Buscando Sentido na Vida
UMA BRAÇADA POR VEZ
O direito de cada um
ter o próprio tempo
Por Hiran de Melo
Há
uma violência silenciosa acontecendo diante de nossos olhos: estamos
transformando a vida em uma competição.
Desde
cedo, aprendemos a olhar para o lado.
Quem se formou primeiro.
Quem se casou primeiro.
Quem comprou a primeira casa.
Quem ganhou mais dinheiro.
Quem alcançou o cargo mais alto.
Quem viajou mais.
Quem acumulou mais títulos.
Quem parece ter descoberto, antes de nós, a fórmula de uma vida bem-sucedida.
E,
sem perceber, começamos a medir nossa existência pela régua dos outros.
É
como se houvesse uma idade correta para tudo.
Aos
vinte e poucos anos, precisamos saber o que queremos.
Aos
trinta, deveríamos estar profissionalmente realizados.
Aos
quarenta, financeiramente resolvidos.
Aos
cinquenta, emocionalmente maduros.
Depois
disso, parece que a sociedade começa a perguntar, silenciosamente:
“E você ainda não chegou lá?”
Mas
onde fica esse “lá”?
Quem
estabeleceu esse destino?
Quem
determinou que todos devem chegar ao mesmo lugar pela mesma estrada e,
principalmente, no mesmo tempo?
Talvez
uma das maiores libertações da vida seja descobrir que não existe um
calendário universal para a realização humana.
Existe
o meu tempo.
Existe
o seu tempo.
E
existe o tempo de cada ser humano.
Observe
uma tartaruga no mar.
Ela
não parece preocupada com a velocidade dos peixes.
Não
olha para trás para descobrir quem ficou distante.
Não
olha para frente para calcular quem está chegando primeiro.
Não
sofre porque outro animal nada mais depressa.
Ela
simplesmente continua.
Uma
braçada.
Depois
outra.
E
outra.
Não
há nela a ansiedade de chegar antes.
Há
apenas a necessidade de continuar.
Talvez
tenhamos alguma coisa a aprender com essa aparente lentidão.
Porque
caminhar devagar não significa estar parado.
E
chegar depois não significa ter fracassado.
Há
pessoas que florescem cedo.
Outras
precisam de muitas estações.
Há
quem descubra sua vocação aos vinte anos.
Há
quem a encontre aos quarenta.
Há
quem recomece aos sessenta.
E
há quem finalmente se encontre quando já não precisa provar nada a ninguém.
Por
que transformar isso em fracasso?
A
vida não é uma prova com data marcada.
Não
existe uma banca examinadora esperando conferir se cumprimos, aos trinta,
aquilo que alguém decidiu que deveríamos cumprir aos trinta.
O
problema começa quando transformamos expectativas sociais em obrigações
pessoais.
Casar
em determinada idade.
Ter
filhos em determinada idade.
Ganhar
determinado salário.
Comprar
determinado patrimônio.
Alcançar
determinado cargo.
Ter
determinada aparência.
Viajar
para determinados lugares.
E
então, quando nossa vida não corresponde ao roteiro, imaginamos que alguma
coisa deu errado.
Talvez
não tenha dado errado.
Talvez
apenas tenha sido nossa vida.
O
ser humano não é uma máquina programada para cumprir etapas.
Somos
histórias.
E
histórias não obedecem ao mesmo calendário.
Há
capítulos que chegam cedo.
Outros
demoram.
Alguns
precisam ser reescritos.
Alguns
terminam abruptamente.
E
há capítulos que só podem ser compreendidos muitos anos depois de terem sido
vividos.
Por
isso, ter metas é importante.
Sonhar
é importante.
Planejar
é importante.
A
tartaruga não deixa de nadar porque não tem pressa.
Ela
continua avançando.
A
questão não é abandonar o destino.
É
abandonar a obsessão pela velocidade.
Precisamos
aprender a distinguir pressa de movimento.
Pressa
quer chegar.
Movimento
quer continuar.
Pressa
compara.
Movimento
percebe.
Pressa
olha para o relógio.
Movimento
olha para o caminho.
Talvez
seja possível ter grandes sonhos sem transformar a própria existência em uma
corrida.
É
possível querer crescer sem se desprezar enquanto ainda não chegamos.
É
possível desejar mais sem considerar insuficiente aquilo que já somos.
É
possível admirar quem chegou antes sem transformar a conquista do outro em
acusação contra nós mesmos.
Porque
a conquista de alguém não diminui a nossa.
A
vida não distribui os mesmos mapas.
E,
se não temos o mesmo mapa, não faz sentido exigir que cheguemos ao mesmo
destino pela mesma estrada.
Há
pessoas cuja grande conquista foi construir uma carreira.
Outras
encontraram realização na família.
Outras
precisaram atravessar perdas, recomeços, fracassos e silêncios antes de
compreender o que realmente desejavam.
Há
quem tenha passado décadas tentando corresponder ao sonho dos outros até
finalmente descobrir o próprio.
E
talvez essa descoberta tardia seja uma das mais importantes vitórias possíveis.
Porque
existe uma diferença entre viver muito tempo e finalmente começar a viver a
própria vida.
A
singularidade humana está justamente nisso.
Não
somos cópias.
Não
amadurecemos da mesma maneira.
Não
desejamos as mesmas coisas.
Não
carregamos as mesmas feridas.
Não
recebemos as mesmas oportunidades.
Não
começamos do mesmo lugar.
Então
por que deveríamos ser cobrados pelo mesmo tempo?
Talvez
seja necessário devolver ao ser humano algo que a cultura da comparação lhe
roubou: o direito de ser singular.
O
direito de não estar pronto.
O
direito de mudar de caminho.
O
direito de começar novamente.
O
direito de descobrir tarde.
O
direito de dizer “isso não é mais o que eu quero”.
O
direito de caminhar no próprio ritmo.
E,
sobretudo, o direito de não transformar a vida do outro em medida da própria
existência.
A
tartaruga não precisa vencer os peixes.
Ela
precisa apenas continuar sendo tartaruga.
Essa
talvez seja a provocação.
Você não precisa viver mais depressa. Precisa viver mais de
acordo consigo mesmo.
Uma
braçada por vez.
Um
passo por vez.
Um
dia por vez.
Sem
abandonar os sonhos.
Sem
abandonar as metas.
Mas
também sem permitir que a ansiedade pelo futuro roube a experiência do
presente.
Porque
há uma coisa que quase sempre esquecemos:
a vida não acontece quando finalmente chegamos.
A
vida está acontecendo enquanto caminhamos.
Está
acontecendo agora.
Neste
corpo. Neste instante. Nesta idade.
Com
aquilo que temos.
Com
aquilo que ainda não conseguimos.
Com
aquilo que estamos aprendendo.
Com
aquilo que ainda desejamos ser.
Talvez
não estejamos atrasados.
Talvez
estejamos simplesmente no nosso tempo.
E
talvez amadurecer seja compreender que não precisamos chegar primeiro.
Precisamos
chegar inteiros.
Uma
braçada por vez.
Até
que, um dia, percebamos que não estávamos competindo com ninguém.
Estávamos
apenas aprendendo a atravessar o nosso próprio oceano.

Comentários
Postar um comentário