ideia que não apresentamos, a conversa que evitamos, o afeto que escondemos
por medo da rejeição, o projeto que adiamos até que a oportunidade desapareça.
Aos poucos, a vida passa a ser organizada não em torno daquilo que desejamos
experimentar, mas daquilo que precisamos evitar para não sofrer.
E
podemos passar anos chamando isso de normalidade.
Há
uma tristeza particular em descobrir que muitas portas diante das quais
permanecemos imóveis talvez não estivessem trancadas. Fomos nós que aprendemos
a não tocar na maçaneta.
Isso
não significa que todas se abrirão quando decidirmos atravessá-las. Algumas
permanecerão fechadas; algumas tentativas fracassarão. A liberdade não oferece
garantias de sucesso. Oferece a possibilidade de participar da própria vida sem
entregar todas as decisões ao medo.
Às
vezes, basta um gesto que interrompa a repetição: falar mesmo com a voz
trêmula, apresentar uma ideia ainda imperfeita ou reconhecer um desejo que
durante muito tempo escondemos de nós mesmos.
Um
gesto não apaga a história, mas pode inaugurar uma experiência diferente.
Descobrimos que podemos sentir vergonha sem sermos destruídos por ela, errar
sem perder a dignidade e receber uma crítica sem transformá-la numa definição
de quem somos.
A
vida deixa de ser apenas uma tentativa de evitar o sofrimento e volta a ser um
campo de possibilidades.
O encontro com a própria voz
Amadurecer
não significa alcançar um momento em que todas as dúvidas desaparecem. Talvez
seja aprender a conviver com as próprias contradições sem permitir que elas nos
paralisem.
Recuperar
a própria voz não é encontrar dentro de nós uma identidade pura, livre de toda
influência. É conquistar a possibilidade de examinar as influências que nos
constituíram e escolher, com maior consciência, o que faremos delas.
Somos
feitos de encontros, palavras, afetos, perdas e aprendizados. Não escolhemos
tudo o que nos aconteceu, nem controlamos todas as consequências daquilo que
vivemos. Ainda assim, podemos abrir espaço para novas compreensões e
experiências.
Não
precisamos condenar quem fomos para nos tornarmos diferentes. A criança que se
calou talvez estivesse apenas tentando proteger-se. O adulto que hoje hesita
pode estar repetindo uma estratégia antiga de sobrevivência. Ambos merecem
compreensão, mas nenhum deles representa a totalidade do ser que somos agora.
Há,
nessa percepção, uma forma discreta de reconciliação consigo mesmo: reconhecer
nossas fragilidades sem fazer delas o centro de tudo o que somos.
Quando
uma dessas vozes surgir, podemos escutá-la sem nos ajoelharmos diante dela.
Perguntar de onde veio, a que experiência está ligada e se ainda corresponde à
realidade presente. Depois, podemos continuar.
Não
porque somos capazes de tudo, mas porque não conhecemos antecipadamente todos
os limites daquilo que podemos aprender, transformar e realizar.
As sombras não são o destino
Gosto
de pensar que a existência humana não é uma obra concluída, mas uma escrita em
andamento. Há páginas que recebemos sem escolher, capítulos que preferiríamos
não ter vivido e passagens que ainda não sabemos como escrever.
O
passado participa dessa escrita, mas não deveria possuir a última palavra.
As
sombras fazem parte da paisagem porque somos memória e porque as experiências
deixam marcas. Também somos consciência, possibilidade e transformação. A
liberdade talvez não esteja em deixar de sentir medo, mas em perceber quando
ele fala com a voz de uma antiga autoridade. Talvez não esteja em apagar a
vergonha, mas em recusar que ela se transforme numa proibição permanente.
Não
podemos mudar o que aconteceu. Podemos, contudo, mudar a maneira como nos
relacionamos com o que aconteceu e, a partir daí, criar outras possibilidades
para nossa existência.
Uma
lembrança não é a totalidade de quem a guarda. Uma queda não é uma condenação a
cair novamente. E a voz mais antiga nem sempre é a mais sábia, assim como a
mais insistente nem sempre é a mais verdadeira.
O passado pode explicar as vozes que habitam em nós. A
consciência nos permite decidir quais delas continuarão falando em nosso nome.
Talvez
seja nesse instante, quando deixamos de confundir o eco com a nossa própria
voz, que começamos a recuperar o direito de escrever a vida que ainda nos cabe
viver.

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